O segredo da “cozinha afetiva”: nostalgia e bom tino para negócios

Batizado de "cozinha afetiva", o conceito vem sendo adotado por diversos profissionais

Há quem diga que “mãe é tudo igual, só muda o endereço”. Não é de se estranhar, então, que muitas brasileiros partilhem o mesmo cardápio em reuniões de família: lasanha e macarronada com bastante molho, frango assado com farofa ou creme de milho, bife com batata frita, pudim de sobremesa, bolo de coco gelado… Os exemplares saídos do caderninho de receitas que passam de geração para geração são muitos – e rendem bons frutos também para os restaurantes.

O mercado da chamada “cozinha afetiva”, ou “comfort food”, ganhou força com profissionais dedicados a trazer de volta sensações nostálgicas através do paladar.

Luisa Haddad, fundadora e presidente do Pé de Feijão, negócio social que busca transformar a relação das pessoas com a alimentação, define o termo como algo que remete a uma memória e traz sensações boas. “Os filhos não vão lembrar daquilo que saíram para comer ou daquela pizza que foi pedida pelo telefone, mas sim das comidas feitas pelos pais, os avós”, diz Luisa.

Bióloga de formação, Luisa promove desde 2013 diversas oficinas de “cozinha afetiva”. Junto com os alunos, prepara um bolo gelado de coco, embrulhado no papel-alumínio, do mesmo modo que era feito pela sua mãe quando ainda estava viva. Com isso, a idealizadora busca reavivar a tradição e estimular que novos hábitos na cozinha sejam também transmitidos para as futuras gerações.

. Responsável pelo Petit Comité Buffet e conhecida por já ter atendido a estrelas como Sting, Elton John e os membros das bandas Rolling Stones e Guns N’ Roses, a banqueteira Rita Atrib abriu, no começo de 2016, o Petit Comité Rotisserie & Deli para oferecer receitas bastante conhecidas, como tortas, quiches e sopas, tudo congelado. Seis meses depois, atendendo a pedidos de clientes, passou a preparar pratos frescos. “Sirvo uma comida saudável e de afeto, para que as pessoas sintam o conforto de casa, um acolhimento dentro da frieza que é São Paulo”, diz Rita.

No cardápio – que muda diariamente – é possível encontrar sobrecoxas de frango assadas com batatas e cenoura e bolo de carne com purê de batatas, assim como salada de legumes e folhas, nos dias de calor, e sopa de mandioquinha, abóbora ou canja de galinha, para quando o frio está em alta.

Duas veteranas do reality show MasterChef Brasil também estão envolvidas com o conceito, de maneiras bastante particulares. A personal chef e ex-participante da segunda temporada do MasterChef Profissionais, Raissa Ribeiro define a si mesma como “uma chef de cozinha afetiva”. “O termo remete a bons momentos com a família, a ter uma ligação com os alimentos”, define. Bastante influenciada pela avó, com quem morou por muito tempo enquanto crescia, ela diz que essa é a sua cozinha favorita. “Legal é fazer um macarrão gostoso, um nhoque gostoso, o mesmo que minha avó fazia na mesa de madeira em casa”, complementa.

Para Elisa Fernandes, vencedora da primeira temporada da versão para amadores do reality culinário, que retornou há pouco ao Brasil após alguns anos estudando gastronomia e trabalhando na França, o conceito de cozinha afetiva pode ser mais abrangente. “Não precisa necessariamente lembrar a avó”, defende Elisa. Dessa forma, a chef trabalha essa afetividade a partir do cuidado que tem na elaboração dos seus pratos, utilizando-se de produtos locais, orgânicos e vindos de fornecedores que ela conhece e respeita.

“Para todos os produtos envolvidos na sua comida, é preciso valorizar as relações humanas por trás deles”, diz ela que, enquanto se readapta à vida no Brasil, promove menus flutuantes em diversos restaurantes da cidade, alguns dias por mês. Nesse esquema, a chef procura se aproximar dos seus clientes, deixando clara a sua proposta de trabalhar com a memória e as sensações das pessoas através da comida, trocando informações e experiências. “Em um restaurante de cozinha afetiva, o acolhimento é completo”, finaliza.

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