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História de uma dieta

Por Walcyr Carrasco
18 set 2009, 20h19 • Atualizado em 5 dez 2016, 19h44
  • Encontrei uma amiga. Elogiei:

    – Emagreceu!?

    – Contratei uma nutricionista – explicou.

    Peguei o telefone. Marquei hora, decidido a avaliar a profissional.

    – Se for gorda, desisto!

    Que nada! Valéria era um belo cartão de apresentação de seus méritos. Magra, alta. Sem um grama de gordura a mais. Durante duas horas discutimos meus hábitos alimentares. Foi gentil.

    – Você não terá problema em seguir o regime – trinou, otimista.

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    Fingi acreditar. Não há dieta à base de torresmos e pudim de leite, itens que sempre considerei indispensáveis no meu cardápio!

    Assessorou minha fiel ajudante, Denise, para a execução das receitas. Passou a enviar um cardápio semanal. Já na primeira semana, espantei-me ao defrontar com uma substância desconhecida, levemente parecida com flocos de isopor.

    – Que é isso aqui no prato?

    – Quinoa!

    Segundo o texto da caixa, é uma espécie de grão produzido no altiplano boliviano, de alto teor nutritivo. Ao mastigar, eu me senti uma lhama! Tem um agradável sabor de coisa nenhuma. Muito melhor, em todo caso, que o arroz integral ou as sementes de girassol, também constantes no menu. Corri para ler todas as receitas. Bem, algumas eram de fato bem transadas. Lasanhas light, saladas com frutas. Naquele dia, desfrutei também um delicioso frango ao molho de vinho. Estendi o prato.

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    – Mais um pedaço.

    A gentil Denise demonstrou uma inesperada vocação para carcereira.

    – Não, senhor. Ela diz aqui: só um pedaço. Duas colheres de arroz e duas de quinoa.

    Tive vontade de ameaçar demissão. Ela sorriu feliz da vida por mandar em mim.

    – O senhor não quer emagrecer?

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    Mais uma batalha da eterna luta de classes fora travada! O vencido era eu! Estava nas mãos dela! Minha vida passou a ser controlada por horários. Lanchinho no fim da tarde. Suco. Chás. Valéria telefonou.

    – É importante adquirir o hábito de tomar chá à noite, por causa do metabolismo.

    – Tenho tomado! – menti.

    Um silêncio do outro lado. Óbvio, a carcereira havia ajudado na avaliação da dieta! O que dava certo, o que não dava e do que eu fugia!

    Fui para o Rio de Janeiro. Um amigo me chamou.

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    – Há um hambúrguer novo, com sabor de churrasco. Vamos?

    Pulei como um cabrito. Na segunda mordida, um ataque de consciência. “Para que pagar nutricionista e me sacrificar se na primeira oportunidade jogo tudo para cima?” Mais outro pedaço, desisti! Quando voltei a São Paulo, Denise me esperava com um suco.

    – Chegou justinho na hora de tomar!

    No almoço, uma salada. Sempre comi bem! E nem uma bomba de chocolate!? Denise tentou me consolar.

    – No fim da semana que vem, tem omelete!

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    Dois dias depois, quando me serviu uma mísera colherinha de feijão ao lado de uma coxinha de frango, tive vontade de chorar. Mastiguei lentamente para durar mais. Surpresa! No meio do prato, já não tinha mais fome! De repente, percebi: com tantos lanchinhos, sucos, cereais… estou comendo menos! Corri para a cozinha. Abri a geladeira em busca de queijo para comemorar. Só branco.

    – Nem um doce, nem um queijo?

    – Não estava no cardápio, não comprei!

    Eu me rebelei.

    – Escuta aqui, não contratei uma madrasta!

    Reagiu, magoada:

    – Tudo isso é para seu bem!

    Mas nem tudo é desespero. Semanas depois, fui me pesar. Quatro quilos a menos! Ah, que vontade de festejar! Humm… festejar não é bem a palavra. Banquete com arroz integral? Que vida! Ah, que saudade de uma feijoada!

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