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Após lançar filme e série, Vladimir Brichta estreia primeiro monólogo da carreira

Ator fala sobre adaptação da obra do australiano Kim Crotty no solo 'O Menor Palco do Mundo' e revela vontade de estrear na direção

Por Mattheus Goto 9 out 2026, 08h00
Homem branco de barba e cabelo escuro, vestindo camiseta e calça jeans, sentado com a mão direita no queixo e braços cruzados, olhando para cima com expressão pensativa
Vladimir: ele sobe sozinho no palco do Teatro Vivo (Christian Gaul/Veja SP)
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Para muitos, o palco pode ser um lugar sagrado. Entre tantas definições, é um espaço para o exercício da coletividade. Com essa convicção, Vladimir Brichta se prepara para estrear seu primeiro solo da carreira. O Menor Palco do Mundo entra em cartaz neste sábado (10) e segue até 31 de outubro no Teatro Vivo, com sessões às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h. Dirigido por Luiz Felipe Reis, o espetáculo reflete sobre paternidade e masculinidade, temas caros ao ator de 50 anos.

Homem de barba e cabelo escuro, com a mão direita na cabeça, olhando para frente. A imagem é iluminada por uma luz vermelha intensa, criando sombras profundas no lado esquerdo do rosto e no fundo escuro. Ele veste uma jaqueta de couro preta
(Christian Gaul/Veja SP)

Idealizada por Aura Cunha e Paula Picarelli, a peça parte do texto e do relato real do australiano Kim Crotty. O autor foi preso por cometer um erro e, da prisão, elabora sobre a distância dos filhos, a impotência diante do sistema e a própria existência. “Me interessei pela história de imediato”, afirma Brichta. “Fui pai cedo, aos 21, e ano passado meu filho mais novo, de 19, saiu de casa. A sensação de ninho vazio veio com força”, relata. Na trama, o sujeito lamenta a ausência na infância dos filhos pequenos. “Não entramos no debate da ilegalidade, o foco é o preço que ele paga por isso, que é a distância das crianças.” A partir dessa dor, ele tenta se reconectar por um viés lúdico, enviando cartas. O pretexto leva também a um pensamento sobre o pai dele.

Homem de cabelo escuro e barba rala, vestindo jaqueta de couro preta, camiseta branca estampada e jeans, sentado de pernas cruzadas no chão escuro, segurando uma meia branca com desenho de tênis e ponta azul na mão direita, olhando para frente com expressão séria
Distância do filho pequeno na peça: forma lúdica de tentar se aproximar (Julia Mataruna/Divulgação)

O caso aconteceu na Inglaterra e, para criar um diálogo com a nossa realidade, foi adicionado um elemento pontual na performance, um outro personagem além do Kim, que proporciona um elo direto. Na dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, há um ator brasileiro que recebe o texto e reage à história, em uma espécie de metalinguagem. “Nesse processo, o ator começa a identificar algumas ressonâncias com aspectos da vida dele”, explica Reis.

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Homem de barba rala, cabelo escuro e jaqueta de couro preta, iluminado por luz vermelha intensa, com expressão séria e olhar direto. O fundo é escuro, com um contorno de janela no topo
(Christian Gaul/Veja SP)

O cenário se assemelha a uma caixa de papelão, que serve para o lugar desejado na cena, seja uma cela ou uma casa. O espaço multiúso também tem o propósito de operar em diferentes tempos, entre vivenciar as situações no presente, narrá-las como lembranças do passado e dialogar sobre elas com o público. “O confinamento nessa caixa viabiliza uma metamorfose. A prisão é uma espécie de espelho inevitável para ele olhar o homem que é. Ele começa a se questionar e colocar em jogo uma outra possibilidade de existência no mundo”, define o diretor. Ainda segundo Reis, o papel caiu como uma luva para Vladimir. “Ele é um ator muito sensível, com uma capacidade de fazer a gente rir e chorar sem ser apelativo; navega entre o humor e momentos emocionalmente densos com muita facilidade, presença e entrega. É um cara muito comprometido”, descreve.

Homem barbudo, com cabelo escuro, olhando para cima, iluminado por uma forte luz vermelha vinda de baixo, em um ambiente escuro
(Christian Gaul/Veja SP)
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O artista estudava havia alguns anos a possibilidade de fazer um solo e, finalmente, deu certo o desafio de ficar sozinho em cena pela primeira vez. “Não sou daqueles que ficam desesperados, durmo bem, não fico nervoso”, revela o ator. Porém, os hábitos têm sido diferentes desta vez. Com o dobro de texto que teria em uma peça com outros atores, as “pinceladas” para mudar o tom, a forma, a cor ou a dinâmica em cena ficam totalmente por sua conta. “É um processo mais solitário. Tenho acordado no meio da noite, penso no texto e durmo de novo.” Ele já vê aprendizados da experiência: “Com colegas de cena, sempre entrego a bola com agilidade para a outra pessoa, essa energia é uma característica minha. Estar sozinho me obrigou a aprender a respirar e permitir que o público respire”.

Vladimir Brichta nasceu em Diamantina, em Minas Gerais, mas se considera baiano de coração. Mudou-se para a Bahia aos 4 anos de idade, após um período na Alemanha. “Minha mãe conta que, quando eu tinha 3 anos, a escola em que eu estudava recebia a visita de artistas itinerantes e que eu voltava para casa dizendo que meu nome era o do artista”, narra.

De volta ao Brasil, entrou em um grupo de teatro amador aos 6, em Salvador, como forma de canalizar a criatividade. “Eu não ia bem na escola como meus irmãos. Quando subia no palco e fazia o cachorro de Os Saltimbancos, era a forma de conseguir elogios.” Assim, seguiu o caminho do teatro e formou-se em artes cênicas pela Universidade Federal da Bahia em 1993.

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O espetáculo que projetou o nome do ator na cena cultural nacional foi A Máquina (2000), de João Falcão. A obra revelou o talento dele e de Wagner Moura, Lázaro Ramos e Gustavo Falcão. “A primeira impressão que tive dele é a mesma que tenho hoje: um cara alto-astral”, conta Lázaro. Os dois se conheceram antes da peça, em um teste para uma produção audiovisual. “Ele chegou falando com todo mundo, engraçado, piadista, deixando o clima leve. Depois, fomos juntos para Pernambuco fazer ‘A Máquina’ e aí deixamos de ser apenas amigos, nos tornamos família”, constata. “Como ele é surfista, dá para dizer que surfa na vida, como se fosse uma onda voando.”

Quatro pessoas em fila, braços estendidos para os lados, vestindo roupas rústicas e maquiagem corporal. O primeiro, um homem negro de cabelo crespo, olha para frente com expressão séria. O segundo, um homem branco careca, tem o torso coberto por desenhos geométricos.
Montagens de A Máquina: original,
em 2000 (detalhe), e 25 anos depois (Sergio Lobo/Divulgação)

Brichta, radicado no Rio de Janeiro desde 2001, estreou na televisão no início dos anos 2000, com papéis em Porto dos Milagres (2001), Coração de Estudante (2002) e Kubanacan (2003). Depois, fez as séries de comédia Faça sua História (2008), Separação!? (2010) e Tapas e Beijos (2011-15). Em 2016, retornou às novelas com Rock Story (2016- 17), Segundo Sol (2018), Amor de Mãe (2019-21) e Renascer (2024).

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Um homem de terno bege e gravata estampada, com barba e cabelo comprido, olha para baixo ao lado de uma mulher de vestido de noiva branco, véu e colar de pérolas, que olha para a direita com expressão séria
Personagens de Vladimir e Adriana em Kubanacan (2003) (Globo/Divulgação)
Um homem e uma mulher sorrindo, abraçados, em frente a uma vitrine com persianas e faixas pretas com Luar de Copa escrito em branco
Separação?! (2010),
com Debora Bloch (Globo/Divulgação)
Três pessoas posam para foto: uma mulher sorridente no centro, com blusa colorida e colares, abraçada por dois homens. O da esquerda veste camisa verde estampada e o da direita, camisa listrada e óculos escuros.
Tapas & Beijos (2011-2015) (Globo/Divulgação)
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Homem de cabelos longos e castanhos, sorrindo e cantando em um microfone, tocando violão em um palco com um telão azul ao fundo exibindo a imagem de outro cantor
Protagonista na novela Rock Story
(2016-2017) (Globo/Divulgação)
Um homem e uma mulher sorrindo, vestidos com roupas de época. Ele usa terno cinza, camisa branca, gravata estampada e óculos redondos. Ela tem cabelos loiros cacheados, chapéu preto com véu e casaco texturizado preto.
Vladimir com a
atriz Claudia Abreu em Cidade Proibida (2017) (Globo/Divulgação)

 

Um homem e uma mulher sentados na cama, de frente um para o outro, em um quarto com armário de madeira e parede verde. O homem, de regata cinza e bermuda escura, gesticula com a mão aberta. A mulher, de camisa vinho, o observa. Malas de viagem estão no chão.
Giovanna Antonelli em Segundo Sol (2018) (Globo/Divulgação)
Homem de barba e cabelo comprido, com camisa jeans e lenço de oncinha no pescoço, braços cruzados, olhando sério para frente, em ambiente interno com estantes e orquídeas
Amor de Mãe (2019) (Globo/Divulgação)
Homem de cabelos longos e cacheados, com barba, sorri e gesticula com as mãos, usando jaqueta preta bordada, camiseta bege e lenço roxo. Outro homem, de camisa estampada, está de costas para a câmera, com a mão estendida em direção ao primeiro. O fundo desfocado mostra uma construção com portas e janelas.
Terceira temporada de Cine Holliúdy (2023) (Globo/Divulgação)
Um homem barbudo de camisa vermelha e jeans sentado em uma poltrona de couro marrom, de mãos dadas com uma mulher de blusa preta e calça escura sentada em outra poltrona. Uma mulher de blusa branca e jeans está em pé entre eles, olhando para a frente. O cenário é uma sala com cortinas claras, um espelho grande e quadros na parede.
Novela mais recente do ator, remake de Renascer (2024) (Globo/Divulgação)

Também se destacou no cinema, especialmente com Bingo: o Rei das Manhãs (2017). Neste ano, participou de duas grandes produções. Em Velhos Bandidos, dirigido por Claudio Torres e lançado em março nos cinemas, contracena com Bruna Marquezine, Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e mais. Ele já havia trabalhado anteriormente com o diretor em A Mulher Invisível (2009). “É impossível não amar o Vlad!”, exclama Torres. “Não tem tempo ruim, entrega todas de primeira, com uma humildade rara.” Ele conta que há uma troca total entre os dois, na base da confiança. “Ele produz verdade quando atua, mesmo na comédia mais absurda.”

Cinco pessoas em um cenário escuro, com dois homens e uma mulher amarrados com fita adesiva. Um homem idoso de terno marrom e uma mulher idosa de casaco creme e azul estão em pé, enquanto um homem de jaqueta preta e uma mulher de casaco marrom estão sentados, todos com expressões sérias. Ao fundo, um quadro branco com fotos e anotações, e uma parede com papéis colados, sugerindo um ambiente de investigação ou cativeiro
Velhos Bandidos: elenco (Laura Campanella/Divulgação)

Outra novidade recente na filmografia do artista é Habeas Corpus, série de drama jurídico que estreou na Netflix no mês passado. “Além de me encantar pelo personagem, me encantei pela série, muito realista e necessária”, explica Vladimir. “Tem uma reflexão muito atual sobre como o universo duro do Judiciário se desdobra e chega nas áreas mais marginais da nossa sociedade.” A obra virou um sucesso e foi parar no topo das séries mais assistidas no Brasil. “O Vlad é uma das pessoas de mais bom senso que eu conheço na vida”, analisa a atriz e esposa Adriana Esteves. Os dois se conheceram nas gravações de Coração de Estudante (2002). “Ele tem uma paixão por ser educador, tem vontade de educar e mudar o mundo. Estamos juntos há 23 anos e acompanho a dedicação dele à vida, ele é muito humanista. Esse é o meu grande Vladimir.”

Uma mulher de óculos e camisa bege se inclina sobre um homem de camisa cinza que usa um notebook, ambos focados na tela, em um escritório escuro com janelas grandes e luzes da cidade ao fundo
Sucesso: drama jurídico com Marjorie Estiano (Rafael Barion/ Netflix/Divulgação)

O artista tem dois filhos biológicos, Agnes, 28, e Vicente, 19. A primeira é fruto do casamento com a cantora Gena Karla (1971-1998), e o segundo, da união com Adriana. Ele participou de perto da criação de Felipe Ricca, 26, filho de Adriana com o ator Marco Ricca. No ano passado, Vladimir teve a alegria de ver Agnes no papel feminino da nova montagem de A Máquina, novamente com direção de João Falcão, no Teatroiquè, na Zona Oeste paulistana. “Ela e os meninos fizeram brilhantemente”, elogia. “Fiquei emocionado com a existência dessa peça. Quando pisei no palco, tive crise de choro, queria me aninhar no colo do João. Passou muita coisa pela minha cabeça.” Para Agnes também foi um momento especial. “Eu já era completamente apaixonada pela peça antes. Quando fui chamada, fiquei incrédula.”

Cinco atores sorrindo e abraçados, com figurinos teatrais coloridos e elaborados, em um palco escuro
(Flora Negri/Divulgação)

Com apenas uma personagem feminina, chamada Karina, o espetáculo acompanha o jovem Antônio, vivido por quatro atores diferentes, na cidade fictícia de Nordestina. Quem fez o Antônio 1, o mesmo de Brichta, foi Alexandre Ammano, 28. “Eu e ele temos uma temperatura cênica parecida”, avalia Ammano. “É um ator versátil, que sabe transitar muito bem, tem um jeito de brincar e uma leveza em cena.” A estreia foi um marco para o elenco. “Tinha uma tensão ali, mas dava para ver o quanto ele estava torcendo por nós. O abraço depois foi muito significativo, vai ficar para sempre.”

Cinco pessoas sorridentes tiram uma selfie em um elevador espelhado. Um homem de óculos e camisa listrada abraça uma mulher de blusa verde. Outro homem de camisa vermelha está ao lado. Na frente, um homem de camisa vinho faz um shaka e uma mulher de blusa rosa faz um V de vitória, segurando um pote com comida
Momentos em família: Vladimir com Adriana,
Felipe, Agnes e Vicente (da esq. para a dir.) (Arquivo pessoal/Reprodução)

Agnes chegou a atuar com o pai na novela Quanto Mais Vida, Melhor! (2021-22). Ela começou a fazer teatro aos 5 anos como hobby, sem imaginar que seria sua profissão. O pai “nunca barrou nem incentivou”, deixava espaço para que manifestasse os próprios interesses e apoiava com o necessário. “Ele é um pai que se interessava muito por saber quem os filhos eram e quem queriam ser. Em vez de moldar, queria descobrir”, diz ela. Quando Vladimir e Adriana estavam fazendo novela, Agnes pedia para ir ao set pelo menos um dia e viajava com ele em temporada de peça pelo país; ela amava ficar nas coxias. Os dois deram grandes ensinamentos para a jovem. “Eles fizeram um guia do que fazer na profissão: chegar pontualmente, tratar todo mundo bem e se divertir”, define.

Um casal jovem sentado na grama verde, sob o sol. A mulher, de cabelo cacheado, veste camiseta cinza e jeans, olhando para frente. O homem, de camiseta marrom e calça escura, gesticula enquanto conversa com ela. Ao fundo, um pedalinho vermelho com pessoas e árvores.
Com Agnes em Quanto Mais Vida,
Melhor! (2021) (Globo/Divulgação)

Na vida, observa que Brichta sempre a estimulou a ter coragem de realizar vontades. “Me reconheço muito no meu pai. Falamos sobre tudo, sem parar.” Ela está animada para ver o novo espetáculo e acredita que vai se emocionar. A expectativa é que O Menor Palco do Mundo vá para outras cidades depois de São Paulo. Em paralelo, Vladimir tem o plano de lançar em 2027 uma peça de fora do país, da qual comprou os direitos. Também se interessa pela ideia de envelhecer junto de personagens, de repente retomando algum de sucesso do passado, e mais um desejo vem crescendo: o de estar atrás das câmeras e dirigir. “Tenho amadurecido a ideia, pode ser uma experiência boa”, diz, sem revelar muito. Descobriremos nos palcos ou nas telas.

■ O Menor Palco do Mundo. 80min. 14 anos. Teatro Vivo. Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2460, Vila Cordeiro, ☎ 3430-1524. → Sex. e sáb., 20h. Dom., 18h. R$ 50,00 (preço popular) e R$ 150,00. Até 31/10. sympla.com.br.

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