Filarmônica de Berlim volta a SP após 26 anos com violinista brasileiro
Confira a entrevista com Luiz Felipe Coelho, que assistiu à orquestra em São Paulo em 2000 e hoje é o único representante do Brasil no conjunto
Após 26 anos, uma das orquestras mais prestigiadas do mundo, a Filarmônica de Berlim, finalmente retorna ao Brasil. O conjunto alemão estreia na Sala São Paulo neste sábado (17), domingo (18) e segunda-feira (19), com três concertos diferentes.
Entre os mais de 120 músicos virtuosos do grupo, um deles está especialmente animado e emocionado com essas apresentações. É o paulistano Luiz Felipe Coelho, 41, que ocupa a função de 1o violinista da orquestra desde 2012 — o único brasileiro atualmente no elenco. “É surreal”, ele define, sobre voltar à cidade natal com o conjunto. Isto porque a sua história com a orquestra parece quase premonitória: no ano 2000, na passagem anterior do grupo pelo Brasil, ele, ainda adolescente, estava na plateia. “Consegui um ingresso de última hora, e foi um impacto muito grande. Foi ali, depois daquela noite, que decidi ir a Berlim. Eu nunca tinha visto algo parecido”, relata.
Para entender a importância da orquestra berlinense, é preciso voltar ao século XIX. O conjunto nasceu em 1882, a partir de uma rebelião de músicos contra as condições de trabalho e os baixos salários, que decidiram se organizar por conta própria. Esse modelo de autogestão perdura até hoje, com os músicos participando das decisões artísticas. Ao longo das décadas, sob a batuta de maestros influentes como Wilhelm Furtwängler, Claudio Abbado, Simon Rattle e Herbert von Karajan, a orquestra tornou-se uma das mais influentes do planeta.
Hoje, o conjunto apresenta aproximadamente 250 concertos ao ano e tem como regente titular, desde 2019, o maestro russo Kirill Petrenko. “Os músicos que chegam à Filarmônica são tecnicamente imbatíveis, todos aspiram chegar lá. Seria como um jogador de futebol chegar ao Real Madrid”, define Luiz, que respira a orquestra desde o início do milênio, sem interrupção.
O instrumentista estudou violino desde os 4 anos na Escola Fukuda, na capital paulista. Aos 16, ganhou uma bolsa para estudar na capital alemã. Sua irmã mais velha já morava na cidade, onde estudava viola na academia da Filarmônica. Então, desde o primeiro passo na cidade europeia, Luiz começou a frequentar religiosamente os concertos do conjunto. “Eu entrava de penetra mesmo, pela porta dos fundos, ficava escondido”.
Em 2006, foi a vez dele passar no concurso para estudar na escola ligada à orquestra. Depois de se formar, trabalhou por três anos como instrumentista substituto, até conquistar a vaga atual.
26 anos depois
Esse aguardado retorno da orquestra a São Paulo é promovido pela Tucca em parceria com a Fundação Osesp, integrando a série Música pela Cura, com renda destinada ao tratamento de crianças e adolescentes com câncer.
Na primeira data (17), apresentam-se os 12 Violoncelos da Filarmônica de Berlim, tocando clássicos, jazz, chanson francesa e música latino-americana. No domingo (18), o conjunto recebe o pianista islandês Víkingur Ólafsson, incluindo no repertório o Concerto para piano nº 1, de Brahms, e Assim falou Zaratustra, de Strauss. Na segunda-feira (19), o grupo toca Variações Enigma, de Elgar, e a Sinfonia nº 4, de Tchaikovsky. “São programas diferentes, que vão mostrar toda a paleta de cores da orquestra”, diz Luiz.
O violinista brasileiro conta que a orquestra se tornou cada vez mais multicultural nos últimos anos. São mais de trinta nacionalidades, incluindo outros representantes sul-americanos, músicos do Peru, do Chile e da Venezuela. Nesse organismo orquestral, a democracia dá o tom nas decisões — como as votações para a admissão de um novo músico ou maestro. “Todos os músicos têm um voto. O regente titular tem um voto assim como um violinista, um timpanista ou um trompetista”, explica Luiz.
Para o violinista, o reencontro da Filarmônica de Berlim com São Paulo, 26 anos depois, é tão significativo que chega a ser “até um pouco estranho, mas maravilhoso”. “Para mim sempre foram dois mundos que nunca coexistiram, o Brasil e a orquestra”, explica.
Quando criança, filho de um aficionado por música clássica, o instrumentista lembra de assistir a concertos da orquestra alemã pela televisão. Fato igualmente curioso, Luiz tem a vívida recordação do dia da queda do Muro de Berlim, em 1989, quando tinha apenas 4 anos. Essa conexão entre Berlim e São Paulo se repete nos concertos deste fim de semana. Os violinos ressoarão juntos, mas um deles, com certeza, vibrará em frequência especial.
Livre. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elíseos, Tel. 3367-9500. Acess. Sáb. (17), 21h. Dom. (18), 18h. Seg. (19), 20h30. tucca.org.br/concertosinternacionais.







