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Arte ao Redor Tatiane de Assis é repórter da Veja SP. Acredita que as artes visuais podem aproximar pessoas e descortinar novas facetas da vida.

Quem é Lucas Rodrigues, designer com raízes na Brasilândia

Ele já participou de projetos como logo da CBF e álbum do Emicida

Por Tatiane de Assis Atualizado em 14 jan 2021, 21h51 - Publicado em 15 jan 2021, 06h00

Uma cria da Brasilândia, bairro periférico da Zona Norte de São Paulo. É assim que o designer paulistano Lucas Rodrigues, de 26 anos, pode ser descrito. Ele vem ganhando destaque na cena cultural graças à participação em projetos como a reformulação da identidade visual da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2019, o que incluiu também o famoso logo da entidade. “Quando eu era adolescente, cheguei a jogar em time amador. Prometi aos meus pais que iria estar na Copa do Mundo de 2022. De alguma forma, cumpri o que eu disse, porque um pouco do meu trabalho vai estar estampado na camiseta dos jogadores”, conta ele.

Logo CBF: projeto que Lucas participou
Logo CBF: projeto que Lucas participou Lucas Rodrigues/Gabriel M. Ramos/Agência Ana Couto/Divulgação

Em 2020, ele também participou de outra iniciativa de grande repercussão, o projeto visual de AmarElo, iniciativa multiplataforma do rapper paulistano Emicida. “A gente desconstruiu a bandeira do Brasil para criar uma versão mais identificada com a periferia”, explica Rodrigues. “O Marcelo Lima, que liderava a equipe, trouxe referências modernistas e, a partir daí, fomos trabalhando. A cor laranja apareceu porque ela está muito presente nas regiões periféricas. É ela que a gente vê quando olha para a massa de casas sem reboco, é ela que me lembra a cor da terra do campinho onde eu brincava com meus amigos quando criança”, explica.

Lucas Rodrigues e o escritor Alexandre Ribeiro: lançamento do livro Reservado, de Ribeiro
Lucas Rodrigues e o escritor Alexandre Ribeiro: lançamento do livro Reservado, de Ribeiro Ênio César/Veja SP

Lima, além de colega de trabalho, é uma inspiração para o jovem designer. “Eu o conheci quando ele apareceu lá em casa com meu irmão. Isso era antes de ele fazer faculdade. Depois, fizemos o primeiro trabalho juntos e no ano passado o chamei para o AmarElo”, recorda o profissional, que também é da Brasilândia, mas mora hoje em Nova York e já fez trabalhos para a Rede Globo, Nokia, Triton e Volkswagen Caminhões. A origem comum dos dois motiva uma reflexão sobre a importância de nomes que não vêm do centro expandido nesse meio: “O design é um campo muito amplo que transforma tudo no que é aplicado. Profissionais que vêm da periferia têm deixado este novo mundo mais colaborativo e inclusivo”, afirma Lima.

Materiais da identidade visual do álbum Emicida: referências modernistas e periféricas
Materiais da identidade visual do álbum Emicida: referências modernistas e periféricas Divulgação/Divulgação

No caminho trilhado por Lucas, o rap também é fundamental. “Minhas inspirações tinham a ver com o Racionais MC’s, o Rashid e o próprio Emicida. Mais do que alimentar minha criatividade, as músicas deles também me motivam.” No seu quadro de referências, há ainda outros elementos: “Eu estava muito ligado à literatura periférica e ao grafite”. O profissional desenvolveu a identidade visual do romance Reservado (LiteraRUA,R$ 39,00), do escritor Alexandre Ribeiro, e lista Joks (@joks_johnes) e Galo (@galograffiti) como nomes da arte da rua que o influenciaram.

O reconhecimento profissional do jovem tem uma considerável pitada de obstinação. Quando ele optou pela carreira de designer, causou surpresa em seu pai: “Fiquei assustado, sou mais conservador. Ele estava indo bem na Editora Abril, foi efetivado como gráfico depois de passar por um programa de jovens aprendizes. Falei para ele continuar lá mais um pouco, mas não teve jeito, ele colocou na cabeça que queria sair e trabalhar em uma agência de publicidade”, rememora o radialista Jonatan Ferreira da Silva, de 48 anos.

Mesmo com opiniões divergentes, o patriarca se manteve perto do filho, que ingressou na graduação nas Faculdades Integradas Rio Branco. Com os pés no chão mas os olhos nas infinitas possibilidades que jovens de periferia podem encontrar, ele dá um conselho: “A gente não tinha muito dinheiro, mas colocava ele em escolinhas particulares aqui no bairro. Se a pessoa não tem essa condição, deve insistir no estudo dos filhos mesmo assim”, inicia Ferreira. “E não perder eles de vista, estar sempre perto das crianças e dos adolescentes, porque muitas vezes eles não têm experiência e maturidade para lidar com a complexidade das situações que acontecem na quebrada. Podem acabar indo para o lado errado. Não largue mão do seu filho, isso é o mais importante para as coisas correrem bem.”

Lucas novinho e com a família, a mãe, Rosemeire, o irmão, a avó e a irmã
Lucas novinho e com a família, a mãe, Rosemeire, o irmão, a avó e a irmã Acervo pessoal/Divulgação

Além dessa espécie de bússola moral, Ferreira representou para Lucas um lampejo permanente de criatividade no cotidiano. Por suas mãos hábeis e pacientes, nasceram brinquedos variados para o filho, como um avião feito com placas de isopor e um estádio miniaturizado, que, além do campo, contava com toda a torcida. “O Lucas vinha com a ideia e eu executava para ele”, conta o pai, todo orgulhoso.

Segue nesse mesmo tom a descrição sobre as qualidades do primogênito feita pela mãe, Rosemeire Rodrigues Ferreira, de 44 anos, que trabalha na Distribuidora Nacional de Publicações (Dinap), parte do Grupo Abril: “Ele é muito talentoso, dedicado, um menino de ouro”. Ela explica um pouco mais da criação que ele teve em casa: “Eu e o pai dele não chegamos a nos casar, mas, apesar de vivermos separados, somos muito amigos”. Exemplos dessa sintonia não faltam. “Quando surge um problema, pegamos o telefone e perguntamos qual é a opinião de cada um. Até hoje isso acontece. Quando o Lucas decidiu mudar de casa no meio da pandemia, nós nos encontramos e conversamos sobre o assunto”, lembra Rosemeire.

Sob o carinho onipresente de sua família, Lucas, sim, mudou de CEP. Está mais perto do metrô e mora no bairro da Penha, na Zona Leste. “Hoje estou de home office, mas se ficasse lá, quando voltasse o normal, perderia muito tempo com o transporte”, afirma ele, que agora faz parte da equipe fixa da Ana Couto Agência, uma das empresas precursoras no Brasil do branding, área ligada à gestão da marca de uma empresa. Outros serviços também contaram na sua escolha: “Para comer um McDonald’s, tinha de pegar ônibus. No Uber Eats também não tinha muitas opções”. Agora isso mudou. Mas ele avisa: sua vida nesse novo endereço é passageira: “Um dia, quero voltar para a Brasilândia. Tenho esperanças de que as condições lá vão melhorar”.

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