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Em Terapia Por Arnaldo Cheixas Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.

Como controlar o medo exagerado

A proximidade de uma possível situação aversiva, real ou imaginária, mobiliza áreas cerebrais que alteram o estado fisiológico do organismo, produzindo medo (ansiedade). Manter a situação imaginada na consciência acaba agravando o estado de estresse produzido pelo medo. O problema é que qualquer esforço para não manter aquilo na mente acaba surtindo o efeito oposto. É […]

Por Carolina Giovanelli Atualizado em 26 fev 2017, 15h19 - Publicado em 28 jul 2015, 12h00

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A proximidade de uma possível situação aversiva, real ou imaginária, mobiliza áreas cerebrais que alteram o estado fisiológico do organismo, produzindo medo (ansiedade). Manter a situação imaginada na consciência acaba agravando o estado de estresse produzido pelo medo. O problema é que qualquer esforço para não manter aquilo na mente acaba surtindo o efeito oposto. É como se alguém dissesse: “Não pense num elefante!”. A primeira imagem que vem à mente é exatamente a de um elefante.

Evitar o medo é uma estratégia infrutífera tanto porque se trata de uma reação fisiológica extremamente forte quanto porque possui valor evolutivo, ou seja, ajuda o indivíduo a se adaptar ao ambiente e sobreviver. Assim, um modo alternativo de lidar com o medo é deixar que ele siga seu curso e usá-lo em benefício próprio.

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Um exemplo interessante são os pacientes com dificuldade emocional em obter e/ou manter a ereção. O medo de que isso aconteça é tão grande que o estado de ansiedade realmente impossibilita a ereção já que, para ocorrer, ela depende de uma excitação prazerosa sem estresse. Por conta do medo, esses pacientes podem ter de enfrentar o problema da disfunção erétil com causa emocional.

A intervenção psicoterapêutica deve abordar diversos aspectos da vida do paciente mas há uma estratégia relativamente simples que acelera bastante o processo. Trata-se de aceitar parcialmente a ausência da ereção (note-se que o problema já ocorre) e colocar o foco da consciência em algo alternativo.

Costumo propor a esses pacientes que só se preocupem com a falta de ereção depois que ela acontecer 23 vezes seguidas (um número cabalístico aleatório). Com a liberdade para “falhar” todas essas vezes, o foco da atenção e da consciência começa a se deslocar para o sexo em si e, de repente… bum, lá está a ereção novamente.

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Apenas a título de variedade, lembro-me de uma paciente com medo de turbulência aérea mas que tinha uma viagem de avião marcada para a China. Seguindo a mesma estratégia, combinamos que ela só se preocuparia a partir da vigésima quarta turbulência. Ela até elaborou uma tabelinha para ir registrando as turbulências. Foram quatro na ida e duas na volta, quando ela quase não sentiu medo.

Outro caso interessante foi o de uma bacharela em direito que estava tentando sem sucesso a aprovação no exame da OAB fazia cinco anos. A ansiedade sempre a atrapalhava na hora de fazer as provas, comprometendo seu desempenho. No caso dela, combinamos que ela faria quatro exames sucessivos apenas para que eu pudesse avaliar seu desempenho e sua ansiedade. Pedi também que ela não contasse a ninguém que faria os exames, já que isso é uma fonte desnecessária de ansiedade.

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Ela reprovou no primeiro, mas se surpreendeu por perceber que não sentiu medo dessa vez, já que não havia o objetivo de dar certo. Ela reprovou basicamente por não ter estudado muito. Eu soube que uma parte importante do caminho já havia sido percorrida. Propus, então, que estudasse para o segundo exame como se fosse pra valer, mesmo que só para avaliarmos a situação na terapia. O resultado é de se imaginar. Ela foi aprovada logo no segundo exame do acordo, depois de cinco anos de fracasso.

Enfim, o controle do medo depende de entender como ele funciona e que, quando algo dá errado, não é o fim da linha. Aceitar os pequenos fracassos é parte do caminho para o acerto.

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