Diretor e dramaturgo de teatro infantil fala sobre impactos das telas na formação cultural das crianças
Marcelo Romagnoli, fundador da Cia. Bendita, está com projetos para outubro: 'Acreditar na inteligência das crianças é poderoso'
Aos 13 anos, em ensaios do grupo amador em São José do Rio Pardo, sua cidade natal, o diretor teatral e dramaturgo Marcelo Romagnoli, 55, começou sua incursão no teatro infantil. Encontrou ali uma paixão, que evoluiu para a formação em direção teatral na Escola de Comunicação e Artes da USP e uma consistente trajetória na dramaturgia para crianças. “Não existe uma formação para dramaturgia, muito menos voltada para as crianças. Isso é um vácuo lamentável na formação. Então, a gente aprende fazendo”, compartilha o dramaturgo, hoje com 34 anos de carreira, mais de quatro dezenas de peças escritas e dois livros infantis publicados, Os Mundos de Teresa (Companhia das Letrinhas, 36 págs., R$ 67,90) e Terremota (Companhia das Letrinhas, 72 págs., R$ 67,90). O último é uma adaptação da peça homônima de 2012, encenada pela premiada Cia. Bendita, fundada por ele e Jackie Obrigon há quase quinze anos. No mês das crianças, a Bendita ocupa o Teatro Cacilda Becker a partir deste sábado (10) com apresentações gratuitas de cinco espetáculos do repertório. Dando continuidade às comemorações, no dia 27 a companhia segue para o Centro Cultural São Paulo com a Mostra Panorama – Que História é Essa?, também grátis, com leituras encenadas e mesas de debate. Confira a conversa completa abaixo.
Escrever para crianças é mais fácil ou mais difícil?
É tão desafiador quanto o teatro adulto. A linguagem parece que é mais simples, que é só chegar com um monte de papel crepom e pelúcias na cabeça. Pode até ter peças desse jeito, mas tem uma vertente que ultrapassou isso. Estamos em um outro patamar de linguagem, de força dramática, de qualidade estética, abrindo espaço para ser um lugar para a família toda.
Como enxerga a evolução do teatro infantil no Brasil, ainda existe a ideia de ser uma dramaturgia menor?
É uma história recente, de só oitenta anos. No meio disso, tivemos altos e baixos. Começamos muito bem com Maria Clara Machado (1921-2001) e depois teve um período de fraqueza. Na década de 70, voltamos com muita força, até respondendo ao movimento político da época. E, a partir da década de 2000, São Paulo viveu um boom com políticas públicas que fortaleciam os grupos e companhias. Mas temos que ficar lutando para continuar, estamos sempre sofrendo algum tipo de retrocesso, mesmo com um público ávido para consumir.
Qual a função do teatro feito para os espectadores mirins?
O teatro infantil é uma porta de entrada para os pequenos na literatura, nas artes em geral. Tem uma função de educação emocional gigante que a escola não dá conta. O ambiente escolar está cada vez mais comprimido: falta tempo, vontade e atenção. A formação dos educadores precisa ser revista e aprofundada para não perdermos uma ferramenta (o teatro) tão poderosa de auxílio na construção do cidadão. Em um mundo de guerra, com tanta coisa acontecendo, isso parece um grão de areia. Mas não é. A infância é o período da elaboração da imaginação, da criatividade. A sociedade prioriza a formação técnica e deixa de lado a sensibilidade que constrói pessoas melhores.
Em sua pesquisa recente para a Mostra Panorama, que reúne leituras de peças por grupos teatrais das periferias, você descobriu que muitos textos históricos do teatro infantil brasileiro estão fora de catálogo. Qual o impacto cultural disso?
São raras as publicações destinadas ao teatro para crianças. É difícil achar até peças contemporâneas. Sempre acaba caindo na Maria Clara Machado, que realizou um trabalho grandioso, só que outras escritas foram esquecidas. É um material muito rico e que merece ser revisto.
O teatro infantil é uma porta de entrada para os pequenos na literatura e nas artes em geral
Algo o surpreendeu nessa pesquisa?
O trabalho do casal Tatiana Belinky e Júlio Gouveia (1919-2013 e 1914-1989; criadores do Teatro Escola de São Paulo). Eles foram fundamentais, juntaram literatura, adaptaram clássicos. Foram os primeiros a levar Monteiro Lobato para a televisão! Eles desbravaram uma floresta mesmo.
Como foi o contato da Cia. Bendita com outros grupos e artistas que integram a programação da Panorama?
Foi muito revelador, nos mostrou essa força que está disseminada nos quatro cantos da cidade, mas encoberta. Fica ali tentando gritar e não tem quem escute. Além disso, queremos abrir esse canal de diálogo com artistas que não estão trabalhando mais: falar deles, trazê-los às mes as, fazer esse caldeirão com a academia. A gente fica louco para conversar dentro da classe, ajudá-la a se desenvolver como um todo e s air fortalecida para essa história não se perder.
Existe um fio condutor nos espetáculos selecionados para o Teatro Cacilda Becker?
O fio condutor de tudo é a dramaturgia. Esses cinco espetáculos do repertório estão supervivos. Tanto que vamos lançar o livro Dramaturgia — Cinco Textos para Todas as Idades, para incentivar outras pessoas a montarem essas obras, ter essa troca. Colocados em uma sequência de apresentações também é um jeito de ver historicamente a evolução da Cia. Bendita.
Como enxerga o impacto da hiperconectividade na formação cultural das crianças?
É muito difícil reter a atenção e levar essa criança para um mundo da imaginação. Nas plateias, vejo pais e mães com os celulares na mão antes das sessões. E as crianças iniciam nas telas cada vez mais cedo, aos 2 ou 3 anos. Acho que a nossa força maior é atingir um lugar lá dentro do cérebro, da alma, do espírito da criança. E a nossa maior potência para isso é a poesia, a escrita.
O teatro pode ser uma ferramenta para questionar temas sensíveis ao universo infantil, como o bullying, em meio a esse cenário de imposição do digital?
Cito Shakespeare: o teatro é espelho. De novo, a gente entra nesse campo da inteligência emocional. Atingindo a emoção, a pessoa se reconhece e reconhece os problemas do mundo. Falar de assuntos que rondam a infância é um grande serviço do teatro. Mas tem que ser de um jeito ao mesmo tempo leve e profundo, sem perder sua característica primeira, que é a diversão. A partir disso, você pode falar de relações familiares, luto, política. Acreditar na inteligência das crianças é poderoso.
Publicado em VEJA São Paulo de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016







