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Vinho e Algo Mais

Por Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Especialista na bebida, Marcelo Copello foi colunista de Veja Rio. Sua longa trajetória como escritor do tema inclui publicações como a extinta Gazeta Mercantil e livros, entre eles "Vinho e Algo Mais" e "Os Sabores do Douro e do Minho", pelo qual concorreu ao prêmio Jabuti

A arte de fazer grandes vinhos sem exaltar o terroir

Entenda por que a combinação de uvas de diferentes origens pode rivalizar com vinhos que expressam um único vinhedo

Por Marcelo Copello 16 out 2026, 09h00
Vista aérea de extensos vinhedos verdes em fileiras, com algumas áreas de terra arada. Ao fundo, colinas cobertas por florestas e um pequeno vilarejo com casas de telhados vermelhos. O céu tem nuvens brancas esparsas e tons de azul.
Borgonha: conceito de parcela única que se espalhou pelo mundo (Wikimedia/Wikimedia Commons)
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A arte de fazer grandes vinhos sem exaltar o terroir Priorizar nos meus resultados Google

Há uma palavra que o mundo do vinho hoje pronuncia quase em genuflexão: terroir. Ela diz que o grande vinho traduz um pedaço de chão, com seu solo, seu clima, sua encosta.

O modelo dessa ideia é a Borgonha, região francesa que há séculos divide seus vinhedos em parcelas hierarquizadas, cada uma com nome próprio, que posteriormente receberam classificações de village, premier e grand crus. Um vinhedo, um vinho.

Hoje, o planeta inteiro quer ser Borgonha. Mas outra noite abri duas garrafas entre as maiores do mundo, Château Palmer 1996 Penfolds Grange 1999, e nenhuma fala de terroir nesse sentido.

O Grange nem finge. Max Schubert, enólogo-chefe da Penfolds, o criou em 1951 com a ideia oposta: fazer o maior tinto da Austrália misturando as melhores uvas que encontrasse, viessem do vinhedo que viessem. O rótulo diz apenas “South Australia”, região maior que a França, e as origens mudam a cada safra.

Se um vinhedo decai, sai da mistura e o vinho continua. É o antiBorgonha, e é um dos tintos mais longevos do planeta. Herético? Só se a régua for a de hoje.

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O Barolo que construiu a lenda do Piemonte era mistura de vinhedos diferentes: um dava perfume, outro dava estrutura, o conjunto superava as partes.

Bartolo Mascarello, o tradicionalista mais respeitado da região, defendeu isso até morrer, em 2005: um vinhedo único não vai bem todos os anos, e o Barolo precisa que uns compensem os outros. “Não faço crus. Sou o último dos moicanos.”

No Porto, é igual. Os vintage, categoria mais nobre da região, sempre nasceram da mistura de várias quintas – o vinho de uma quinta não é o principal e muitas vezes só sai quando não há o vintage.

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E a região de Champanhe leva o princípio ao extremo: a Krug Grande Cuvée reúne mais de 100 vinhos, de dez ou mais colheitas e dezenas de vilarejos. Ali, a arte não é revelar e destacar um lugar, é compor.

Repare nas datas em que a moda chegou. Barbaresco delimitou suas parcelas em 2007, Barolo em 2010, a VDP (associação de produtores alemães) em 2012, a Rioja em 2017, o Priorat em 2019, Chianti Classico em 2021, Áustria em 2023. Tudo em menos de vinte anos, quase sempre inspirado no modelo borgonhês.

Que fique claro: amo a Borgonha, e um grand cru como o Musigny fala de um lugar como nenhum outro vinho no mundo fala.

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O problema não é a Borgonha, é a unanimidade. O culto à parcela virou dogma, empurrado pelo marketing. Vinhedo único significa escassez, e escassez significa preço. Quem chega agora ao vinho aprende que só existe esse ângulo, como se a outra metade da história não existisse.

São duas artes distintas, igualmente nobres e igualmente antigas: revelar um lugar e compor com vários. A segunda depende inteiramente de quem assina.

Naquela noite, o Grange 1999 não me contou a história de um lugar. Contou a de uma ideia. Em 35 anos de carreira, aprendi a desconfiar de qualquer catecismo que mande escolher um lado. Como diria Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.

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Duas garrafas de vinho tinto em fundo branco. À esquerda, uma garrafa de Barolo Dezzani com rótulo bege e selo dourado 94. À direita, uma garrafa de Vinho do Porto Burmester Tawny 20 anos, com rótulo branco e preto
Vinhos: recomendações (Divulgação/Divulgação)

Porto BurMester 20 Years Old Tawny

Feito com castas do Douro (mais de 100 são permitidas), mistura de vinhedos e de safras, cuja média de idade (respeitados os volumes utilizados de cada safra) perfaz ao menos vinte anos. Cor acastanhada, aroma de carvalho, frutas secas e mel. Paladar doce e alcoólico (20% de álcool), longo e macio. R$ 646,94, na Wine.

Barolo Tradizione San Carlo 2020

Do produtor Dezzani, 100% uvas nebbiolo de diferentes parcelas dentro da DOCG Barolo, com 36 meses em barris de carvalho. Cor granada entre clara e escura. Aroma de frutas vermelhas, floral de rosas, especiarias. Paladar com taninos presentes, boa acidez, 14% de álcool. R$ 599,00, na Evino.

Publicado em VEJA São Paulo de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017.

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