Karim Aïnouz: “Temos homens que estão destruindo o planeta”
Novo filme do diretor cearense, 'Rosebush Pruning' retrata uma família de elite na iminência do caos
O diretor cearense Karim Aïnouz adiciona um novo título internacional a sua filmografia. Lançado no Festival de Berlim, Rosebush Pruning é uma viagem ácida ao seio íntimo de uma família hipócrita. O filme usa cores fortes para criar o retrato da falsa moral de uma elite. Ego, poder e obsessão são alicerces de um jogo de gato e rato que vai fundo no ridículo e no absurdo.
A obra surgiu como uma adaptação livre do longa De Punhos Cerrados (1965), do italiano Marco Bellocchio, mas manteve pouquíssimo da história original. Acompanhamos uma família norte-americana que mora na Espanha, composta pelo pai viúvo, cego e autoritário (Tracy Letts) e quatro filhos. O segundo irmão mais velho, Ed (Callum Turner), assume o posto de narrador em um momento de iminência de conflitos e desavenças.
O primogênito, Jack (Jamie Bell), apresenta a todos sua noiva, Martha (Elle Fanning), cuja origem menos abastada é imediatamente julgada pelos irmãos mais novos Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage). O movimento de saída de Jack, para morar com a companheira, gera uma fricção dentro de casa e no relacionamento, uma vez que o vínculo familiar é forte, mas talvez nem tanto quanto a vontade de se retirar e dar fim à linhagem de perversidades e extravagâncias. Revelações sobre a mãe (Pamela Anderson) também chacoalham a trama.
3 perguntas para Karim Aïnouz
Como o filme se diferenciou de seus outros?
Tem um tom que eu nunca tinha experimentado, uma sátira sobre os ultrarricos. Traz um grupo de atores, parece uma peça de teatro. E pela primeira vez, não é completamente naturalista. Tem sapatos que voam, estátuas que se movimentam. É muito especial e único na minha trajetória.
O elenco tem nomes internacionais em alta, eles se mostraram interessados pelo Brasil?
Existe uma curiosidade no cinema hollywoodiano sobre quem não é de lá. Os atores têm vontade de trabalhar com diretores que trabalham de jeito diferente dos americanos. Está todo mundo curioso sobre o que acontece no audiovisual brasileiro. Existe empatia e também um desejo de fazer coisas que não fizeram.
Como essa história originalmente italiana fala sobre o Brasil?
A história é sobre um pai que é uma espécie de monstro e vai destruindo a própria família. Apesar de ser fantasiosa, quase um conto de fadas às avessas, fala de uma situação que vivemos no mundo contemporâneo: temos homens que estão destruindo o planeta, desde Jeffrey Epstein a presidentes e líderes de empresa.
Publicado em VEJA São Paulo de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017.







