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“Nós estamos muito próximos de um colapso”, diz diretora do Hospital das Clínicas

Eloisa Bonfá afirma que a segunda onda do Covid-19 não permite relaxamentos e se defende da acusação de que o centro médico foi priorizado na vacinação

Por Sérgio Quintella Atualizado em 12 mar 2021, 00h32 - Publicado em 12 mar 2021, 06h00

Há um ano, a Vejinha fez uma reportagem de capa sobre os preparativos do HC para atender à chegada dos pacientes com Covid-19. Na época, com 695 óbitos no estado (hoje são mais de 60 000), o hospital optou por isolar um prédio inteiro. Quais as diferenças entre o início da pandemia e o pico de 2021?

A principal diferença é que, da primeira vez, quando iniciamos o isolamento, as pessoas tinham medo e não saíam de casa. Não havia traumas nem agressões. Toda a demanda habitual diminuiu e pudemos nos dedicar à Covid. Em setembro e outubro, começou a ficar mais tranquilo e foram aumentando os casos de não Covid. Esses pacientes que chegam se encontram em estado grave, descompensados. Muitos estão há um ano sem tratamento. Nas últimas três semanas, os casos de Covid voltaram a aumentar. (Em fevereiro), atendíamos cerca de 140 pacientes não Covid por dia, contra quarenta com a doença. Agora, estamos recebendo os mesmos 140 e mais 150 com coronavírus. É mais do que temos capacidade.

A curva de contágio e óbitos tem subido mais rápido agora do que no início da pandemia?

No ano passado, demorou dois meses para atingirmos a média de 160 internações por dia. Agora chegamos perto disso em muito menos tempo. A curva está subindo reto. Subimos de uma vez, e não sabemos aonde vai parar. A situação aqui pode colapsar.

Antes vocês tiveram mais tempo para se preparar. O que pretendem fazer agora?

Temos de nos reorganizar internamente e reduzir a entrada (de pacientes de outras especialidades). A primeira coisa foi suspender as cirurgias eletivas por quinze dias. Só não suspendemos as cirurgias urgentes. Precisamos de um pouquinho mais de flexibilidade.

A senhora acredita que o endurecimento das regras de isolamento será suficiente para brecar a subida do contágio?

Uma vez tendo ocorrido o contágio, não se consegue pará-lo. Imagino que haverá um aumento de casos e de óbitos nas próximas duas semanas. Se o distanciamento funcionar, é possível que a gente consiga tomar o controle do processo nas semanas seguintes. Nós temos de aprender a conviver com a Covid. Não podemos ter festas, deixar de usar a máscara. Não pode haver relaxamento. Tivemos Carnaval, outras festas e ainda se fala nas novas mutações.

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De que forma as novas mutações do coronavírus são mais contagiosas?

Todos os vírus fazem mutações. Há as mais relevantes, como as de Manaus e da Inglaterra, mas há outras cepas detectadas. Elas têm um contágio mais alto por carregar maior quantidade de vírus. Como diz uma colega, a Anna Sara Levin (professora do Departamento de Doenças Infecciosas da USP), as novas variantes não perdoam nenhum erro de relaxamento.

As infecções ocasionadas pelas novas variantes são mais graves?

Não tem sido reportado maior gravidade. O que há é um maior número de pessoas procurando atendimento ao mesmo tempo. Existem evidências, mas ainda não se percebeu com exatidão (aqui no HC), de que as pessoas contaminadas são mais jovens, na faixa de 30 a 50 anos. Como nossos pacientes são mais graves e nossos números são muito grandes, ainda não percebemos essas mudanças (no perfil).

Quantos pacientes o HC internou desde o início da pandemia e qual o índice de óbitos?

Internamos 5 195 pessoas contaminadas e mais de 2 000 com suspeita. Oitenta por cento delas precisaram de intubação, 30% de diálise e 30% de pronação, que é permanecer de bruços para melhorar a respiração. Nosso índice de sobrevida é de 70%

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De cada dez internados, três morreram de Covid?

Esses pacientes tinham previsão maior de óbito. Pela gravidade, pelas comorbidades, é um índice abaixo do esperado. Mas é um número alto.

“Fomos pegos de surpresa e atropelados. Às 5 da tarde o governador solicitou que iniciássemos a vacinação em 28 000 funcionários”

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Quanto tempo leva para o paciente se recuperar plenamente depois de uma internação na UTI?

O paciente mais grave vai ter sequelas. A respiração demora até noventa dias para voltar a ser como era. Há cansaço, fadiga, problemas de memória, sequelas neurológicas.

Qual a sua sensação quando a senhora volta para casa depois de um dia de trabalho no hospital e depara na rua com pessoas sem máscara e não respeitando as regras de isolamento?

Sensação realmente de desânimo. Não estamos conseguindo mostrar o tamanho da gravidade. Não é possível termos 2 000 mortes por dia no Brasil e ignorarmos a situação. Há a questão econômica para relevar, mas estamos muito próximos de um colapso no sistema de saúde. Ainda temos leitos, mas, se todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, não teremos mais vagas suficientes.

Como está a saúde mental dos médicos e demais profissionais da saúde do HC um ano depois da internação dos primeiros pacientes de Covid?

Recebemos um apoio importante do Instituto de Psiquiatria, que criou diversas iniciativas, incluindo um aplicativo de celular. Nós, do comitê de crise, tivemos uma pessoa disponível para nos atender, mas tudo isso foi desativado. A gente estava caminhando para outra situação. Agora há um conjunto de frustração, cansaço e tentativa de negar a situação. O que nos ajudaria é sermos compreendidos pela população.

O HC foi acusado de ser favorecido na distribuição das vacinas. Os profissionais longe da linha de frente foram vacinados, diferentemente do que ocorreu em outros hospitais?

Fomos pegos de surpresa e atropelados. Chamaram-nos para acompanhar a aprovação (pela Anvisa, em 17 de janeiro) e às 5 da tarde o governador João Doria solicitou que iniciássemos a vacinação em 28 000 funcionários do HC. Nesse momento, não existia no estado determinação de quem seriam os prioritários, por isso seguimos a recomendação do Ministério da Saúde. Todo mundo que trabalha no hospital é profissional da saúde. Quem trabalha na secretaria é a primeira pessoa a receber um paciente. Seguimos critérios nacionais até então.

Vocês foram atropelados pela pressa do governador em correr para vacinar os paulistas antes de o presidente Jair Bolsonaro fazer isso?

Vacina na geladeira não ajuda ninguém. Cada dia morrem 2 000 pessoas. Quanto mais rápido vacinarmos, menos gente vai morrer. É aritmético.

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Publicado em VEJA São Paulo de 17 de março de 2021, edição nº 2729

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