Jardim Paulista vive processo de verticalização
O bairro, que sempre concentrou o comércio e a vida noturna mais elegantes da cidade, passa por mudanças em sua paisagem
Um símbolo do requinte de São Paulo está em processo de transformação. Como ocorre em outras áreas nobres da cidade, o bairro do Jardim Paulista, na Zona Oeste, está sendo verticalizado, substituindo casas e prédios baixos por torres modernosas e de altura estonteante.
Inevitável em se tratando de uma metrópole, dirão alguns. Mas também preocupante — uma vez que o charme do bairro foi exaltado na capa da primeira Vejinha (foto), com belas ilustrações do artista Ivald Granato (1949-2016). E ninguém gostaria de ver o lugar perder o seu elã.
Por Jardim Paulista é conhecida a região que reúne alamedas com nomes de cidades do estado, como Itu, Jaú, Franca e Lorena, por exemplo. Ele é parte de uma área mais ampla, os Jardins, grupo formado por ele e seus “irmãos” arborizados: Jardins América, Europa e Paulistano.
Mas sempre foi o mais badalado da família, reconhecido por suas ruas de comércio grifado, seus restaurantes sofisticados, mas principalmente pela aura de cidade europeia, lugar do desfile de gente bonita, antenada e bem relacionada.
“A Rua Augusta tinha lojas históricas, era o nosso shopping a céu aberto. Hoje, está sem glamour e um verdadeiro canteiro de obras de grandes edifícios”, diz a advogada Célia Marcondes, fundadora e atual vice-presidente da Sociedade dos Amigos, Moradores e Empreendedores do Bairro de Cerqueira César (Samorcc), que acredita estar havendo, no lugar, uma verticalização predatória e que não contempla a revitalização de uma das ruas mais famosas da cidade. E, por conta disso, a região está perdendo a cara.
Por meio do movimento Viva Augusta viva, a Samorcc vem lutando para conservar lugares tradicionais, como o cinema, localizado no chamado Baixo Augusta, parte da rua que fica mais próxima ao centro da cidade. “Mas há muito estabelecimento indo para o chão, não apenas lá, mas em outras vias, como a Oscar Freire”, completa Célia.
Quem se acostumou a tomar um café na Cristallo da Oscar Freire, por exemplo, já deve ter reparado que a tradicional cafeteria, que resistiu ali por cinquenta anos, deu lugar a uma megaconstrução, atualmente coberta por tapumes. A cafeteria foi fechada em janeiro do ano passado.
Para o corretor de imóveis Will de Almeida, especializado nos Jardins, a região vive tempos de “incorporação 2.0”, em que até prédios inteiros, mais antigos, estão sendo derrubados para dar lugar a novos empreendimentos. “Hoje, há uma busca maior por apartamentos altos, com uma boa vista da cidade”, explica o corretor. Grande parte da demanda vem de novos moradores da cidade, que migram das regiões Norte e Nordeste e elegem os Jardins para morar.
Há também um movimento de moradores vindos de outros bairros da cidade. “A região ainda é relativamente segura, arborizada, gostosa de viver”, diz Will, ele mesmo um morador do lugar. “Acredito que o bairro esteja ficando mais plural, e isso é benéfico”, aponta. Mas isso se dá também pelos endereços que ainda permanecem nas redondezas, como o Clube Paulistano e o empório Santa Luzia, no número 1471 da Alameda Lorena.
“Muita gente quer morar lá perto”, garante o corretor. O sofisticado mercado é um dos que resiste à verticalização, além de restaurantes como o Rodeio (Haddock Lobo) e o Ritz (Alameda Franca) e bares como o Balcão (Alameda Tietê), ainda bastante frequentados por quem vive ou passa pela região. Para o empresário e sócio do restaurante Ritz, Octavio Horta, as mudanças nos arredores são inegáveis. “Estamos resistindo há quarenta anos, mas nunca se sabe o que vai acontecer”, diz. Por ora, esse ponto de encontro de um público interessante e animado continua intacto e cheio de charme.
Caso Ângela Diniz: o que aconteceu com Doca Street depois de matar namorada?
Masp tem entrada gratuita neste domingo (30); confira exposições em cartaz
Quem foi Ângela Diniz e por que sua história atrai tanta atenção?
Totò vai mudar para a Vila Nova Conceição 27 anos depois de sua fundação
‘Mistério em Cemetery Road’: um thriller elegante e bem pensado





