Produtos Made in China que todo mundo deveria ter
Em viagem pelo país, colunista mostra como o selo 'Made in China' deu lugar ao design autoral e indica três marcas
Faz pouco mais de um mês que estou desbravando a China. E a primeira coisa que caiu por terra foi uma etiqueta. Cresci lendo “Made in China” no fundo de brinquedo quebrado, de carregador que esquentava, de produto que durava até a próxima chuva. A frase virou sinônimo de barato. E barato, no Brasil, virou sinônimo de descartável.
Aqui, ninguém fala assim. Aqui, a conversa mudou de verbo. Saiu o “fabricado” e entrou o “desenhado”. Made in China deu lugar a Designed in China. Isso não é impressão de turista encantada. Tem número.
O relatório Voice of the Consumer 2025 da PwC chama de “Guochao 2.0” a onda de preferência por marcas nacionais que celebram a cultura chinesa. E um estudo de 2025 da consultoria Hub of China, mostrou que as marcas chinesas superam as estrangeiras em relevância cultural por 41 pontos percentuais. A própria Hub of China resume a nova fase assim: o chinês não compra mais nacional por patriotismo. Compra porque está melhor, mais inovador e mais parecido com ele.
Causa e efeito. Quem fabricava para o mundo aprendeu como o mundo é feito. Depois, decidiu fazer o próprio mundo.
Então, de Xangai para São Paulo, três produtos chineses que todo mundo deveria ter. Nenhum deles é cópia de nada.
O tênis: Li-Ning
Começo pelo pé, porque é com ele que se desbrava.
A Li-Ning leva o nome do fundador, Li Ning, ginasta que ganhou três ouros nos Jogos de Los Angeles, em 1984, e criou a marca em 1990. Ou seja: não nasceu de um escritório de marketing. Nasceu de alguém que sabe o que um corpo exige de um calçado.
O porquê da indicação é simples. Primeiro, tecnologia própria. A marca desenvolveu o BOOM, uma entressola leve e muito responsiva que, segundo a própria Li-Ning, funciona como um mini trampolim: comprime e devolve energia a cada passo. Você anda a cidade inteira e chega inteiro.
Segundo, credibilidade. Em 2012, Dwyane Wade, lenda da NBA, assinou com a Li-Ning e construiu ali a linha Way of Wade, em vez de ficar nas gigantes americanas de sempre.
Terceiro, símbolo. Numa pesquisa da Daxue Consulting com jovens chineses, mais da metade lembrou da Li-Ning quando perguntada sobre quais marcas representam o Guochao. Usar Li-Ning é calçar a virada que estou descrevendo nesta coluna.
Para quem joga, a linha Way of Wade. Para quem só quer atravessar a Paulista com estilo, os modelos casuais já resolvem.
A bolsa: Muva
Se existe uma marca que andaria tranquila pela feira da Praça Benedito Calixto num sábado, é a Muva.
É uma marca autoral de bolsas de Guangzhou. A ideia surgiu em 2017 e a marca foi oficializada em 2020, segundo o registro na Baidu Baike, a enciclopédia chinesa. As formas são lúdicas, meio esculturais, meio despretensiosas, em couro e materiais sintéticos de boa qualidade. Bolsa que parece ter sido escolhida por alguém que tem opinião, não por alguém que tem logo.
É muito vibe quem é de Pinheiros. Aquela pessoa que sai do café, passa no sebo, termina num bar da Mourato Coelho e não quer parecer que fez esforço. Mas fez.
Baidu Baike associa a Muva ao fenômeno do “daigou reverso”. Antes, chineses viajavam para comprar marcas estrangeiras. Agora, estrangeiros viajam para comprar marcas chinesas. Eu sou a prova.
O perfume: Fragrance Diary
Guardei o mais poético para o fim.
A Fragrance Diary, ou 气味日记, algo como “diário de cheiros”, nasceu em 2019 com uma proposta que me pegou de jeito: guardar a memória das cidades em perfume. O lema é “uma cidade, um respiro”. A marca investe menos em embalagem extravagante e mais no líquido.
Há fragrâncias exclusivas por cidade. Em Chongqing, por exemplo, a coleção traz notas como chá da montanha e lichia, e frascos de 30 ml saem por menos de 20 dólares, segundo resenhas publicadas no Lemon8. Muitos desses perfumes só são vendidos na própria cidade. Não adianta procurar online.
E é exatamente por isso que vale ter um. Perfume é a memória mais rápida que existe. Você borrifa e volta para a esquina onde estava. Um perfume que só existe num lugar obriga você a ir até ele. Isso é desbravar.
O que eu levo daqui
Não estou dizendo para trocar tudo o que você tem por produto chinês. Estou dizendo para trocar o olhar. A China que eu encontrei não está tentando parecer a Europa nem os Estados Unidos. Está tentando parecer a China. E é aí que mora o valor. Marca forte não é a que imita bem. É a que sabe quem é. A verdade vende. Inclusive em mandarim.






