Avatar do usuário logado
Usuário

‘Estadão’: raça do cavalo símbolo do jornal gera polêmica

Reformulado pelo novo projeto gráfico, símbolo do "Estadão" provoca debate

Por Mariana Barros
9 abr 2010, 16h33 • Atualizado em 5 dez 2016, 18h52
  • O nome do cavaleiro era Bernard Gregoire. Nascido na França, em 1876 ele começou a vender jornais de porta em porta pelas ruas de São Paulo, algo então inédito no país. O periódico que carregava sob o braço chamava-se “A Província de São Paulo”, que começara a ser publicado um ano antes e sobreviveria até hoje, com o nome de “O Estado de S. Paulo”. Com uma corneta de chifre de boi, Gregoire anunciava as manchetes do dia. O barulho atraía a atenção dos cães da vizinhança — sob latidos, ele costumava ser seguido durante o trabalho. Essa cena foi ilustrada pelo pintor paulistano José Wasth Rodrigues (1891-1957) e virou um selo que marcaria os livros da biblioteca da família Mesquita, cujos membros integram a direção do jornal desde 1891. Em 1971, o Ex-Libris, termo em latim que significa “proveniente da biblioteca de”, passou a estampar a nobre página 3, a dos editoriais, e consolidou-se como a marca do “Estadão”. Sobre tudo isso não há controvérsia: são informações que constam nos anais da imprensa brasileira. Uma polêmica em relação à raça do animal que monsieur Gregoire montava, no entanto, veio a galope no mês passado, quando o Estadão, cuja circulação média diária é de 225000 exemplares em dias úteis e de 277000 aos domingos, reformulou seu projeto gráfico e editorial, o que incluiu o redesenho do tal selo para usá-lo no jornal (inclusive na primeira página) e na internet.

    Quem levantou a lebre foi o jornalista Carlos Soulié Franco do Amaral. Profissional com passagem pelo próprio Grupo Estado e ex-criador de cavalos, ele não se conformou com o novo formato. “O redesenho representa um erro histórico”, diz. Segundo ele, a figura original, ainda mantida na página 3, era de um manga-larga, raça formada no Brasil a partir de espécies importadas da Europa e usada para executar serviços como a distribuição de jornais. O cavalo de agora, porém, de pescoço envergado e garupa elevada, seria um tipo exótico, lusitano, que passou a ser criado no país apenas nas últimas décadas. “Há um descompasso entre forma e conteúdo. Esse cavalo de picadeiro deixou de ser um registro fiel”, afirma. O editor executivo do “Estadão” José Carlos Cafundó, com a autoridade de quem editou por 22 anos o suplemento Agrícola e é dono de dois mangas-largas, pensa diferente. Para ele, a carga genética europeia é tão forte nos cavalos brasileiros que, “tivesse a forma que tivesse, o animal sempre possuiu forte sangue lusitano”. Segundo Cafundó, a imagem original é destituída de legitimidade histórica, sendo fruto da imaginação de seu autor. Wasth Rodrigues, no entanto, era historiador. Nascido em São Paulo treze anos depois de monsieur Gregoire ter regressado à França, foi também criador do brasão da cidade de São Paulo. Em seu obituário, escrito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, é definido como um homem que “podia muito bem reivindicar para si o título de um dos maiores historiadores brasileiros, não pela palavra escrita, mas pela imagem”. No essencial, apesar da polêmica, fica tudo como dantes. O lusitano, mais moderninho, instalou-se na capa, logo abaixo do logotipo, e pelo jeito de lá não vai sair. E o bravo manga-larga, com o inseparável cachorro de rabo erguido, permanece onde sempre esteve, como se zelasse pelos impecáveis editoriais redigidos sob a responsabilidade do diretor de Opinião do jornal, Ruy Mesquita — único acionista da família que atualmente tem funções executivas no “Estadão” —, e por 135 anos de tradições que são parte da história de São Paulo.

     

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de 29,90/mês