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Depois do Uno

Por Walcyr Carrasco
18 set 2009, 20h18 • Atualizado em 5 dez 2016, 19h45
  • Há alguns meses perdi meu cachorro muito amado, o husky siberiano Uno. Sofri durante sua doença e compartilhei minha angústia através de uma crônica. Recebi centenas de e-mails e cartas, com pessoas relatando dores semelhantes. Lembro-me até de uma mensagem em que um rapaz contava jamais ter tido cachorro ou gato. Mas, apesar disso, se identificava com minha perda. Afinal de contas, perda é perda. Antes de Uno partir para a operação da qual não retornou, conversei com ele de noite, enquanto acariciava seus pêlos.

    – Ah, Uno querido! Se você não voltar, foi um bom tempo que passamos juntos! Obrigado!

    Dentro do meu coração, senti que ele entendeu!

    Depois que Uno morreu, anunciei:

    – Nunca mais quero ter cachorro! Nem gato, nem passarinho!

    Disposto a manter minha palavra, recusei inúmeras ofertas de filhotes. Resolvi:

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    – A vida é mais fácil sem um cachorro. Posso viajar à vontade, sem preocupação.

    Alinhavei mentalmente argumentos que provavam quanto era melhor não ter bicho nenhum.

    No Ano-Novo, fui para Camburi, uma praia no Litoral Norte de São Paulo. Fiz tudo o que manda a tradição: pulei sete ondinhas, comi uvas, bebi champanhe. Depois da ceia, deitei na rede da varanda. No escuro, iluminados apenas por velas, eu e meus amigos jogávamos conversa fora. De repente, um enorme cachorro negro apareceu, vindo da rua. Fizemos sinais.

    – Vem cá! – eu disse.

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    Ele veio. E me obedecia em tudo! A ponto de outra pessoa comentar:

    – Esse cachorro parece que é seu!

    Fiquei um longo tempo brincando com ele. Queria prendê-lo, mas na praia não tenho muros! Ele foi embora. No dia seguinte, descobri que dormiu na porta do condomínio. Decidi que seria meu. Prometi gorjetas aos caseiros da região. Saí a procurá-lo na praia. Não o encontrei de jeito nenhum.

    Tempos depois, um amigo, Robson, foi para a mesma praia e me telefonou.

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    – Você quer mesmo aquele cachorro?

    – Nunca mais quero ter cachorro, mas esse eu quero – respondi dentro de uma lógica inexplicável.

    Eu estava no Rio de Janeiro. Passei uma semana péssima. Esqueci da conversa. Voltei fragilizado, em um momento difícil da vida. Quando cheguei a São Paulo, meu amigo me esperava em casa.

    – Tem uma surpresa para você lá no quintal.

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    Era uma cachorrinha preta, vira-lata, magérrima.

    – Aquele cachorro que você queria tem dono. Mas esta é uma prima dele!

    Peguei o bichinho trêmulo no colo. Abracei. Robson explicou:

    – Se você não quiser, minha tia fica com ela!

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    Mas eu não ia querer? Abracei-a e, é claro, dei nome de gente: Ísis. Se alguma Ísis se sentir ofendida, me perdoe! Dali a alguns dias, pensei:

    – A Ísis precisa de companhia!

    Uma conhecida achou uma vira-latinha abandonada, tentando atravessar a rua no meio de carros e motos. Salvou-a. Mandou uma foto por e-mail. Fiquei com ela: Morgana. Um outro amigo, Roberto, estava com um filhote peludo preso no apartamento pequeno. Abriguei o Cauê! De repente, fiquei com três cachorros!

    Não bastou. Passei na vitrine de uma pet shop e me apaixonei por uma gata. Agora, dedico parte das noites a estabelecer relações diplomáticas entre a felina e os cães! Até que vai indo bem, com miados e latidos de parte a parte!

    E então, no meio dessa confusão, me dei conta: a vida continua! Nunca vou esquecer do meu husky. Um cão não substitui outro, como uma pessoa também não. Mas sempre há espaço para mais sentimentos. A vida se renova. Melhor ainda, o amor sempre renasce! Além de reforçar meu eterno otimismo, essa certeza me desperta uma paz profunda!

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