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Cultura demite 30 no último corte; ex-funcionários protestam para receber

Em recuperação judicial, empresa tenta aprovar aditivo que flexibiliza o pagamento das dívidas; "Estamos sem dinheiro", argumenta CEO em reunião

Por Guilherme Queiroz Atualizado em 14 jan 2021, 19h59 - Publicado em 14 jan 2021, 19h35

A loja no Conjunto Nacional da Livraria Cultura se tornou palco de disputas trabalhistas. Em maio, dois meses após o início da pandemia no Brasil, cerca de 70 pessoas foram mandadas embora. No último dia 8 de janeiro, outros 30 funcionários foram demitidos em novo corte. Antigos colaboradores relatam rescisões atrasadas e falta de pagamentos do FGTS.

A Vejinha entrevistou ex-funcionários e teve acesso a áudios de uma reunião entre o CEO, Sérgio Herz, e os trabalhadores. No encontro virtual, o filho dos fundadores da livraria afirmou que a empresa não tem dinheiro e a Cultura “não está fazendo nada demais” em atrasar os pagamentos (veja abaixo). 

No dia 23 de dezembro, quatro pessoas, munidas de cartazes e narizes de palhaço, entraram na loja da Paulista para cobrar o acerto das dívidas.

Em nota à reportagem, a empresa afirmou que as demissões foram consequência de uma adequação “devido a nova realidade. O mercado migrou para o online e as vendas pela internet representam hoje, em média, 80% do total das vendas no Brasil”. Sobre o FGTS, disse que paga o tributo “de maneira parcelada, conforme previsto em lei”. A Cultura não respondeu aos questionamentos sobre as rescisões (veja posicionamento completo ao final).

ATRASOS

Desde 2019 a Cultura está em recuperação judicial: na época, quando o plano foi aprovado, as dívidas ultrapassavam 285 milhões de reais. Alguns meses após a homologação do acordo, os repórteres Ricardo Chapola e Matheus Prado conversaram com colaboradores que relataram diversos episódios de assédio moral na empresa.

Quase todos os funcionários entrevistados pela reportagem sobre as últimas demissões, de 2020 e 2021, preferiram não se identificar por temerem represálias no acerto das dívidas (os nomes com o sinal “*” são fictícios).

“Entramos de férias forçadas”, lembra Renata*, que saiu no corte de maio e trabalhou na loja da Paulista. “Me desligaram e depois fui fazer minha homologação. Assinei um contrato que dizia que a minha rescisão ia ser paga em oito vezes. Desde que eu recebesse, ok, acabei assinando. Mas chegou um mês que não depositaram mais”, relata ela, que diz ter parado de receber as parcelas em novembro.

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Livraria Cultura – Conjunto Nacional Reprodução/Divulgação

“Além de tudo, o meu FGTS, ele só foi pago até abril de 2019”, conta. “Criamos um grupo no WhatsApp, com 70 pessoas, para saber o que está acontecendo”, diz Renata.

Jéssica Santos, 31, atuava como auxiliar de vendas. “Me informaram que ia ser desligada no dia 4 de maio. Quando cheguei lá a rescisão estava parcelada em nove vezes. E aí falaram: ou assina ou não recebe”, conta.

“Antes de ser desligada, já tinha um ano de FGTS atrasado. A empresa estava sempre alegando que não tinha [dinheiro]”, lembra. Jéssica relata que recebeu a última parcela após uma reunião com Sérgio Herz. “Ele recebeu a gente e pediu desculpa e falou que ia pagar todo mundo. Realmente, no final de outubro caiu um dinheiro, mas não vieram junto as atrasadas. Depois disso…”.

“O empregador possui o prazo de 10 dias a partir da rescisão do contrato de trabalho para efetuar o pagamento das verbas rescisórias. Mesmo quando o pagamento é parcelado, havendo atraso, deve ser paga a multa. O trabalhador pode ajuizar uma reclamação trabalhista”, diz a advogada Vanessa Almeida, especializada em direito do trabalho.

“O recolhimento do FGTS constitui direito dos trabalhadores que, em caso de dispensa imotivada, terão acesso aos recursos. No caso, como a Livraria deixou de recolher os valores, os funcionários podem acionar o Ministério Público do Trabalho, que poderá entrar com uma ação civil pública ou, individualmente, podem ingressar com uma reclamação trabalhista”, explica a advogada.

PROTESTO

“E-mail eles não respondem. Tratam a gente que nem cachorro quando vai na loja. Falam que não tem ninguém lá para falar com a gente”, diz Jéssica. Em 30 de novembro ela resolveu protestar na Paulista. “Coloquei um nariz de palhaço e fiquei lá, fiz um cartaz. Tinha cliente que falava que queria me ajudar com dinheiro. Com 25 minutos, o subgerente veio pedir para não fazer aquilo. E aí o Sérgio me ligou, falou que não tinha dinheiro”, lembra.

“Estou […] devendo meu aluguel, gostaria que me pagassem o que devem. Já não basta 1 ano de FGTS atrasado. Preciso me alimentar”, dizia o cartaz de Jéssica.

Imagem mostra mulher na unidade Paulista da Livraria Cultura, protestando contra atrasos trabalhistas
Jéssica Santos protesta na Livraria Cultura Arquivo Pessoal/Divulgação

Ela voltou para o piso aveludado da livraria no dia 23 de dezembro para outro protesto, dessa vez acompanhada de mais três colegas. “Queremos receber! Queremos receber!”, gritavam. “Olha aqui, que vergonha, esse luxo todo e não tem dinheiro pra pagar funcionário?”, questionou uma cliente, que gravou um vídeo do momento.

REUNIÃO

Logo após o ato, em 24 de dezembro, Sérgio Herz atendeu os demitidos por chamada de vídeo. Na conversa, o CEO relata novamente não ter dinheiro para sanar as dívidas trabalhistas.

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Apesar da aprovação do plano de recuperação judicial do Grupo Cultura em 2019, desde junho de 2020 a empresa tenta aprovar na Justiça um aditivo que flexibiliza o pagamento das dívidas. Segundo o documento, lido pela reportagem, a livraria quitou 73% de suas dívidas trabalhistas e 100% dos créditos de pequenos credores. Contudo, o grupo “foi surpreendido pela crise mundial de saúde pública da Covid-19, que afetou em especial o setor do comércio varejista”.

No texto, a empresa relata que diante da pandemia ficou “impossibilitada de continuar contribuindo com o plano [de recuperação judicial] nas condições originalmente aprovadas”.

A Vejinha teve acesso a áudios da reunião, você pode ouvir um deles logo abaixo. Na conversa com os funcionários, Herz afirma que a empresa está “à mercê da Justiça. Vocês não têm nada a ver com isso, mas é uma realidade”, diz. O CEO relata na sequência que o aditivo ao plano de recuperação judicial pode ser aprovado em “janeiro ou fevereiro”.

“Eu preciso de vocês mais tempo e paciência. A Cultura está atrasando aluguel, conta de telefone”. O empresário menciona o decreto do governo paulista que fechou o comércio em alguns dias do Natal e Ano Novo. “Vocês viram o decreto do Doria. Ele vai passar férias em Miami, mas fechou o estado. São seis dias a menos de faturamento pra gente”.

Ele cita também os protestos ocorridos um dia antes da reunião. “Eu entendo o direito de vocês […] Mas os 100 reais que o cliente deixou de gastar lá ontem é 100 reais a menos que eu tenho capacidade de pagar”.

“A Cultura, durante 70 anos, gerou empregos, renda. E durante três anos está sofrendo uma crise. Do mesmo jeito quando algum de vocês tá com problema no banco, devendo dinheiro. Estou pedindo mais tempo pra vocês, só isso. Como empresa a gente não está fazendo nada demais“, diz.

POLÊMICA

Os ex-funcionários relataram também que, no final de 2019, durante reunião, Sergio Herz afirmou que a equipe “tinha sorte de receber salário” e que a Cultura “não tem obrigação de pagar o salário”.

Em nota, o executivo negou o episódio. “São maldizeres antigos. Jamais disse isso e qualquer fala parecida, se é que houve, deve ter sido tirada de contexto. Como CEO, mantenho uma política de portas abertas, transparência e disponibilidade para todas as pessoas”, afirmou. Leia o posicionamento completo ao final.

NOVAS DEMISSÕES

Em novo corte, no último dia 8, sexta-feira, cerca de 30 pessoas foram mandadas embora da Paulista. Bruno* conta que chegou na livraria para mais um dia de trabalho, quando foi chamado para reunião no Teatro Eva Herz, homenagem à fundadora da companhia, que começou o negócio em 1949. “Eu imaginei que ia acontecer alguma coisa. Disseram que íamos ser desligados. Isso foi às 10h. Ainda não esclareceram detalhes sobre a homologação”, conta ele, temendo que sua rescisão também seja parcelada. Como o restante, relata atrasos de mais de um ano no pagamento do FGTS.

Também mandada embora no dia 8, Giovana* conta que sua chefia requisitou sua chegada mais cedo na sexta-feira para a reunião. “Tinha equipe de limpeza, vendedor, pessoal de eventos. Todo mundo em uma tacada só. Uma loja que tinha 100 funcionários diminuiu pra cerca de 20. Antes da pandemia eram cerca de 40 vendedores, agora tinham uns 14”, afirma.

“A gente já esperava que isso fosse acontecer, de uma forma ou outra”, lamenta.

Leia abaixo o posicionamento completo da Livraria Cultura:

“As demissões foram consequência de uma adequação que tivemos que fazer devido a essa nova realidade. O Mercado migrou para o online e as vendas pela internet representam hoje, em média, 80% do total das vendas no Brasil. Isso não é apenas na LC, mas uma realidade para todo mercado de livros brasileiro.

Na nossa visão, as coisas só começarão a voltar ao normal a partir do segundo semestre, se tudo der certo com a vacinação.

Infelizmente, as demissões foram necessárias para nos adequarmos à nova realidade. Nesse contexto de crise, as rescisões estão sendo parceladas em acordo feito com sindicatos. Estamos pagando FGTS de maneira parcelada também, conforme previsto em lei. O parcelamento das rescisões tornou-se mandatório devido à queda de receita, que adveio com o fechamento compulsório das lojas e as restrições provocadas pela Covid-19.

Quanto aos relatos mencionados nas perguntas, a mim atribuídos, não correspondem à realidade e ao que consta são maldizeres antigos, que datam de 2019. Jamais disse isso, e qualquer fala parecida, se é que houve, deve ter sido tirada de contexto. Nossa conduta é e sempre foi pautada pelo respeito a todos. Há mais de 70 anos, a Cultura tem uma política de inclusão e diversidade. Entramos numa RJ há mais de 2 anos e 2020 era para ser um ano maravilhoso, mas veio a tragédia da pandemia. Se estamos vivos até hoje e começando o ano de 2021 com ótimas perspectivas de voltar ao lucro, isso só foi possível porque temos um time engajado, que veste a camisa da empresa  e que está realmente motivado. Não existiríamos hoje se não fossem as pessoas que trabalham na Cultura. Como CEO, mantenho uma política de portas abertas, transparência e disponibilidade para todas as pessoas. Obviamente que essa conduta por vezes nos expõe a ouvir inverdades, mas temos a certeza e a confiança de que estamos no caminho certo, seguindo nossos princípios mais fundamentais”.

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