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Fulvio Pennacchi: entenda o destino das obras do artista após demolição de casa no Jardim Europa

Um dos maiores artistas da segunda fase do modernismo brasileiro terá legado preservado em museu no Paraná e possui outras obras espalhadas por São Paulo

Por Ana Mércia Brandão 23 out 2026, 08h00 | Atualizado em 23 out 2026, 14h11
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'Colheita da Uva' (1956): afresco tríptico de Fulvio Pennacchi que ficava em sua sala de jantar (Romulo Fialdini/Divulgação)
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Fulvio Pennacchi: entenda o destino das obras do artista após demolição de casa no Jardim Europa Priorizar nos meus resultados Google

Quem tem o costume de passar pela pequena Rua Espanha, no Jardim Europa, deve ter notado que, nos últimos meses, sua paisagem mudou. Um terreno de 2 600 metros quadrados na via trocou de dono; a casa que o ocupava veio abaixo, e uma nova está sendo construída em seu lugar. A aparentemente simples transação imobiliária, na verdade, esconde uma história que está relacionada à trajetória de um dos maiores artistas plásticos da segunda fase do modernismo brasileiro. Aquela era a casa de Fulvio Pennacchi (1905- 1992), e dentro dela se encontravam mais de 1 000 obras de sua autoria. Felizmente, os trabalhos foram retirados antes da demolição e, agora, têm nova morada em diferentes endereços. O principal deles é um pavilhão dedicado ao artista em Ibiporã, no Paraná.

Cozinha, banheiros, área externa, cada canto da casa era recheado de obras feitas manualmente por Pennacchi, entre esculturas, cerâmicas e, principalmente, afrescos, uma técnica de pintura mural típica do Renascimento italiano. A própria casa foi projetada por ele, na década de 1940. “Às vezes, na adolescência, eu chegava de madrugada e o encontrava no ateliê pintando. Ele tinha muito amor por estar produzindo arte, em todo canto da casa”, conta Marcos Pennacchi, um dos oito filhos do artista com Filomena Matarazzo (1918-2018).

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Obras na casa de Fulvio Pennacchi (Divulgação/Divulgação)

“Depois que meu pai morreu, minha mãe continuou morando lá, preservando tudo, e, no testamento dela, escreveu que gostaria que os filhos preservassem a casa como um imóvel de cultura”, conta Marcos. “Nós tentamos, mas chegou um momento em que não aguentamos mais a despesa. O custo de manutenção era muito alto, principalmente com IPTU, que ficava na casa de 240 000 por ano. Tentamos por sete anos encontrar alguém que pudesse cuidar. Levamos políticos, grandes empresários, centros culturais, tivemos alguns bons namoros, mas nada que fosse concluído. Foi frustrante ter que vender, mas temos a consciência tranquila de que tentamos muito e ficamos felizes de conseguir perpetuar as obras.”

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Pennacchi em 1973, junto à obra ‘Família Caipira’ (Acervo da família/Divulgação)
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Para onde foram as obras da casa de Fulvio Pennacchi

A casa foi vendida em junho de 2025, e a retirada das obras começou em setembro daquele ano, perdurando por seis meses, até fevereiro de 2026, quando a chave foi entregue ao comprador. Do montante total de obras, 255 foram doadas ao colecionador Orandi Momesso, que vai expô-las em um pavilhão dedicado a Pennacchi em seu Parque Geminiani Momesso de Arte Brasileira (P_Arte), em construção em Ibiporã. A seleção inclui os principais afrescos do imóvel. “Quando entrei na casa, fiquei completamente tocado pela sensibilidade do Pennacchi. Era um grande ateliê, na verdade, a casa toda”, diz Momesso, que há mais de cinquenta anos mantém uma coleção focada na arte brasileira, do período pré-colonial ao contemporâneo.

Atualmente funcionando em regime de soft opening para grupos de cinco a vinte pessoas e escolas mediante agendamento, o P_Arte abrirá ao público em setembro de 2027, e a previsão é de que o Pavilhão Pennacchi esteja concluído até lá, ocupando uma área de 300 metros quadrados. No momento, o escritório Reinach Mendonça Arquitetos está concluindo o projeto. Até agora, dois pavilhões já estão prontos, de Angelo Venosa e Iole de Freitas, e há 100 esculturas distribuídas pelo território. No total, serão doze pavilhões, exclusivamente focados em arte brasileira. Além do P_Arte, os azulejos da cozinha da casa, também de autoria de Pennacchi, foram doados ao Museu do Azulejo, previsto para inaugurar em 2027 em São Luís (MA). Outras duas obras foram doadas ao Hotel Toriba, em Campos do Jordão, e à Pinacoteca de São Paulo. O restante foi leiloado pela casa James Lisboa.

Como foram retirados os afrescos da casa de Fulvio Pennacchi

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Processo de retirada das obras da casa (Acervo Oficina de Mosaicos/Divulgação)

O processo de retirada das obras foi conduzido pela Oficina de Mosaicos, dos arquitetos Isabel Ruas e Gonçalo Ruas. Como as obras eram completamente integradas à estrutura da casa, foi necessário um trabalho minucioso, com a técnica do distacco. “Nós retiramos uma parte da parede atrás das obras. Alguns painéis ainda tinham molduras em cimento ou eram fixados 4 centímetros para dentro da parede, então retiramos, também, a moldura em volta que fazia parte da parede original”, explica Isabel. “Depois, estruturamos essa parede com uma placa de fibra de vidro superforte, usada em navios e em aviões, que nós colamos na parte de trás do afresco”, completa Gonçalo. As obras foram retiradas por completo, intactas, sem necessidade de remontar depois. Os trabalhos foram acondicionados e transportados em caixas de metal projetadas especialmente para este fim.

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Fulvio Pennacchi nasceu na cidade toscana de Villa Collemandina, na Itália, e mudou-se para São Paulo em 1929. Foi um dos integrantes do Grupo Santa Helena, ao lado de nomes como Alfredo Volpi, Francisco Rebolo e Aldo Bonadei. Na década de 30, o coletivo de pintores se reunia para produzir em um palacete localizado na Praça da Sé e é reconhecido por representar o proletariado, em oposição à elite que dominava o fazer artístico. As obras de Pennacchi retratam, com altivez, camponeses italianos e caipiras, além de motivos religiosos. “Quando aquela casa foi feita, o bairro do Jardim Europa era secundário e barato, e a casa foi construída com o dinheiro do pai da minha mãe. Então, apesar de o meu pai ter vivido nessa supercasa, ele era uma pessoa extremamente simples e manteve essa simplicidade até a morte. Quando ele não estava ajudando na casa, estava pintando”, conta o filho. “Esperamos que, com esse pavilhão, o grande público conheça mais de Fulvio Pennacchi.”

Igreja Nossa Senhora da Paz e mais: saiba onde ver obras de Pennacchi em SP

Interior de uma igreja com um altar de mármore claro, tapete vermelho e três velas acesas. Acima, um crucifixo de madeira e um mural cinza com cenas bíblicas e texto em latim dourado.
Altar-mor da Paróquia Nossa Senhora da Paz (Leo Martins/Veja SP)

Mesmo com o fim da emblemática casa de Fulvio Pennacchi, é possível ver trabalhos do artista espalhados pela cidade e pelo interior do estado. “Meu pai estudou arte na Itália e, quando chegou em São Paulo, foi trabalhar no açougue do irmão dele. Ele ficava desenhando no papel que embrulhava as carnes, e os clientes da colônia italiana começaram a ver esses desenhos e a chamá-lo para pintar murais em suas casas. Assim, começou a pegar serviços e fez muitos afrescos em residências de italianos”, conta o filho Marcos.

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Uma das catorze cerâmicas do artista que povoam as colunas da igreja (Leo Martins/Veja SP)

Além das obras residenciais, Pennacchi também criou para endereços públicos, principalmente igrejas. A principal foi a Paróquia Nossa Senhora da Paz, na Liberdade. O italiano foi responsável por pintar cerca de treze afrescos nas paredes da igreja ao longo de seis anos, a partir de 1941. O altar-mor estampa três, com 6 metros de altura, que retratam imagens de Cristo Crucificado, da Virgem Maria e do nascimento de Jesus. Há ainda afrescos em cada uma das oito capelas laterais e catorze obras em pequeno formato em cerâmica, representando a Via Sacra. A instituição faz visitas guiadas mediante agendamento.

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Mural de Pennacchi no Hotel Toriba (Tuca Reines/Divulgação)
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Outro local que permite um passeio pelas obras do artista é o Hotel Toriba, em Campos do Jordão. A propriedade tem afrescos, cerâmicas e pinturas expostas em diversos pontos, na área externa, na recepção, no restaurante e no salão de café da manhã. O hotel também tem um programa fixo de visitação, aberto a não hóspedes, intitulado Passeio das Artes.

Outros locais permitem conhecer parte de sua obra, como a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, no Bom Retiro, o Hospital das Clínicas e a antiga sede do jornal A Gazeta, na Avenida Cásper Líbero, atualmente um prédio do Superior Tribunal Militar.

Publicado em VEJA São Paulo de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018.

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