Por que ninguém está falando de Shanghai Fashion Week?
Confira mais sobre o evento que ainda não alcançou a devida notoriedade
Paris já desfilou. São Paulo está desfilando agora. E Xangai? Silêncio.
Meu feed passou as últimas semanas tomado pelas passarelas de Paris e, agora, pela São Paulo Fashion Week no Ibirapuera. Enquanto isso, eu estava aqui, do outro lado do mundo, vendo a China fazer a sua semana de moda. E quase ninguém no Brasil comentou.
Não é pouca coisa. Xangai junta desfile, showroom e feira de negócios espalhados pela cidade inteira. Tem comprador do mundo todo circulando. Não é vitrine. É mercado.
O coração da semana é o Labelhood, a plataforma que revela marca nova. Lá, cada desfile acontece duas vezes: uma para a indústria, outra para os fãs. O fã entra na sala. A moda deixa de ser só para quem compra e passa a ser para quem acompanha.
A abertura foi no Xintiandi, com a HEMU, uma das marcas que traduzem a estética oriental para o presente. O tema da temporada diz muito sobre o momento do país: algo como a luz que volta depois da provação.
E aí vem a geração que faz Xangai valer o voo.
Susan Fang transforma artesanato em manifesto. Ela trata o trabalho manual como antídoto contra a pressa do capitalismo, com tule em tons pastel moldado como flor e um vestido coberto por centenas de borboletas de resina feitas à mão pela própria mãe. Roupa que carrega família dentro.
Feng Chen Wang trabalha com uma ideia muito chinesa: duas forças em equilíbrio. Já colocou modelos desfilando em pares espelhados, um look respondendo ao outro. Trench encurtado, couro, cetim. Oriente e Ocidente sem hierarquia.
A dupla Leiliu Shu e Yutong Jiang, da Shushu/Tong, formada em Londres, pega a mulher dos anos 1930 e devolve com ironia. E faz algo corajoso: inverte o mito da “dragon lady”, a vilã asiática sedutora que Hollywood repetiu por décadas.
Mark Gong criou a “Gong Girl”, uma mulher que pode ser doce, sensual, delicada e ainda assim estar no comando. Moletom cropped com saia de baile florida. Renda transparente com casaco de pelo.
E a Oude Waag, de Jingwei Yin, batizada com o nome de uma rua da Antuérpia, fala de “ternura radical”: a roupa como armadura, a fragilidade e a força no mesmo corpo.
Eles são incríveis. Mostraram que a China não copia mais. Mostraram que tradição pode ser matéria-prima de futuro, que artesanato é posicionamento, que dá para conversar com o Ocidente sem pedir licença a ele. Quem ainda associa “made in China” a cópia barata não esteve aqui.
Mas o que mais me surpreendeu não foi nenhum deles. Foi um garoto russo de 14 anos.
Mikhail Nikolskiy é fundador e diretor criativo da 3DS. Eu precisava entender como alguém dessa idade já tem uma marca com estética tão definida. Então entrevistei ele.
Começou aos 11. “Eu me inspirava na natureza e nas partes dela, como a água, o fogo, a grama. Queria compartilhar o que eu pensava sobre a natureza e o quanto ela era importante para toda a comunidade.”
3DS quer dizer 3 dotted stones, três pedras pontilhadas. E aqui veio a parte que mais me impressionou. Ele olhou para o próprio trabalho e admitiu que não estava bom. “Percebi que o tema era geral demais, não só para mim, mas para a comunidade. E o resultado não era dos melhores. Então decidi fazer um rebranding.”
Um menino de 14 anos fazendo rebranding porque entendeu que a mensagem estava genérica. Tem empresa grande que leva uma década para ter essa coragem.
O novo conceito da 3DS é a nostalgia de tempos que a gente nunca viveu. “Às vezes a gente fica preso e esgotado com alguns limites do nosso mundo. Como as máquinas e a industrialização.” Uma criança da geração alfa, que nasceu com tela na mão, sentindo falta de um mundo antes das máquinas.
Perguntei sobre referências. Ele disse que se inspira em culturas do mundo inteiro, mas trata com respeito e carinho a cultura russa. A maior inspiração é Marina Yee, uma das designers do grupo que ficou conhecido como os Seis da Antuérpia. “Ela foi fundamental para os designers que trabalham com desconstrução gráfica e de material. Gosto de como ela misturava estilos e técnicas diferentes.” A Antuérpia apareceu duas vezes nessa semana. Na Oude Waag e na cabeça de um adolescente russo.
Sobre as dificuldades, foi direto. Para aprender sobre a indústria, é preciso entender produção, design, fabricação. “Mas quando você tem paixão por criar, os desafios viram um processo incrível.”
E a escola? Ele ainda está lá. Faz o dever de casa na própria escola e usa o tempo livre para a marca.
Aí perguntei onde ele se vê no futuro. A resposta foi Xangai. “Acredito que a moda aqui evolui e se desenvolve em segundos. Meu maior sonho é fazer um desfile na Shanghai Fashion Week.” Para ele, a cidade é o melhor lugar para se estabelecer e começar a trabalhar globalmente. E ainda o inspira pelas casas antigas e pelos espaços culturais do começo do século 20.
Repara. Enquanto o Brasil olha para Paris, um menino de 14 anos, de Moscou, já escolheu Xangai como o lugar onde quer chegar.
O que me impressiona não é a idade. É a clareza. Ele tem tese, estética, autocrítica e plano. Tem gente com 40 que ainda não sabe responder “o que você defende?”.
Xangai não precisa que ninguém fale dela. Mas quem se interessa por moda, por negócio e por futuro deveria estar olhando para cá. Alguns já estão. Inclusive quem ainda faz dever de casa.







