Chair Love: conheça o projeto que transforma arte em oportunidade
Iniciativa do LAR da Bênção Divina leva exposição itinerante para onze locais de São Paulo e marca os 70 anos da associação
O ano era 2022 quando Fernanda Lancellotti, presidente-executiva do LAR da Bênção Divina — associação sem fins lucrativos localizada no Jardim Prudência, próximo ao Aeroporto de Congonhas —, resolveu transformar uma doação de noventa cadeiras infantis em uma oportunidade de fazer arte. O que começou como um projeto interno da instituição, que oferece formação a crianças e adolescentes, se converteu, em 2025, no Chair Love, iniciativa que percorreu vinte estabelecimentos, permaneceu em exposição por sessenta dias e arrecadou 145 000 reais. A ideia, que chega a sua segunda edição, é a seguinte: catorze artistas foram convidados a repaginar as antigas cadeiras do refeitório do LAR (que datam de 1980). Desde segunda (5), elas foram distribuídas por onze endereços da capital paulista, onde ficarão expostas até 18 de novembro, quando, então, serão leiloadas pela casa de leilões As Leiloeiras. Do valor arrecadado, 10% serão destinados ao artista, e o restante do lucro irá para o LAR, apoiando as atividades da instituição.
“Comecei a fazer pesquisas e encontrei a Dionisio, que é uma agência de propaganda que usa artistas contemporâneos, a maior parte de street art, grafiteiros, como protagonistas das suas campanhas. E pensei que eles seriam bons parceiros para o projeto. Me mandaram a Larissa Mazza, que é minha parceira hoje na Chair Love. Ela engrandeceu demais a iniciativa e conseguiu trazer todo esse propósito de ser um movimento de espalhar amor”, conta Fernanda. Participam desta edição Alê Jordão, Tikka Meszaros, Pardal, Basiches, Enivo, Flávia Braun, Simone Reis, Yohanna Oizumi, Daniela Schiller, Luli Mazzeto, Michel Cena, Rio Sora, Mauro Veracidade e Eduardo Srur. A curadoria foi feita pela Dionisio com a feira de arte Radar, o que permitiu uma diversidade de técnicas e formatos entre os artistas, de gesso e azulejo a grafitti e desenho. “A ideia é que cada artista transporte para a cadeira o que quer que as pessoas reflitam quando olharem para ela — sobre amor, sobre escuta, sobre pausa e por aí vai. Refletir sobre o que realmente importa na vida. E, claro, dar lugar para mais crianças no LAR, porque é uma plataforma de captação de recursos.”
A segunda edição da Chair Love ocupa, em São Paulo, a livraria e cafeteria Bibla; o Le Cordon Bleu Café; as duas unidades da padaria Fabrique; o Empório São Paulo; a Coffee Walk da Estação Fradique Coutinho do metrô e a da Escola Panamericana; a Mixed e o concierge (no piso térreo) do Shopping Cidade Jardim; e as lojas Valencien e A Bela do Dia. Pela primeira vez, o projeto viaja além-mar e desembarca em Londres. Três cadeiras estão expostas na capital inglesa e depois serão leiloadas por lá. Outra novidade da segunda edição é que o público também pode ajudar sem participar dos leilões. Em cada local de exposição, é possível comprar produtos selecionados cujas vendas durante a ação serão revertidas para o LAR. “No ano passado sentimos que poucas pessoas puderam interagir com a campanha”, explica Fernanda.
A presente edição é ainda mais especial por marcar os setenta anos do LAR. A associação foi criada em 1956 por Brasilito e Guiomar Battistella e ofertava sopa para as pessoas em situação de vulnerabilidade social da região do Aeroporto de Congonhas. Em 1980, expandiram as operações e passaram a atuar como creche e, desde 2014, oferecem serviços ligados a educação, cultura e esporte, a partir de doações de pessoas físicas e projetos tocados com leis de incentivo, saltando de 110, em 2014, para 830 beneficiados em 2026, principalmente das comunidades Coreia, Alba e Buraco Quente e do vilarejo Santo André, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, onde inauguraram uma sede em 2023. “Sou a terceira geração feminina da minha família à frente do LAR”, celebra Fernanda, neta dos fundadores. Depois dos avós, quem assumiu foi a mãe dela, Silvia. “É um desafio. Então, completar setenta anos, vencendo barreiras, perpetuando um trabalho e continuando a crescer, dá uma esperança muito grande na vida.”
Publicado em VEJA São Paulo de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016.






