Neste abril, faz 57 anos que comprei meu primeiro carro, no mesmo ano em que publiquei meu primeiro livro. Aquele Fusca 61 azul-turquesa foi da segunda safra fabricada no Brasil. Comprei-o com dois meses de uso de um colega jornalista em Belo Horizonte. Não sabia dirigir, aprendi o passo a passo lendo o manual, em cumplicidade com um irmão mais novo.
Com um mês, derrapei na saída do Viaduto da Floresta e bati de frente na mureta do Córrego do Arrudas. O carro se machucou um pouco; eu tive apenas uns arranhões na alma.
Um ano depois ele se machucou feio, batido por outro carro na madrugada. Bairro chique, lembro-me do principal cronista social da cidade saindo de casa de roupão de seda, para ver a batida, ajudar se preciso. O Fusca azul estava deitado de lado, eu embolado em cima do carona, gordo e confortável. Imaginem o espaço dentro de um Fusca deitado de lado. Juntou gente que botou o carro de rodas no chão, e pudemos sair. Meu amigo carona dizia: “Coitado do carrinho”, vendo-o amassado dos dois lados, o batido e o arrastado.
Refeito, o Fusca seguiu sua vida de aventuras. Frequentou o primeiro motel de BH. As moças saíam do carro cobrindo a cabeça com blusas e capas de chuva, temendo ser reconhecidas naquele lugar do Capeta. Estacionou em todos os escurinhos propícios para namorar que havia na cidade e arredores. Namorava-se com segurança à luz das estrelas, naquele tempo. O carrinho foi ao Rio, pela antiga BR-3, aquela da música de Tony Tornado, “A gente corre na BR-3 / A gente morre na BR-3”, lembram-se? Foi a São Paulo levando amigas para assistir a um concerto de música barroca do ensemble italiano I Musici, no Municipal. Foi à Bahia, ao encontro de Klauss e Angel Vianna, e voltou trazendo uma carona fantástica, modista e e x-cantora da Rádio Mayrink Veiga. Nessa volta pelo sertão abrasador cantamos quase mil quilômetros de sambas e marchinhas dos anos 1930 e 1940. Ah! Na viagem de ida, à noite, perto de Três Rios, numa curva apertada que me obrigou a reduzir para 40 quilômetros por hora, meus faróis iluminaram de repente uma vaca atravessando a estrada. Reduzi ainda mais, pisei no freio, com o risco de rodar, e mesmo assim bati na vaca, a uns 20 quilômetros por hora. Ela como que se sentou no bico do capô, gemeu lá no fundo do peito, uuhh!, levan touse, tropeçou, e subiu o barranco. Amassou o capô e quebrou o farol direito. Assim fomos até Salvador, onde um “chapista” deu um jeito.
Mudou-se comigo para São Paulo, foi várias vezes a BH, pela temerária Fernão Dias de então — foi nela que um pedrisco estourou o para-brisa, cobrindo-nos de estilhaços e arrancando do carona Ezequiel Neves a exclamação tipo últimas palavras: “Pronto, tudo acabou”, mas não era o fim ainda. O Fusca azul desbravou todo o litoral paulista, atravessando riachos e areões, até o Estado do Rio, chegou a Santa Catarina e quase morreu afogado na praia de 70 quilômetros da Ilha Comprida, perto de Iguape. Atolou na areia enganosa da praia, veio a maré e cobriu-o até o nível das janelas. De longe, conformado com a fatalidade e chateado, olhava-o ser tragado pelo mar. Só se via a capota, da base dos vidros para cima. Quando a maré baixou, eu e a namorada cavamos a areia em volta das rodas, uns pescadores e um caminhãozinho que passou ajudaram a desencalhá-lo. A água tinha escorrido, havia areia por todo canto. Acreditam que o motor pegou e voltamos direitinho para o hotel? Foram sete anos de aventuras até vendê-lo. O primeiro carro a gente não esquece.
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