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Em grave crise, rede Futurama procura investidor para escapar da falência

Com prateleiras vazias, a cadeia de supermercados tem dívida multimilionária

Por Barbara Öberg Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 14 fev 2020, 16h03 - Publicado em 25 Maio 2018, 06h00

Uma das principais redes de supermercados da cidade, o Futurama enfrenta a pior crise de sua história. Desde o início do ano as seis lojas paulistanas da bandeira, espalhadas pelas zonas Norte e Oeste, além do centro, sofrem desabastecimento digno da Venezuela. Há diversas gôndolas completamente vazias, refrigeradores desligados e áreas de hortifrúti sem uma única maçã para contar história.

Em muitas ocasiões, resta aos funcionários, quase sem clientes para atender, encontrar modos de se distrair, como ler revistas e até lixar as unhas. “Batemos papo o dia todo”, diz uma das empregadas da unidade da Avenida Angélica. A freguesia fiel agora passa reto pelos endereços. “O clima é de velório e não há nada para comprar”, reclama a dona de casa Maria Beatriz Vieira.

Fundada em 1992, na capital, pelo sírio Elias Habka, morto em 2014, a organização é comandada atualmente pelos herdeiros do empreendedor, os irmãos Fadel, Faissal e Farize. Os problemas da família surgiram, principalmente, por imbróglios na Justiça. A marca é acusada, entre outras questões, de não pagar impostos, o que resultou em pedidos de bloqueio de parte do faturamento e penhora de recursos em conta bancária. Somente os valores cobrados em processos iniciados pela União ou pelo Estado de São Paulo atingem pelo menos 500 milhões de reais. Sem capital de giro disponível, a rede parou de saldar as contas — de fornecedores a aluguéis. Apenas os funcionários têm recebido em dia.

No passado, para tentar ajudar a reerguer os negócios, uma das estratégias do grupo foi dividir a cadeia e criar um CNPJ para cada endereço. O Futurama em Santa Cecília, por exemplo, trocou o nome para Supermercado Angélica. Apesar de não ser ilegal, a tática foi contestada na Justiça sob o argumento de se tratar, na prática, de um grupo, e não de empresas independentes.

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Esse método dificulta aos credores encontrar nas contas de apenas uma unidade saldo suficiente para honrar os pagamentos. A possibilidade de bloqueio de bens também acabava ficando mais limitada, já que normalmente se restringe a um porcentual do negócio.

Em abril, a filial da Lapa baixou as portas após quinze anos de atividade. Os outros pontos devem seguir o mesmo caminho em breve se uma mudança não ocorrer. A companhia, que chegou a ostentar um faturamento de 26 milhões de reais por mês (hoje, de acordo com seus advogados, ele gira em torno de 5 milhões) e mais de 1 000 funcionários (atualmente, são cerca de 580), não consegue mais sair do vermelho sem a ajuda de um investidor externo. “A recuperação é factível, mas precisamos de um parceiro financeiro para ontem”, afirma Othon Beserra, advogado do negócio.

Funcionárias da loja na Avenida Angélica: “Batemos papo o dia todo”, diz uma delas (Alexandre Battibugli/Veja SP)

A pressa tem ainda outro motivo: o risco de os credores pedirem a falência da bandeira. De acordo com o advogado empresarial Leandro Amorim, do escritório Costa e Tavares Paes, a possibilidade de sucesso nesse caso se mostra quase nula. “Mesmo que outra rede se interessasse em comprar o Futurama, precisaria arcar com as enormes obrigações fiscais e trabalhistas deixadas pela antiga empresa”, explica. “Uma saída poderia vir de fundos abutres, conhecidos por comprar negócios em dificuldade por valores mínimos, restabelecê-los e vendê-los.”

Além da encrenca jurídica e da recessão econômica, outros fatores ajudaram a prejudicar a situação do Futurama. Nos últimos anos, a expansão dos minimercados, concorrentes da marca, e a falta de modernização impediram um balanço positivo. “Algumas companhias mais antigas do ramo evoluíram, outras não”, acredita Álvaro Furtado, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios de São Paulo (Sincovaga). “A administração baseada em velhos hábitos pode levar ao fechamento de um negócio.”

Um exemplo positivo do setor, igualmente de gestão familiar, é o Hirota, fundado em 1972. O empreendimento soube se reinventar ao trazer ares jovens à marca, vender produtos como refeições japonesas e se aliar à etiqueta de bugigangas orientais Daiso.

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