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Congonhas e Cumbica registram rádios piratas

Aeroportos de São Paulo recebem seis interferências por dia de rádios clandestinas

Por Maria Paola de Salvo e Sandra Soares 18 set 2009, 20h34 | Atualizado em 5 dez 2016, 19h23

Os 225 profissionais que controlam o tráfego aéreo nos aeroportos de Congonhas e Cumbica estão habituados a ouvir pregações evangélicas e trechos de música durante as conversas, via rádio, com os pilotos de aeronaves prestes a pousar ou decolar. Quando essas interferências provocadas por rádios piratas se tornam fortes a ponto de dificultar a comunicação com os aviões, eles precisam testar outras sintonias, em pleno vôo, até achar uma em que a troca de informações seja restabelecida com segurança. “É um stress danado”, diz o presidente da Federação Brasileira das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo, Carlos Trifilio. “Já aconteceu de termos dois aviões na mesma rota e perdermos contato com eles por até um minuto.” Na manhã da última terça-feira (29), as interferências foram tão intensas e persistentes que Congonhas e Cumbica precisaram interromper as decolagens por seis minutos, a partir das 9h50. “Em 27 anos de carreira, não me lembro de ter testemunhado a paralisação simultânea desses dois aeroportos”, afirma o chefe do Serviço Regional de Proteção ao Vôo em São Paulo, coronel Carlos Minelli de Sá. “Testamos quatro freqüências e todas estavam poluídas.”

Desde janeiro do ano passado, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), responsável pela identificação das emissoras clandestinas, mapeou cerca de 1000 rádios piratas na capital. Dessas, 150 foram fechadas pela Polícia Federal. “A maioria é de cunho religioso”, diz o delegado Fábio Henrique Maiurino, um dos que combatem esse tipo de atividade. A pena para quem mantém rádios ilegais pode variar de dois a seis anos de detenção, se ficar comprovado o risco à navegação aérea. “Mas até hoje ninguém foi preso porque o crime é considerado de menor potencial ofensivo”, explica Maiurino. “Isso incentiva a reabertura das rádios já autuadas.”

O problema vem se agravando. Em janeiro de 2006, a média era de uma interferência por dia – hoje são seis. Em maio, houve 178 ocorrências. Por causa delas, Congonhas, o mais movimentado aeroporto do país, tem precisado aumentar o intervalo entre pousos e decolagens, como medida de segurança. Isso, claro, implica mais atrasos para os passageiros. Na quarta-feira, a Anatel divulgou o fechamento de uma das emissoras que um dia antes haviam paralisado os aeroportos de Congonhas e Cumbica. Uma certa Virtual FM, de conteúdo gospel, não tinha licença de funcionamento e operava com transmissor de 300 watts. Como as rádios clandestinas quase sempre utilizam transmissores inadequados (muito potentes ou de má qualidade), o som emitido por elas invade as freqüências exclusivas para a aviação, compreendidas na faixa entre 108 e 137 megahertz.

A saída definitiva para acabar com as interferências é substituir a comunicação via rádio pela comunicação via satélite, solução adotada por países como o Japão e a Costa Rica. “O sistema digital elimina os problemas da comunicação analógica”, diz Ricardo Chilelli, engenheiro aeronáutico e consultor em segurança de vôo. Seria preciso um investimento de cerca de 70 milhões de dólares para equipar Congonhas e Cumbica – valor que cabe bem no orçamento do Fundo Aeronáutico, que acumulava até o fim do ano passado 1,9 bilhão de reais, dos quais só 17% foram efetivamente usados.

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