A arte de fazer grandes vinhos sem exaltar o terroir
Entenda por que a combinação de uvas de diferentes origens pode rivalizar com vinhos que expressam um único vinhedo
Há uma palavra que o mundo do vinho hoje pronuncia quase em genuflexão: terroir. Ela diz que o grande vinho traduz um pedaço de chão, com seu solo, seu clima, sua encosta.
O modelo dessa ideia é a Borgonha, região francesa que há séculos divide seus vinhedos em parcelas hierarquizadas, cada uma com nome próprio, que posteriormente receberam classificações de village, premier e grand crus. Um vinhedo, um vinho.
Hoje, o planeta inteiro quer ser Borgonha. Mas outra noite abri duas garrafas entre as maiores do mundo, Château Palmer 1996 Penfolds Grange 1999, e nenhuma fala de terroir nesse sentido.
O Grange nem finge. Max Schubert, enólogo-chefe da Penfolds, o criou em 1951 com a ideia oposta: fazer o maior tinto da Austrália misturando as melhores uvas que encontrasse, viessem do vinhedo que viessem. O rótulo diz apenas “South Australia”, região maior que a França, e as origens mudam a cada safra.
Se um vinhedo decai, sai da mistura e o vinho continua. É o antiBorgonha, e é um dos tintos mais longevos do planeta. Herético? Só se a régua for a de hoje.
O Barolo que construiu a lenda do Piemonte era mistura de vinhedos diferentes: um dava perfume, outro dava estrutura, o conjunto superava as partes.
Bartolo Mascarello, o tradicionalista mais respeitado da região, defendeu isso até morrer, em 2005: um vinhedo único não vai bem todos os anos, e o Barolo precisa que uns compensem os outros. “Não faço crus. Sou o último dos moicanos.”
No Porto, é igual. Os vintage, categoria mais nobre da região, sempre nasceram da mistura de várias quintas – o vinho de uma quinta não é o principal e muitas vezes só sai quando não há o vintage.
E a região de Champanhe leva o princípio ao extremo: a Krug Grande Cuvée reúne mais de 100 vinhos, de dez ou mais colheitas e dezenas de vilarejos. Ali, a arte não é revelar e destacar um lugar, é compor.
Repare nas datas em que a moda chegou. Barbaresco delimitou suas parcelas em 2007, Barolo em 2010, a VDP (associação de produtores alemães) em 2012, a Rioja em 2017, o Priorat em 2019, Chianti Classico em 2021, Áustria em 2023. Tudo em menos de vinte anos, quase sempre inspirado no modelo borgonhês.
Que fique claro: amo a Borgonha, e um grand cru como o Musigny fala de um lugar como nenhum outro vinho no mundo fala.
O problema não é a Borgonha, é a unanimidade. O culto à parcela virou dogma, empurrado pelo marketing. Vinhedo único significa escassez, e escassez significa preço. Quem chega agora ao vinho aprende que só existe esse ângulo, como se a outra metade da história não existisse.
São duas artes distintas, igualmente nobres e igualmente antigas: revelar um lugar e compor com vários. A segunda depende inteiramente de quem assina.
Naquela noite, o Grange 1999 não me contou a história de um lugar. Contou a de uma ideia. Em 35 anos de carreira, aprendi a desconfiar de qualquer catecismo que mande escolher um lado. Como diria Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.
Porto BurMester 20 Years Old Tawny
Feito com castas do Douro (mais de 100 são permitidas), mistura de vinhedos e de safras, cuja média de idade (respeitados os volumes utilizados de cada safra) perfaz ao menos vinte anos. Cor acastanhada, aroma de carvalho, frutas secas e mel. Paladar doce e alcoólico (20% de álcool), longo e macio. R$ 646,94, na Wine.
Barolo Tradizione San Carlo 2020
Do produtor Dezzani, 100% uvas nebbiolo de diferentes parcelas dentro da DOCG Barolo, com 36 meses em barris de carvalho. Cor granada entre clara e escura. Aroma de frutas vermelhas, floral de rosas, especiarias. Paladar com taninos presentes, boa acidez, 14% de álcool. R$ 599,00, na Evino.
Publicado em VEJA São Paulo de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017.
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