Endividado, Jockey busca investidores para complexo bilionário

Agremiação deve 250 milhões de reais e quer erguer espaço para lazer, compras e negócios

Os exuberantes chapéus usados pelas frequentadoras do Grande Prêmio São Paulo, a mais tradicional prova do turfe da cidade, cuja última edição ocorreu em maio, contrastam com a penúria financeira do Jockey. Nas últimas temporadas, a agremiação, fundada em 1875, tem lidado com prejuízo anual de 30 milhões de reais.

Como não bastasse, acumula dívida de 250 milhões de reais, 70% disso só de IPTU. Na corrida para arrumar as contas, a atual diretoria, encabeçada por Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional e vice-presidente da Fiesp, acena com um plano ousado.

A aposta da vez é levantar um complexo comercial, imobiliário e de entretenimento nos 586 000 metros quadrados da principal sede do Jockey, o Hipódromo Cidade Jardim, na Marginal Pinheiros. Segundo estimativas de mercado, o empreendimento pode custar 3 bilhões de reais. A equipe não confirma valores, mas sabe-se que há negociações em andamento com oito grupos empresariais.

O projeto será feito em etapas, e a intenção é terminar tudo até 2027. A primeira fase foi planejada para ser concluída no próximo ano. Ela envolve a construção do Parque do Jockey, que será aberto à população e ficará no meio da pista de corrida, com vegetação rasteira para não impedir a visão dos apostadores na arquibancada.

O plano prevê quatro passagens subterrâneas, saindo de várias áreas do clube, para acesso do público ao espaço de 100 000 metros quadrados com bosque e lago. Outras propostas só devem sair do papel a partir de 2019. As cocheiras, por exemplo, provavelmente vão virar um shopping a céu aberto, com teatro, cinema e lojas. Os 700 cavalos hoje abrigados ali iriam para outra sede, em Campinas.

Jockey Club de São Paulo

Vista do Jockey Club (Divulgação/Veja SP)

Tombados, os simpáticos predinhos da vizinha Avenida Lineu de Paula Machado certamente serão adaptados para receber bares e restaurantes, em um bulevar. Parte do muro atual que se estende pela mesma via deve ser derrubada, dando lugar a uma cerca viva. Dois pontos, um próximo da Avenida Francisco Morato e o outro na altura da Ponte Cidade Jardim, ficarão reservados para a construção de prédios comerciais, residenciais e até um hotel.

Existe ainda um estudo para erguer no local uma roda-gigante de 135 metros de altura, em parceria com a equipe responsável pela London Eye. Embaixo, seria aberta uma filial brasileira do museu de cera Madame Tussauds, outra atração turística da capital inglesa. Serão vetados os grandes eventos de música, motivo de reclamação frequente dos moradores por causa do barulho e do trânsito.

Esse plano se assemelha em parte a uma proposta da diretoria anterior, chefiada até março pelo empresário Eduardo da Rocha Azevedo. Durante alguns anos, sua equipe negociou a construção de dois edifícios e um centro comercial na área das cocheiras. As tratativas com as gestões de Gilberto Kassab e Fernando Haddad nunca avançaram. Desta vez, no entanto, a equipe de Steinbruch conta com a chancela de João Doria.

Em reunião na semana passada, ele deu o sinal verde para o avanço das negociações, mostrando-se bastante animado com a possibilidade de a capital ganhar mais um parque público. A intenção é trocar uma dívida por outra. O poder executivo municipal perdoaria o débito do IPTU e o Jockey desistiria de uma ação na Justiça na qual a entidade cobra da prefeitura 250 milhões de reais pela desapropriação da Chácara do Jockey, em 2011.

O acordo ainda depende da aprovação do conselho municipal de patrimônio histórico (para as intervenções em locais tombados), da Justiça e da Câmara dos Vereadores (para avalizar a isenção do IPTU). Apesar do difícil processo que terá pela frente, a administração está otimista. “É uma proposta boa, e a questão deve ser solucionada em breve”, diz a secretária de Urbanismo e Licenciamento, Heloisa Proença.

De acordo com a direção atual do Jockey, a ideia pode representar uma solução definitiva para os problemas de caixa da agremiação. Erguidas em 1945, as três tribunas abrigavam um público de 30 000 pessoas nos tempos áureos, na década de 70. Neste ano, atraem aproximadamente 1 500 apostadores por tarde, o que rende um faturamento anual de 100 000 reais.

Com prêmios e custo de manutenção dos cavalos, só o turfe provoca um déficit anual de 18 milhões de reais. Além disso, metade dos 2 000 sócios tem isenção de mensalidade, de 540 reais. “Vamos oferecer mais títulos no mercado e incentivar as apostas por meio de tecnologias como aplicativos”, afirma o CEO Luís Blecher, que assumiu em agosto reduzindo o quadro de funcionários de 360 para 220.

Para fechar as contas, o clube se abre à população. Criado há dois meses, o festival de food trucks aos sábados aumentou o público e os ganhos diários em 20%. Outros negócios inaugurados nos últimos meses, como as quadras de areia Beach Arena e o restaurante Iulia, direcionam, respectivamente, 30% e 5% de seu faturamento ao clube. “Queremos acabar com a imagem de lugar elitista. Vamos receber a cidade de braços abertos”, diz Blecher.

No páreo

Algumas atrações que seriam implantadas no terreno de 586 000 metros quadrados na Marginal Pinheiro

1. Área verde de 100 000 metros quadrados, com acesso subterrâneo para o público

(Divulgação/Veja SP)

2. Torres residenciais e comerciais

(Divulgação/Veja SP)

3. Espaço com lojas, restaurantes e outros serviços de gastronomia

(Divulgação/Veja SP)

4. Centro de compras a céu aberto, acrescido de instalações como teatro e cinema

5. Roda-gigante London Eye e um museu de cera Madame Tussauds

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