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O outro lado

Por Ivan Angelo 18 set 2009, 20h18 • Atualizado em 5 dez 2016, 19h45
  • Meu amigo árabe não está gostando da disposição da mulher dele – bela senhora de olhos negros talvez chegando aos seus 40 anos – de fazer uma dieta assistida para emagrecer entre 5 e 8 quilos. Quer a minha opinião. Ele me diz em tom meio de blague, meio de argumento:

    – Considere o seguinte, amigo. Se sua mulher perde 5 quilos, você perde 5 quilos de mulher.

    É um jeito de ver. Outro lado. Quando ele começou a conversa, só vi vantagens no propósito da esposa, vantagens para ele e para a paisagem de modo geral, com todo o respeito. Seria outro ponto de vista. Mas eu não fora solicitado a considerar os prós e contras ou as perdas e lucros estéticos que a redução traria. Os árabes são meio… vamos dizer fechados quanto à avaliação física que outros homens possam fazer das mulheres da família. Ele se referia a uma perda puramente quantitativa.

    Com jeito, convidei-o a ver que o prejuízo tinha outro lado.

    – Você pode ganhar o equivalente a essa perda com uma redução dos gastos com comida.

    Claro que não se pode substituir o conforto de certos acolchoados por alguma impalpável economia caseira. Mas procurei reforçar com exemplos:

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    – Menos trigo, menos carne, menos cordeiro, menos azei–te, menos tahine, menos manteiga, menos snoubar, menos esfihas, menos pão, menos doces…

    A favor da dieta da bela senhora, eu defendia o lado dela com a discrição necessária para evitar o efeito contrário. Sabia que meu amigo sempre fora sensível a argumentos financeiros.

    Ele contrapôs espertamente que a operação de perder peso não se resume a comer menos. Tem outro lado:

    – Comidas especiais. Iogurte desnatado, leite desnatado com mais cálcio, queijo desnatado, tofu, peixe… Tudo light é mais caro.

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    Tentei mostrar que isso também tinha outro lado:

    – Cálcio, vitaminas e exercícios são ótimos para evitar a osteoporose.

    Percebi na sua expressão uma nova atenção, como se eu tivesse tocado num ponto importante. Mas não era o que eu pensava, como saberia daí a pouco. Ingenuamente, continuei:

    – Na idade a que ela está chegando, desculpe tocar no assunto, é preciso começar a pensar na osteoporose, dar atenção especial aos ossos. Evitar o problema.

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    Ah, para que fui falar de exercícios. As implicações desse outro lado da questão estavam sendo trabalhadas na cabeça dele enquanto eu falava. E me interrompeu como se nem tivesse ouvido o que eu dizia sobre osteoporose:

    – Depois vem a academia de ginástica. E academia não é só academia. Tem as roupas especiais, os tênis, as luvas.

    Ele estava demolindo meus argumentos embasados na economia doméstica, e não tardou a deixar isso claro:

    – Some isso com as comidas especiais, aonde é que vai a economia?

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    Eu tinha de buscar outro ângulo. Quase pedi perdão por ser tão íntimo:

    – Isso tudo evita a ce–lulite.

    Ele me olhou severo, deu meia-volta, afastou-se, voltou e atirou:

    – Quem é que vai ver se ela tem celulite ou não?

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    Parecia encerrada a questão. Eu tinha de pisar muito de levezinho nesse chão. Mostrei que havia outro lado:

    – Ela. Ela vê.

    Ele ficou balançado. Aproveitei:

    – A mulher gosta de se sentir mais bonita. Deve ser o caso dela, se sentir mais bonita.

    Não deixei que ele falasse. Cortei, completei:

    – Para você.

    Visto por esse ângulo… Ele se conformou com um sorriso de perdedor que sai ganhando.

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