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Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

Tipos de Gêneros dramáticos: Documentário
VejaSP:
  • Direção: Bárbara Paz
  • Duração: 75 minutos
  • País: Brasil
  • Ano: 2019

Resenha por Miguel Barbieri Jr.

São poucos os cineastas que, em seu longa-metragem de estreia, conseguem fazer uma obra-prima. A atriz Bárbara Paz, com dedicação ímpar, realiza o feito em Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, premiado com o Leão de Ouro de melhor documentário no Festival de Veneza 2019 e escolhido pelo Brasil para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme internacional no Oscar 2021. Bárbara viveu com o diretor Hector Babenco de 2007 até a morte do cineasta, em 2016, aos 70 anos. Seu registro é, além de uma declaração de amor ao amado, um baú de recordações dela e do próprio Babenco — e é muito simbólico que, em certo momento, Barbra Streisand apareça na cerimônia do Oscar de 1986 cantarolando Memory. Trata-se, aqui, justamente de memórias, porém não desalinhavadas de forma linear ou convencional. Todo rodado em preto e branco, o documentário faz uma excelente colagem dos grandes momentos de Babenco no cinema, desde O Fabuloso Fittipaldi (1973) até o derradeiro e autobiográfico Meu Amigo Hindu (2015). E não só. Bárbara flagra o marido em hospitais, na intimidade do lar, no retorno a uma locação de Pixote. Sons e imagens não necessariamente são casados e o clima é onírico. Como num sonho, as cenas brotam delicadamente e, no áudio, escuta-se Babenco. Ele confessa que nunca foi aceito pelos argentinos, que o consideram brasileiro, nem pelos brasileiros, que o consideravam argentino. Era um eterno exilado, em suas próprias palavras. Outro assunto delicado: o câncer, diagnosticado após as filmagens de O Beijo da Mulher-Aranha (1985), e a sentença do doutor Drauzio Varella de que Babenco teria poucos  meses de vida. A história provou o contrário. O guerreiro lutou e, em tratamento, fez Ironweed (1987) e Brincando nos Campos do Senhor (1991).  Por ser uma estrela famosa, Bárbara poderia se colocar como uma interlocutora/narradora onipresente, como o faz, por exemplo, Petra Costa, em Elena e Democracia em Vertigem. Só que não. A mistura de humildade, bom senso e timidez da atriz são essenciais para que sua presença seja discreta. Ela é necessária em pontos estratégicos, como na sua participação, cantando e dançando na chuva, em Meu Amigo Hindu. Raras vezes um legado, seja de uma filmografia, seja de uma personalidade, seja do próprio cinema, conseguiu resultado tão primoroso. Babenco, certamente, aplaudiria de pé a própria trajetória no belo filme de Bárbara.

 

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