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Advento poético

Parem as máquinas, que a menina chegou. Veio anunciar auroras. Chegou ligando as Américas em mensagens urgentes via satélite. Chegou para celebrar a paz entre os clãs. Deponham suas armas, generais, presidentes, capos; tirem dos gatilhos seus dedos nervosos, esvaziem suas ogivas, ó belicosos, que a menina traz luz no nome e paz no gesto. […]

Por Ivan Angelo
Atualizado em 5 dez 2016, 19h45 - Publicado em 18 set 2009, 20h18
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  • Parem as máquinas, que a menina chegou.

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    Veio anunciar auroras.

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    Chegou ligando as Américas em mensagens urgentes via satélite.

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    Chegou para celebrar a paz entre os clãs. Deponham suas armas, generais, presidentes, capos; tirem dos gatilhos seus dedos nervosos, esvaziem suas ogivas, ó belicosos, que a menina traz luz no nome e paz no gesto.

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    Chegou a esperada das gentes.

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    É anjo e traz a mensagem do espírito que paira sobre as águas. Dá o mesmo recado àqueles com quem o espírito não se comunica.

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    É a mensagem de todas as coisas criadas: eu acrescento ao mundo o que não havia, eu sou a novidade, a vida nova.

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    A enviada não cobra fé, apenas claridade.

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    Havia meses que de dentro da nave-mãe ecoava a batida compassada que anunciava o advento.

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    De todos os lugares por onde passava a nave chegavam notícias: a mensageira está a caminho.

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    De onde partiu, onde começou tal viagem? Decerto em terra paulista, foi de paulistanos gerada. Em São Paulo, cidade predestinada, de trabalho, de amores, de suor, de frias manhãs em que os trabalhadores expiram neblina, de quentes meios-dias com almoços corridos, do anoitecer de olhares no metrô, foi em São Paulo, a que não dorme, a que não pára, que o sonho tomou forma e se ouviu um novo coração batendo – coisa mágica, um coração começar a bater. E antes, e depois, de onde veio vindo a menina? De Furnari, lugarzinho na Sicília? De Messina? Roma? Portugal? Minas? Ilhabela? Nova York?

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    O prenúncio se cumpriu: a menina veio à luz, mostrou-se afinal.

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    Chegou cansada da viagem, longuíssima jornada desde as origens da humanidade.

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    Chegou chorando, e inaugura sorrisos pelos caminhos.

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    Cheia de graça.

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    Veio atando nações, histórias, mitos, costumes, tradições.

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    Chegou para dar continuidade a certo perfil, certo nariz, para ler os livros que ficaram esquecidos nas estantes, para exigir mais compromisso dos políticos, mais respostas dos juízes, para semear virtudes nos campos devastados, para manter acesos os fornos dos afetos, para se sentar à mesa das famílias, para se juntar aos da geração de renascimentos, para atrair os desgarrados, abraçar os que se afastaram, desarmar os espíritos, desatar nós, estar junto ao menor sinal.

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    Veio leve, pouca bagagem: na mão direita, a agenda do inevitável; na esquerda, o livro de receitas; no coração, esperanças; na cabeça, o objetivo, por enquanto único, de prosseguir. Veio leve, sem programa, pois quem habita entre os bons já tem o bem como lição. Veio leve, sem matula, confiante de que nada lhe há de faltar.

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    Quando chegou, um anjo alegre, desses que vivem na luz, disse: Vai, menina, ser lume na vida. Vai cumprir o duplo destino das mulheres, seara e semente. Chegada, deixas de ter os privilégios dos seres sonhados ou imaginados, comerás o pão com o suor do teu rosto, com dores darás à luz, mas teu caminho é a claridade.

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    Chegou, chegou Helena, anunciadora de auroras!

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