Clique e assine por apenas 6,90/mês
A Tal Felicidade Saúde, bem estar e alegria para os paulistanos

Quem você pensa que é?

Cinthia Alves, especialista em terapia cognitivo-comportamental, reflete sobre como construímos nossa própria identidade

Por Cinthia Alves - Atualizado em 31 jan 2020, 12h04 - Publicado em 31 jan 2020, 06h00

Observe ao seu redor. O que você pode afirmar que é ou que está exatamente igual? Olhe fotografias, compare o que mudou com o passar do tempo. Não se trata de estar pior ou melhor, mas diferente. Essa diferença é uma das minhas percepções prediletas do que é a mudança.

O processo pelo qual nos desenvolvemos e mudamos passa por estágios. Tudo o que tem vida se transforma. O significado que atribuímos a isso é que faz a diferença. E dar sentido ao que vivemos é um processo neuropsicológico interessante, que vale compreender.

Já se perguntou como a gente registra o que vive? Faça um esforço e pense: qual é a primeira lembrança que você tem? E quantos anos tinha na época? É bem provável que as recordações sejam dos seus 3 ou 4 anos de idade, no máximo. Mas por que não costumamos nos lembrar do que aconteceu no início de nossa vida? O fenômeno tem um nome: amnésia infantil.

Segundo a Universidade de Westminster, no Reino Unido, nenhum de nós se lembra de algo anterior aos 2 ou 3 anos de idade. A maioria não se recorda de nada que ocorreu antes dos 4 ou 5. A ideia é que não codificamos uma memória antes de ter um conceito linguístico para cada dado específico. Não somos capazes de dar significado, mas já estamos sentindo: o sentir vem antes do compreender!

Muitas das histórias que vivemos podem ser lembradas de forma diferente de quando foram experienciadas. Porque no momento em que demos sentido a elas, nossa visão do mundo era limitada ou distinta da que possivelmente temos hoje.

Para lembrar é preciso primeiro esquecer, e isso é memória — uma forma dinâmica de armazenar nossas histórias, mas não tão precisamente o que vivemos.

O que vivemos é o que está acontecendo agora. Aqui. Desfrutar as sensações e despertar os sentidos terá um sabor único se o fizermos com consciência. Lembrança alguma dará conta de trazer à tona o momento tal como se dá. Então se dê à vida! Dê a si mais que tempo, ofereça sua atenção, esteja inteiro.

Continua após a publicidade

Você se (re)conhece, sabe dos seus desejos, limites, assume erros, compromissos e medos. Gosta (da ideia) de quem é, e talvez por isso possa estar apegado a si mesmo, às próprias necessidades, e assim não percebeu ou não ligou por se tornar EGOísta… Ou não se deu conta de que você mudou, e seu apego a quem foi sufoca quem se tornou.

É certo que a identidade se forma ao longo de nossa vida, e com ela aprendemos quem somos. Mas quem é você hoje? Alguém que se esquiva ou esquece de refletir sobre o que mudou? Uma pessoa que se perturba ao encarar o valor das conquistas e no fundo se questionar se algumas escolhas ainda cabem?

O novo precisa ter espaço. Para que você possa se apropriar disso, você precisa aprender a deixar ir… DesapEGO também se refere ao ego, à ideia que você congelou de si mesmo. Desapegue-se. Da ideia. Da necessidade de ser aceito e se tornar alguém que não é você. Da necessidade de controlar tudo. Da noção de quem é que se baseia em tudo isso, do EGO.

Se você se permitir, verá coisas incríveis acontecendo aqui e agora. Se ficar despreocupado, notará a borboleta que passa, os sons dos pássaros, a brisa fresca na pele, as mãos quentes, a sede de vida, de verdades, de simplicidade… Ser você mesmo basta. E tudo bem que as outras pessoas pensem no que quer que seja. Porque, no fim das contas, o desapego o ajudou a perceber que o que tem valor é a vida, e todas as coisas ocuparão os espaços e significados que você permitir.

Então deixe leve. Escolha ser quem você se tornou hoje. Não se (p)renda ao que não cabe mais.

Arquivo Pessoal/Divulgação

Cinthia Alves (@_c_alma) é psicóloga clínica, palestrante, mentora e consultora. Especialista em terapia cognitivo-comportamental, psicologia hospitalar e promoção da saúde, participou do episódio Como Mudar Hábitos, do podcast Jornada da Calma. Mãe de três, nadadora de águas abertas, aprendiz de longboard e culinária, é cheia de fé na vida e na capacidade de superação e mudança.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 5 de fevereiro de 2020, edição nº 2672.

Continua após a publicidade
Publicidade