Um passeio pelas empenas pintadas com arte urbana em São Paulo e os artistas por trás delas
Do Minhocão à Consolação, essas telas gigantes definem o horizonte da capital e agora são garantidas por nova lei de fomento
Eduardo Kobra, paulistano do Jardim Martinica, na periferia da Zona Sul da capital, tornou-se um dos mais reconhecidos muralistas da atualidade, com obras em cinco continentes. O sucesso internacional ao longo de mais de três décadas de carreira rendeu um belo acervo (fotográfico) para o artista — seus trabalhos ficam nas ruas, alguns por mais tempo que outros, até serem apagados. “Tenho um acervo com mais de 2 000 fotos de obras que já realizei, e a grande maioria delas não existe mais. É normal isso quando você pinta nas ruas. Como artista de street art, aprendi a lidar, mas, hoje, acredito na importância de cuidar e preservar alguns desses trabalhos”, reflete. Após visitar países como México, Estados Unidos e Inglaterra, procurar obras de ídolos da arte urbana, como Diego Rivera (1886- 1957), Keith Haring (1958-1990) e Banksy, e não encontrá-las, Kobra decidiu iniciar o projeto “A Arte de Restaurar”. A partir da venda de produtos selecionados em seu ateliê, em Itu (SP), o artista pretende financiar a restauração de algumas de suas obras. Em 2026, com o projeto, ele refez uma de suas principais empenas localizadas em São Paulo: o mural Oscar Niemeyer, na Praça Oswaldo Cruz, pintado originalmente em 2013.
O emblemático mural de Kobra é um dos muitos que povoam as fachadas cegas dos edifícios paulistanos, com obras de artistas de todas as regiões da capital, que, cada um a seu estilo, abordam temas relacionados aos direitos humanos, ao meio ambiente, à modernidade, ou apostam em personagens e figuras lúdicas e divertidas. É difícil passar por algumas dessas telas de 30 metros de altura e não ser impactado, mesmo que os transeuntes de locais como a Rua da Consolação e o Minhocão não saibam quem são aqueles artistas cujas obras diariamente povoam sua ida ao trabalho ou seu momento de lazer. As empenas cegas são as paredes laterais externas de um edifício que não possuem nenhum tipo de abertura, como janelas, portas, varandas ou entradas de ventilação, tornando-se telas gigantes para murais verticais de arte urbana. Atualmente, o produtor cultural e artista urbano Kleber Pagu, fundador do Museu de Arte a Céu Aberto (Museu Céu), estima que haja cerca de 2 000 obras de arte urbana apenas no Minhocão, sendo mais de setenta empenas e o restante, pequenos grafites.
Os números vêm de um levantamento superficial conduzido pela equipe do Museu Céu, que será aprofundado nos próximos anos, por meio de um edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). “Vamos fazer um levantamento aprofundado dessas informações e ele estará disponível na plataforma do museu, onde as pessoas vão poder acessar os dados detalhados de cada uma das obras. A ideia é avançar nesse mapeamento em outros territórios, transformando isso em um documento museológico mesmo”, conta Pagu.
Ele foi o idealizador do projeto de lei que deu origem à recém-sancionada, em 16 de setembro, Lei nº 18.535, a Lei Alex Vallauri, que regulamentou o Programa Museu de Arte de Rua (MAR), “com a finalidade de coordenar e desenvolver atividades que valorizem a Arte Urbana no Município de São Paulo, elevando seu nível cultural, profissional, social e econômico”, segundo o texto. Como membro da sociedade civil, Pagu apresentou o projeto em 2020, que foi encampado por onze então vereadores da Câmara Municipal (Quito Formiga, Eliseu Gabriel, Eduardo Suplicy, Erika Hilton, Fabio Riva, Jair Tatto, Luna Zarattini, Marcelo Messias, Nabil Bonduki, professor Toninho Vespoli e Sandra Santana) e tramitou na casa por seis anos, até a sanção, com vetos, no último mês.
“Em 2017, foi criada uma comissão de artistas de arte urbana, da qual eu fiz parte com mais de vinte pessoas, e a gente propôs para a Secretaria Municipal de Cultura, coletivamente, a criação do MAR, como uma forma compensatória pelo apagamento da 23 de Maio [saiba mais neste link]. Só que esses processos de apagamento são contínuos. Então, a lei surge dessa necessidade de reconhecer e valorizar esses territórios de arte urbana e seus artistas”, diz Pagu. E explica: “De 2017 até 2026, o MAR já investiu cerca de 26 milhões de reais em arte urbana, mas como uma política de governo, que a qualquer momento podia deixar de existir. Com a lei, ele se torna uma política pública efetiva. O grande ganho é esse.” A lei permite, por meio de editais e iniciativas curatoriais, que artistas criem ou restaurem obras de arte urbana na capital, incluindo trabalhos em grafite, stencil, instalações, esculturas, projeções e performances de rua, mas não estabelece um orçamento mínimo para o programa.
Para fazer uma empena em São Paulo, em teoria, tudo que um artista precisa é da autorização do proprietário ou administrador do edifício que receberá a obra, desde que seu conteúdo não seja publicitário ou ofensivo — como legisla a Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) [saiba mais aqui]. Mas o custo de produção desses trabalhos é alto, daí a importância dos editais. Foi por meio de um deles que Soberana Ziza fez, em 2021, a obra Na Terra Está a Nossa Ancestralidade. “Fiz essa obra sobre o apagamento negro na Liberdade. Atualmente, ela está bem gasta, mas quero revitalizá-la. Acho que é importante que artistas negros e periféricos como eu possam acessar esse espaço do Minhocão com suas criações”, diz a artista, que atua desde 2006. Ela coordena o movimento Estamxs Vivxs, de valorização da arte urbana negra e periférica.
Descendo o Elevado Presidente João Goulart, na Rua da Consolação o paulistano encontra mais empenas, algumas de Mauro Neri, o Veracidade. Nascido e criado no Grajaú, onde também possui diversos murais, ele aposta nesta vertente artística como um meio de conscientização e educação, sendo idealizador dos projetos Imargem e Cartograffiti, que integram arte, educomunicação, juventude, meio ambiente e direito à cidade. “Nas cidades mundo afora, sempre que digo que sou de São Paulo, as pessoas me olham com admiração e citam a nossa diversidade de técnicas e como somos referência”, diz Veracidade, que já expôs em outros nove países do globo.
Era na Consolação, ainda, que ficava uma das principais empenas da capital: A Cidade É Nossa, de Rita Wainer, um símbolo do Carnaval do Baixo Augusta. Feito em 2017, o painel foi apagado em 2023, mas é lembrado até hoje pelos paulistanos. “As pessoas me mostram tatuagens que fizeram do mural; vale mais do que uma exposição em um museu”, diz Wainer, que também é artista plástica. “Alguém que eu não conheço, e que não me conhece, tatuando na pele um pedaço da cidade. Me comove.” Perguntada se quer trazê-lo de volta, a paulistana moradora do Rio de Janeiro diz que aceita o fim desse ciclo: “O que eu gostaria é que aquela empena fosse disponibilizada para outra pintura e virasse a sorte de outra pessoa, como virou a minha em 2017. Mas é um prédio privado e temos que respeitar”.
Se não pela memória ou pela tatuagem marcada na pele, os murais apagados podem ser vistos apenas por fotos. Esses arranha-céus coloridos chamaram a atenção de Bob Fonseca, dono do ateliê de impressão fine art Bob Pop Gravuras, na Vila Madalena. Fotógrafo profissional há 41 anos, desde 2016 ele se dedica a fotografar essas artes, em parceria com os artistas. Ele olha para a empena como para uma tela e, por meio da fotografia, busca registrá-la com o máximo de detalhes possível, em resolução suficiente para transpô-la para uma impressão fine art em grande formato. “A empena cinza é como a parede vazia de uma sala. São Paulo fica sem perspectiva, sem horizonte. Ainda há muita gente que não percebeu a importância da arte nas fachadas. Mas, quando elas são apagadas, passa a sentir falta e a dar o real valor”, diz Bob.
O que começou como um acervo informal que preserva a memória de obras tão efêmeras vai virar uma exposição no Centro Cultural São Paulo. Intitulada Cidade das Empenas, ela vai exibir 28 fotografias de Bob em escala 1 para 17, isto é, com até 3,2 metros de altura, proporcionando uma aproximação real dessas construções. São fotos de obras históricas e menos conhecidas, feitas por artistas como Kobra, Binho Ribeiro, Pardal, Rita Wainer, Veracidade, Mundano e Apolo Torres. Ainda sem data para inaugurar, o projeto foi aprovado pela Lei Rouanet e está em fase de captação de patrocínio.
São mais de cinquenta anos de arte urbana em São Paulo, que afastam a capital, cada vez mais, da alcunha de “cidade cinza”. “São Paulo é uma cidade que está na vanguarda do movimento de street art. Um tipo de arte que, durante muitos anos, foi vista como inferior, ou descartável, sem valor artístico algum. Isso mudou, e os artistas brasileiros que pintam nas ruas foram os grandes responsáveis por essa mudança de pensamento, porque mostraram a relevância das obras e a qualidade não só técnica, mas da consistência de ideias e pensamento”, diz Kobra.
Com tantos artistas urbanos espalhados pela capital, cada um tem um propósito específico em sua jornada. “A arte urbana tem o dever de ser um caminho de questionamento, de aprendizado e de incômodo, muitas das vezes”, defende Ziza. “Meu objetivo é criar um diálogo, informar, como em um processo de educomunicação”, pontua Veracidade. “Aprendi na prática que o que pinto na rua é diferente do que faço dentro do ateliê; tenho que analisar o entorno, quem mora, quem passa, quem vai ser impactado com isso”, reflete Wainer. Pagu resume: “A arte urbana é viva”.
Publicado em VEJA São Paulo de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017.







