A invasão dos pernilongos: incidência de insetos dobra na capital

Calor recorde e redução na pulverização de inseticida aumentam a proliferação de mosquitos na região do Rio Pinheiros

Ao assumir seu cargo, há duas semanas, o prefeito João Doria vislumbrava desafios de porte gigantesco à frente. Seus maiores adversários seriam monstros paulistanos mitológicos, como o nó do trânsito, a fila das creches e o péssimo atendimento na saúde. Por ironia do destino, o primeiro inimigo a atrapalhar seu sono tem apenas 5 milímetros de comprimento. Desde a segunda quinzena de dezembro, bairros da capital, sobretudo da Zona Oeste, tornaram-se alvo de uma infestação de pernilongos.

O epicentro dessa crise é o Rio Pinheiros, considerado o principal criadouro dos minúsculos voadores na metrópole. Uma amostragem realizada por técnicos da prefeitura encontrou 20 000 larvas e 56 000 espécimes adultas no curso de água, o dobro da média normal.

O excedente populacional invadiu os lares vizinhos e detonou uma nuvem de protestos nos canais de atendimento da administração municipal. Em apenas um dia, na última terça, 10, a unidade da Supervisão de Vigilância em Saúde responsável pela região de Pinheiros e Lapa recebeu mais de 500 queixas contra mosquitos. O número é maior do que o de todas as reclamações protocoladas sobre o tema na cidade inteira entre janeiro e novembro do ano passado.

Pulverização de inseticida no Rio Pinheiros, na quinta (12): a prefeitura encontrou 56 000 mosquitos no local (Foto: Leo Martins)

Pulverização de inseticida no Rio Pinheiros, na quinta (12): a prefeitura encontrou 56 000 mosquitos no local (Foto: Leo Martins)

Os casos de famílias paulistanas em guerra contra a invasão alada proliferaram nos últimos dias, boa parte deles via redes sociais. Na Lapa, o filho de 4 anos da psicóloga Fabiana Dias Cardoso chegou a ser medicado com corticoide para controlar uma inflamação causada por um ataque de insetos na madrugada. Na Vila Leopoldina, a administradora Sandra Paola Amado postou um vídeo que mostra um enxame de quase cinquenta pernilongos tentando ultrapassar as telas recém-instaladas na janela.

No Butantã, a advogada Mariana Aidar ficou com os braços e as pernas inchados por causa de picadas, apesar de passar repelente todo dia. Surgiu até um abaixo-assinado pedindo providências à prefeitura. Em uma semana, mais de 9 000 pessoas aderiram ao coro. “Minha irmã está grávida e fiquei apavorada, tive de fazer algo para ajudar a mudar a situação”, conta a analista de seguros Thais Villas Boas, moradora da Vila Madalena e autora do manifesto.

Algumas razões ajudam a explicar o recente ataque de mosquitos do gênero Culex, nome científico dos pernilongos. A principal delas está ligada à aplicação insuficiente de veneno na vegetação às margens do Rio Pinheiros. O chamado “fumacê”, técnica que pulveriza substâncias capazes de matar os insetos adultos, ficou restrito nos últimos anos ao combate ao Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya, sendo mais utilizado em áreas com grande concentração de casos, como a Zona Leste. “As ações foram pontuais e emergenciais, porque o inseticida contra pernilongos causa danos ambientais”, afirma o biólogo Sílvio Rocco César, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ).

Em 2003, no lançamento de um programa para controlar a praga, 100 litros de veneno eram borrifados por mês no rio. No ano passado, a média na cidade inteira foi de 10 litros. Apesar da queda, há a suspeita de que alguns espécimes podem ter se tornado imunes aos venenos. “O uso recorrente naturalmente contribui para selecionar os indivíduos mais resistentes”, explica o biólogo André Luís da Costa da Silva.

O calor acima do normal também pode ter contribuído para a proliferação mais intensa, pois acelera o ciclo de reprodução dos bichos. Até a semana passada, a capital havia registrado 23 dias seguidos com temperatura acima dos 30 graus, a segunda maior sequência desde 1961, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia. “Quando fica quente, um pernilongo pode levar só cinco dias para atingir a forma adulta, um terço do tempo habitual”, diz Costa da Silva.

E, finalmente, um fenômeno socioeconômico está sendo incluído nessa equação: o crescimento do número de imóveis vazios e encalhados por causa da crise financeira. “Os bairros da Zona Oeste estão repletos de residências grandes e fechadas, com as piscinas abandonadas funcionando como possíveis criadouros”, diz Rocco César, do CCZ.

Vascularizado por afluentes e córregos que se tornaram esgotos a céu aberto, o poluído Rio Pinheiros proporciona o ambiente perfeito para a adaptação do pernilongo. Praticamente sem oxigênio, suas águas são livres de predadores, como peixes. E, em comparação ao Rio Tietê, a correnteza é quase estática, o que beneficia o processo de transformação de larvas em adultos. Não é, no entanto, o único ponto da capital com potencial para servir de berço aos insetos.

Outros focos são praças e até cemitérios. A praga se reproduz na vegetação e basta uma pequena quantidade de água, como o orvalho, para os ovos eclodirem. Nos Jardins, as queixas se concentram entre os vizinhos às áreas verdes. “Fizemos vários pedidos para a aplicação de inseticida, mas nunca fomos atendidos”, reclama Fernando José da Costa, presidente da associação local.

Diante da crise, a prefeitura anunciou medidas emergenciais. A principal ação nesse sentido ocorreu no último dia 12, quando oitenta agentes de saúde e onze funcionários de prefeituras regionais, com o apoio de uma barcaça, aplicaram larvicida na água e inseticida no entorno do Rio Pinheiros, entre outras ações. A cada quinze dias, o CCZ passará a pulverizar também os córregos, e não apenas o curso principal de água da região, como era feito até então. “Temos a suspeita de que as larvas nascem no Pinheiros, mas se desenvolvem nos afluentes”, diz o secretário de Saúde, Wilson Pollara.

Outra ação será intensificar a poda de vegetação em canteiros e praças. “A limpeza em dia evitará novos criadouros”, acredita o prefeito regional de Pinheiros, Paulo Mathias. A vizinha Ceagesp entrou no radar e deve receber uma dose extra de veneno na terça (17). Além disso, ruas como Paulo Franco, na Vila Leopoldina, Diógenes Ribeiro de Lima e Vitorino de Carvalho, no Alto de Pinheiros, e vias no Butantã receberam a visita do “fumacê” na semana passada. Segundo a prefeitura, esse pacote de medidas deve surtir efeito em um prazo de dez dias.

Até lá, os moradores dos bairros mais afetados estão se armando com um arsenal contra zumbidos e picadas. Em poucas semanas, a procura por dedetizações específicas contra pernilongos na capital cresceu 10% em relação ao verão passado. “É uma surpresa, nosso trabalho costuma se concentrar em animais de outros tipos”, afirma Sérgio Bocalini, diretor da Associação dos Controladores de Vetores e Pragas Urbanas.

Em algumas empresas, a busca por esses serviços aumentou 50%, principalmente em condomínios. “Encontramos os bichos alojados no fosso de elevadores e em caixas d’água”, diz o biólogo Randy Baldresca, dono da Biópolis, que tem fechado quatro novos contratos por semana. Um dos clientes recentes foi o Condomínio Reserva Granja Julieta, na Chácara Santo Antônio, onde lançaram 3 litros de veneno na quarta (11). “Fechamos um contrato de um ano”, afirma o síndico Jesse Oliveira.

Outra arma nessa batalha é a tela mosquiteira. Na rede de material de construção Telhanorte, a procura pelo produto teve alta de 500% em dezembro, em comparação ao mesmo período de 2015. “Os modelos de poliéster e velcro, que o próprio consumidor pode instalar, são os que têm mais saída”, explica Rogério Costa, chefe de mercado da loja. O artigo custa entre 20,90 e 31,90 reais.

Uma das adeptas da proteção extra foi a auxiliar administrativa Tathiane Cabral Casali, moradora da Vila Leopoldina. “Meu filho de 2 anos levou picadas nas orelhas e até na pálpebra”, lamenta. Nas Lojas Americanas, a raquete elétrica é o item mais disputado, com crescimento de 400% nas vendas nos primeiros dez dias deste mês, em comparaçãoao mesmo período de dezembro. De olho na procura, o mercado oferece produtos diferenciados.

Uma das sensações do verão é a armadilha apelidada de “sapinho”, da fabricante chinesa Nsbao. Com funcionamento noturno, ele atrai o mosquito por meio de uma luz ultravioleta. Em seguida, o inseto é sugado por uma ventoinha e morre desidratado (não há veneno). Cerca de 50 000 unidades foram comercializadas na capital desde o início da estação, número dez vezes maior que o registrado há dois anos. “Os clientes dizem que o aparelho chega a capturar 100 insetos em uma única noite”, afirma Boris Wei, diretor da marca (confira mais exemplos abaixo).

Para darem conta da bicharada, os paulistanos também têm recorrido às farmácias. Em apenas uma unidade da Drogaria São Paulo, na Vila Leopoldina, por exemplo, mais de 300 frascos de repelente escoaram das prateleiras neste mês, um aumento de 400% em relação a janeiro passado. Nessa área, a novidade é o Non Aedes. Com tecnologia alemã, o produto em spray chega no sábado (21) às farmácias da capital com a promessa de proteção por até dez horas. Segundo especialistas, no entanto, é preciso ter cuidado com os prazos estipulados pelos fabricantes. “No calor, os repelentes perdem eficácia. O melhor é reaplicá-los três vezes ao dia”, alerta a dermatologista Flávia Ravelli.

ENTRE ZUNIDOS E PICADAS

Os dramas e as medidas tomadas por paulistanos para se proteger contra a atual infestação

Armadilha letal

Fabiana Dias Cardoso reclama de pernilongos em sua casa na Lapa (Foto: Alexandre Battibugli)

Fabiana Dias Cardoso reclama de pernilongos em sua casa na Lapa (Foto: Alexandre Battibugli)

Em um só dia, a psicóloga Fabiana Dias Cardoso encontrou mais de quarenta pernilongos no produto conhecido como “sapinho”. “Os bichos estão mais rápidos, só o inseticida não está mais dando conta”, diz.

Imunização extra

Thatiane Cabral Casali: precaução por causa do filho de dois anos ( Foto: Alexandre Battibugli)

Thatiane Cabral Casali: precaução por causa do filho de dois anos (Foto: Alexandre Battibugli)

Após uma noite em que seu filho de 2 anos ficou cheio de picadas no rosto, a auxiliar administrativa Thatiane Cabral Casali correu a comprar uma série de produtos para se precaver. “Fiz um pedido e o condomínio realizou uma dedetização especial.”

Arsenal

Bolivar Lamounier: 1 200 reais em telas de proteção (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Bolivar Lamounier: 1 200 reais em telas de proteção (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

O cientista social Bolívar Lamounier gastou 1 200 reais no último mês em telas, óleo de citronela e sete aparelhos que atraem as pragas. “Moro há dezessete anos no Alto de Pinheiros e nunca tinha visto algo parecido”, diz.

Rede de proteção

Sandra Paola Paolinelli gravou um vídeo em que mostra os insetos tentando entrar em sua casa (Foto: Leo Martins)

Sandra Paola Paolinelli gravou um vídeo em que mostra os insetos tentando entrar em sua casa (Foto: Leo Martins)

O sossego da administradora Sandra Paola Amado só chegou depois que vedou o apartamento com telas antimosquito. “Já sofri bastante”, diz ela, que gravou um vídeo em que mostra uma nuvem de pernilongos tentando entrar pela janela de um cômodo.

AO ATAQUE

As “armas” disponíveis no mercado

Non Aedes

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Com o princípio ativo IR3535, o repelente oferece proteção por dez horas. No calor, deve ser reaplicado três vezes ao dia. 43 reais.

SBP Advanced

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Em forma de gel, permite uma aplicação mais uniforme do produto. Contém 10% do princípio ativo icaridina e sua ação dura até cinco horas. 26,99 reais.

Exposis

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Garante proteção por dez horas, devido aos 25% de icaridina em sua fórmula. Para evitar contato com os olhos, o uso no rosto deve ser moderado. 89 reais.

OFF! Family

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Com DEET, tem duração de seis horas. Deve ser usado em doses generosas. Não é indicado a menores de 12 anos. 20,20 reais.

SBP Inseticida

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Eficiente ao ser aplicado diretamente sobre os insetos ou pulverizado em um ambiente, que deve ser fechado por vinte minutos. 10,70 reais.

Raid Elétrico

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ligado à tomada, afasta pernilongos por um mês e meio sem que o refil seja trocado. O uso recomendado é apenas noturno. 24,99 reais.

Armadilha (sapo)

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Com funcionamento noturno, a armadilha luminosa atrai o mosquito, que é sugado por uma ventoinha e morre por desidratação. 89 reais.

Vela de citronela

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

A alternativa menos eficaz, pois deixa de repelir os insetos após vinte minutos de uso. Autonomia de 25 horas de queima. 34,99
reais (kit com seis).

Jimo Gás

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Mais indicado para uso especializado. O ambiente deve estar fechado, sem animais, plantas nem pessoas por um período de oito horas. 10,80 reais.

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