‘Tenho uma ligação peculiar com o Brasil’, afirma James Gray em SP
Diretor norte-americano veio à capital paulista receber prêmio na Mostra e exibir seu novo filme, 'Tigre de Papel', produzido por Rodrigo Teixeira
Um dos grandes cineastas norte-americanos da geração atual, James Gray veio à capital paulista para receber o Prêmio Leon Cakoff na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e acompanhar a primeira sessão no país de Tigre de Papel. O filme, que estreou no Festival de Cannes, foi produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira.
Estrelado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, o longa abriu a edição histórica do festival paulistano, que ocupa diferentes cinemas da cidade até quinta (29). A parceria entre Gray e o produtor carioca, que mora em São Paulo, é de longa data, bem como sua relação com o nosso país.
“Tenho uma ligação peculiar com o Brasil”, revela, em entrevista à Vejinha, junto de Teixeira. “Em parte porque este homem (Rodrigo) tem sido maravilhoso comigo e muito prestativo nos meus projetos, mas também porque eu tinha o desejo de fazer um filme aqui.”
O diretor e roteirista desembarcou no Brasil há pouco mais de dez anos determinado a filmar Z: A Cidade Perdida (2016), aventura baseada nas expedições do explorador e cartógrafo britânico Percy Fawcett (1867-1925) à Amazônia. “Eu queria muito ter gravado aqui, mas ao visitar as locações me deparei com plantações de soja, a floresta não existia mais. Precisei repensar o projeto e sempre lamento por isso.”
As cenas na Floresta Amazônica acabaram sendo feitas no norte da Colômbia. “Durante as pesquisas e visitas técnicas para o filme, viajei por todo o país, um lugar inacreditável, imenso e incrivelmente diverso. Para o meu azar, a comida é excelente, então preciso ter cuidado”, brinca. “Adoro a cultura do país.”
Dos nomes nacionais, afirma ser entusiasta de Glauber Rocha (1939-1981) e Hector Babenco (1946-2016). Mesmo sem realizar a gravação, tirou proveito da vinda e conheceu Rodrigo Teixeira, conexão que levou para a vida. Todos os filmes depois de Z: A Cidade Perdida tiveram produção da RT Features, empresa do carioca: Ad Astra (2019), protagonizado por Brad Pitt; Armageddon Time (2022), com Anthony Hopkins e Anne Hathaway no elenco; e agora Tigre de Papel.
Ambientado em Nova York em 1986, o novo longa acompanha dois irmãos em uma trama de suspense e drama criminal. Gary (Adam Driver), ex-policial, convida Irwin (Miles Teller), engenheiro, a trabalhar na revitalização de um canal no porto, que na verdade se trata de um negócio sujo com a máfia russa e termina em perseguição à família.
Como em outros títulos da sua filmografia, o cineasta observa o “sonho americano” com olhares críticos e melodramáticos. “Tudo nasce de um lugar emocional, é como se eu estivesse tentando expressar um estado da minha vida”, explica. “O filme é como um sonho. Tenho uma conexão íntima com as emoções que busco expressar nele.”
“James é um artista que precisa de liberdade, pois tem uma voz forte”, descreve Teixeira. “Às vezes, a indústria não permite que artistas como ele expressem o que desejam, ela quer controlar tudo.” O produtor critica o cenário atual, principalmente em Hollywood. “A minha empresa é ‘director-leading’ (algo como ‘diretor no comando’), nosso trabalho, como produtores, é proteger a liberdade criativa e garantir a execução financeira do filme. Infelizmente, o dinheiro para isso não está mais nos Estados Unidos”, sentencia.
Teixeira revela que apenas 15% do orçamento de Tigre de Papel veio dos Estados Unidos, enquanto 85% partiu de fontes de outros países, incluindo o Brasil. “O filme só foi possível graças ao capital externo. É assim que o mundo funciona hoje: um clássico americano, com uma voz autêntica, é produzido por investimentos externos.”
Segundo ele, poucos nomes, como Steven Spielberg e Martin Scorsese, conseguem respaldo dos estúdios, mas ainda assim não têm mais liberdade integral. Na perspectiva de Teixeira, sua parceria com Gray transparece nos longas do diretor.
Ainda dá tempo de assistir à produção na Mostra SP na terça (27), às 21h, no Teatro Cultura Artística, antes da estreia no circuito nacional no dia 7 de janeiro. O filme é um dos mais concorridos do festival, junto de Fjord, Primetime, Feito Pipa e Mulher Desconhecida.
Publicado em VEJA São Paulo de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018.







