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‘Você vive para quê?’: uma reflexão sobre superar dificuldades

"Enquanto respirarmos, viveremos situações e seremos resilientes. A dor uma hora passa", escreve o médico oncologista Raphael Brandão

Por Helena Galante - Atualizado em 10 ago 2020, 00h50 - Publicado em 7 ago 2020, 06h00

“Aquele que tem um porquê para viver pode enfrentar quase todos os ‘comos’.” Essa frase do filósofo Nietzsche faz sentido todos os dias da minha vida. Você deve estar pensando que eu vou contar alguma história pessoal de superação, ou começar algum texto de autoajuda. Errado. Este texto não fala de mim, mas sobre aqueles para quem eu escolhi viver, meus pacientes. Sou médico, tento cuidar de pessoas com câncer e com certeza sou cuidado por elas.

Em 2017, havia acabado de chegar dos EUA, onde passei uma temporada pesquisando imunoterapia. No fim de semana, meu telefone tocou. Era uma avaliação de urgência. Uma paciente jovem, vou chamar aqui de Maria (sim, é uma homenagem à mãe de Cristo). Entrei no quarto, Maria estava ao celular, computador ligado, fala firme e serena, dava ordens à pessoa do outro lado da linha: “Mantenha-se focada nesse caso, não importa o que eu tenho, não é sobre mim, tudo vai ficar bem. O que fizeram com essa pessoa não está correto, e vamos mostrar a verdade”. Maria desligou o telefone, abriu um sorriso dominante — daqueles que só as mulheres são capazes de dar — e me perguntou: “Pois não?”.

Olhei nos olhos de Maria e contei sobre o tumor raro de duodeno, com metástases pulmonares e em outros lugares, que ela tinha. Falei de cirurgia, quimioterapia e afirmei que seria uma longa jornada. Ela chorou, me abraçou, me pediu um tempo sozinha. Advogada brilhante, principal sócia de um grande escritório, era aos 40 anos o suporte para os dois irmãos mais jovens. Treinada para cuidar, liderar, agora Maria teria de aprender a ser cuidada.

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Diante de uma notícia dessas, sofremos um trauma enorme, absorvemos, ficamos deteriorados e, podem acreditar, voltamos ao estado anterior ao impacto. E muitas vezes em condições melhores. O que acaba nos diferenciando é o tempo que levamos para voltar, mas sinceramente pouco importa o tempo. Acabei de descrever de forma simplista um conceito da física chamado resiliência. Está na moda no mundo corporativo e nos textos motivacionais, mas já existe desde Adão e Eva.

Neste meu tempo como médico, tenho visto muita gente sofrer. Aprendi com meus pacientes algumas estratégias que ajudam. Vou revelar duas delas: a primeira é contar a história de alguém que superou situações semelhantes, e a outra (minha preferida) é fazer a clássica pergunta inspirada em Nietzsche: Você vive para quê?

Adoro fazer essa pergunta. Deixo o silêncio no ar e me retiro, fazendo a pessoa digerir o que perguntei. É óbvio que não é fórmula mágica, mas as histórias no meu consultório se repetem. Pessoas que brigavam com o porteiro porque ele não foi rápido ao abrir o portão, depois de se descobrirem mortais, passam a agradecer todas as trapalhadas com que a vida as presenteia.

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Enquanto respirarmos, viveremos situações e seremos resilientes. A dor uma hora passa. Um truque que me ajuda? Olhar fotos da família e amigos e refletir sobre quanto quero estar com eles. Às vezes não é suficiente, sou mortal, normal (até rimou). Quando nada funciona, pego meu celular, abro minha agenda do consultório e passeio pelos nomes dos pacientes. Eu me lembro de cada detalhe das histórias deles. Ah! Essa é imbatível! Somos seres relacionais, vivemos inspirados por nossos semelhantes.

Por fim, você que se acha pouco resiliente, pare um pouco. Pegue uma xícara de café, respire fundo e lembre-se dos lugares onde esteve, das situações que superou, das histórias que você ouviu. O mais importante é responder a si mesmo qual é o seu porquê. Ah! Esqueci de te lembrar de uma coisa. Você vai morrer (um dia). Eu também. A Maria também. Mas, até lá, por qual porquê vamos viver?

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Divulgação/Divulgação

Raphael Brandão é médico oncologista. Foi pesquisador no Dana-Farber Cancer Institute/Harvard Medical School. Casado com a Indianara, é pai da Raphaela, do Francisco, do Antonio e, mais recentemente, do Johny, um “cãozinho” de 60 quilos.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699. 

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