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Filmes e Séries - Por Mattheus Goto

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‘Tenho uma ligação peculiar com o Brasil’, afirma James Gray em SP

Diretor norte-americano veio à capital paulista receber prêmio na Mostra e exibir seu novo filme, 'Tigre de Papel', produzido por Rodrigo Teixeira

Por Mattheus Goto 23 out 2026, 08h00
Homem de meia-idade, cabelo loiro-acinzentado, barba curta, óculos pretos, vestindo terno azul-marinho e camisa branca, falando em um microfone com fundo escuro e desfocado
James Gray na cerimônia de abertura da Mostra SP (Edu Tarran/Mostra SP/Divulgação)
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Um dos grandes cineastas norte-americanos da geração atual, James Gray veio à capital paulista para receber o Prêmio Leon Cakoff na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e acompanhar a primeira sessão no país de Tigre de Papel. O filme, que estreou no Festival de Cannes, foi produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira.

Estrelado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, o longa abriu a edição histórica do festival paulistano, que ocupa diferentes cinemas da cidade até quinta (29). A parceria entre Gray e o produtor carioca, que mora em São Paulo, é de longa data, bem como sua relação com o nosso país.

“Tenho uma ligação peculiar com o Brasil”, revela, em entrevista à Vejinha, junto de Teixeira. “Em parte porque este homem (Rodrigo) tem sido maravilhoso comigo e muito prestativo nos meus projetos, mas também porque eu tinha o desejo de fazer um filme aqui.”

Homem de óculos e camisa preta, segurando um microfone e um objeto vermelho, olha para baixo enquanto uma mulher de óculos e vestido preto, também com microfone, gesticula para ele. Estão em um palco escuro com duas poltronas e uma mesa de centro com garrafas de água
James Gray recebe Prêmio Leon Cakoff das mãos de Renata de Almeida, diretora da Mostra (Mario Miranda Filho/Agência Foto/Divulgação)

O diretor e roteirista desembarcou no Brasil há pouco mais de dez anos determinado a filmar Z: A Cidade Perdida (2016), aventura baseada nas expedições do explorador e cartógrafo britânico Percy Fawcett (1867-1925) à Amazônia. “Eu queria muito ter gravado aqui, mas ao visitar as locações me deparei com plantações de soja, a floresta não existia mais. Precisei repensar o projeto e sempre lamento por isso.”

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As cenas na Floresta Amazônica acabaram sendo feitas no norte da Colômbia. “Durante as pesquisas e visitas técnicas para o filme, viajei por todo o país, um lugar inacreditável, imenso e incrivelmente diverso. Para o meu azar, a comida é excelente, então preciso ter cuidado”, brinca. “Adoro a cultura do país.”

Dos nomes nacionais, afirma ser entusiasta de Glauber Rocha (1939-1981) e Hector Babenco (1946-2016). Mesmo sem realizar a gravação, tirou proveito da vinda e conheceu Rodrigo Teixeira, conexão que levou para a vida. Todos os filmes depois de Z: A Cidade Perdida tiveram produção da RT Features, empresa do carioca: Ad Astra (2019), protagonizado por Brad Pitt; Armageddon Time (2022), com Anthony Hopkins e Anne Hathaway no elenco; e agora Tigre de Papel.

Ambientado em Nova York em 1986, o novo longa acompanha dois irmãos em uma trama de suspense e drama criminal. Gary (Adam Driver), ex-policial, convida Irwin (Miles Teller), engenheiro, a trabalhar na revitalização de um canal no porto, que na verdade se trata de um negócio sujo com a máfia russa e termina em perseguição à família.

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Homem de óculos, jaqueta azul e camisa xadrez caminha em calçada urbana, mãos nos bolsos, olhar sério. Ao fundo, uma mulher e outras pessoas, carros estacionados, lixo e prédios com persianas metálicas, sob uma estrutura elevada de trilhos.
Miles Teller em ‘Tigre de Papel’ (Diamond Films/Divulgação)

Como em outros títulos da sua filmografia, o cineasta observa o “sonho americano” com olhares críticos e melodramáticos. “Tudo nasce de um lugar emocional, é como se eu estivesse tentando expressar um estado da minha vida”, explica. “O filme é como um sonho. Tenho uma conexão íntima com as emoções que busco expressar nele.”

“James é um artista que precisa de liberdade, pois tem uma voz forte”, descreve Teixeira. “Às vezes, a indústria não permite que artistas como ele expressem o que desejam, ela quer controlar tudo.” O produtor critica o cenário atual, principalmente em Hollywood. “A minha empresa é ‘director-leading’ (algo como ‘diretor no comando’), nosso trabalho, como produtores, é proteger a liberdade criativa e garantir a execução financeira do filme. Infelizmente, o dinheiro para isso não está mais nos Estados Unidos”, sentencia.

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Teixeira revela que apenas 15% do orçamento de Tigre de Papel veio dos Estados Unidos, enquanto 85% partiu de fontes de outros países, incluindo o Brasil. “O filme só foi possível graças ao capital externo. É assim que o mundo funciona hoje: um clássico americano, com uma voz autêntica, é produzido por investimentos externos.”

Dois homens brancos sorridentes, um de jaqueta de couro preta e óculos escuros, outro de terno azul-marinho e óculos de grau, posam em evento com painel de patrocinadores e banner da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Parceria de sucesso: Rodrigo Teixeira e James Gray (Edu Tarran/Divulgação)

Segundo ele, poucos nomes, como Steven Spielberg e Martin Scorsese, conseguem respaldo dos estúdios, mas ainda assim não têm mais liberdade integral. Na perspectiva de Teixeira, sua parceria com Gray transparece nos longas do diretor.

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Ainda dá tempo de assistir à produção na Mostra SP na terça (27), às 21h, no Teatro Cultura Artística, antes da estreia no circuito nacional no dia 7 de janeiro. O filme é um dos mais concorridos do festival, junto de Fjord, Primetime, Feito Pipa e Mulher Desconhecida.

Publicado em VEJA São Paulo de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018.

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