Carta para a Flórida

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Meus queridos, o que eu quero lhes dizer é que a coisa aqui tá preta. O Chico Buarque já disse isso, em outra situação. Era a época do “Ame-o ou deixe-o” — esse “o” era o Brasil. Os incomodados que se retirem, diziam os pró-militares. Pois agora, sem ninguém mandar, os incomodados estão se retirando. Nos últimos seis anos, o número de pessoas que entregaram declarações de saí da definitiva do país à Receita Federal cresceu 160%. Em 2016 foram 18 500. E os que saem sem dizer nada, apagam a luz e se vão? E os que nada têm a perder ou a declarar? Famílias, profissionais, jovens vão embora para Portugal, Flórida, Canadá, Austrália, Chile. Só daqui do prédio onde moro saíram duas famílias, jovens, filhos pequenos; uma aí para a Flórida, a outra para Santiago do Chile. O que toda essa gente quer? Paz, andar na rua, emprego, respeito, ir à praia sem arrastão, andar de ônibus sem assédio, pagar impostos sem ser roubada, falar ao celular sem ser furtada, preço justo, educação, esperança.

Estão tramando eleições, vocês sabem. É, são os mesmos, velhos espertalhões, novos espertos, um ou dois idealistas sem chances. Temos umas quinze figurinhas carimbadas querendo ser presidente, imagine. Todas vivendo abaixo da linha de pobreza eleitoral, com 0% a 15% das intenções de voto. Insistem, formam quadrilhas, arrogam -se. Não entendo por que tantos caras brigam para ser presidente no Brasil, uma fria monumental, do ponto de vista das tarefas. O eleito só terá de arrumar emprego para 12 milhões de pessoas, controlar déficits absurdos, promover um pacto social em que todo mundo tem de ceder, fechar a multiplicação de bandidos e de suas ferramentas mortais, estancar as sangrias da corrupção, modernizar, exportar, proteger a moeda, trocar a dengue pelo dengo, botar caderno escolar na mão de cada criança e tentar dormir. Por que brigam tanto por esse empreguinho maledetto? Deve ser porque todos se safam, sempre: os que presidiram, o que preside e os que vão presidir. Política hoje é para isso, para o cara meter a mão e se safar. Temos 58 000 “autoridades” com foro privilegiado, criado para elas rolarem suas dívidas.

Chega de coisa chata.

Lembra, filha, do Severino, nordestino, pedreiro amigo meu? Trabalha há vinte anos reformando apartamentos aqui nas colinas de Perdizes, vai todo dia de trem para casa, em Francisco Morato. Mais de uma vez percebeu mulheres se queixando de um aproveitador no aperto dos trens. Pegou bronca. Marcou um que foi preso uma vez e saiu no mesmo dia. Juntou mais dois “caboco” e ficou de olho. Um dia deu aquele tumulto no trem em velocidade, de mulher se queixando e homem se arrumando, e então os três se juntaram, agarraram o homem, levantaram-no e o jogaram pela janela. No trem de Morato não se viu mais o tal.

Estivemos uns dias na praia, em abril há mais feriados e menos calor. O sol aqui tem cada vez mais trabalho com as mulheres e menos com os homens: as garotas vão para a praia com biquínis cada vez menores e os garotos com bermudões cada vez maiores. Eles com mais vergonha do corpo, elas com menos vergonha em geral.

Carolina, nossa Carolzinha, 2 anos e 10 meses, está metida a falar inglês. Papai é boy, mamãe é girl; yellow, blue, big, little… — exibe-se. Seu mundo se alarga, nosso coração se comprime…

Os dias aqui vão ficando mais frescos, mais claros, a luz é mais intensa, o azul é quase um escândalo. Da minha janela vejo os ipês exagerando seus roxos e rosas, uma espatódea floresce em tons de abóbora na colina oposta, da Pompeia, os verdes se intensificam à espera do frio que virá. Ontem, passou por aqui um bando ruidoso de ararinhas, sinal de que comida não falta.

Dá para aguentar mais um pouco.

Beijão pra vocês.

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