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Notas exclusivas sobre artistas, políticos, atletas, modelos, empresários e pessoas que são destaque na cidade. Por Humberto Abdo (humberto.abdo@abril.com.br).

Quem Ama Cuida: a origem e os bastidores da novela de Walcyr Carrasco

Com picos de audiência, autor explica a estratégia por trás das viradas na trama

Por Humberto Abdo 2 out 2026, 08h00 | Atualizado em 2 out 2026, 12h39
Homem de pele clara e cabelos grisalhos, sorrindo com a mão no queixo, veste camisa azul escura. Ao fundo, estantes com livros e objetos decorativos, como corujas e figuras religiosas
Contador de histórias: no local de trabalho, envolto por livros e lembranças (Agliberto Lima/Veja SP)
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Quem Ama Cuida: a origem e os bastidores da novela de Walcyr Carrasco Priorizar nos meus resultados Google

Para criar as maldades de Pilar ou a sede de vingança de Adriana em Quem Ama Cuida, novela das 9 da TV Globo, Walcyr Carrasco prefere o silêncio e o conforto de seu apartamento nos Jardins. Longe de festas e holofotes, aos 74 anos o dramaturgo caminha com o auxílio de uma bengala para manter o equilíbrio devido a uma fratura na perna, sofrida há um ano e meio. E foi justamente da convivência com fisioterapeutas e profissionais de reabilitação que nasceu a ideia para a trama.

“Entrei nesse mundo dos enfermeiros, que ainda não conhecia”, conta ele. Após a marca dos 100 capítulos, já foram muitas as reviravoltas no enredo.

A mais recente delas, a transformação da protagonista interpretada por Letícia Colin, rendeu picos de audiência, com 25 pontos em São Paulo. Desde então, a produção já acumula quase 132 milhões de espectadores. Na média nacional, são 23 pontos de audiência e 41% de participação no Painel Nacional de Televisão (PNT), a melhor performance do horário desde Vale Tudo (2025).

Homem idoso de pele clara, cabelo grisalho e curto, sorrindo com a boca aberta, usando camisa azul-marinho e brinco prateado na orelha direita. Óculos pendurados na gola da camisa. Fundo desfocado com livros e objetos coloridos
Walcyr Carrasco: aos 74 anos, projetos na TV e literatura não param de surgir (Agliberto Lima/Veja SP)

“Busco sempre soluções inesperadas e caminhos diferenciados”, descreve ao refletir sobre seu processo criativo. “Você cria um personagem inteiramente bom, mas ao longo da novela vai jogando aqui e ali uma coisinha, para depois poder revelar que ele era do mal. Ninguém percebe, mas dei as dicas.”

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Hábitos de autor

Famoso nos bastidores por defender à risca cada linha de seus roteiros, o autor hoje enxerga as intervenções de elenco com mais simpatia, desde que tenham intenções artísticas, e não de vaidade.

“Uma coisa é quando o ator mexe no texto para ter mais tempo de tela. Outra é quando ele contribui de fato para o personagem”, pondera. O passe livre consagrou momentos antológicos de Tatá Werneck como Brigite e agora de Isabel Teixeira na pele da vilã Pilar. “Ela (Isabel) dá uns tons de humor que me instigam a escrever.”

Close-up do rosto de uma mulher com maquiagem borrada pelo choro, um rastro escuro escorrendo do olho esquerdo, que está aberto e com a íris verde-azulada. Parte do cabelo loiro escuro aparece à esquerda, e o lado direito do rosto está na sombra
Confrontada, Pilar planeja vingança: Isabel Teixeira segue surpreendendo no papel da vilã (Globo/Reprodução)
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De hábitos noturnos, Walcyr estende a rotina de trabalho até depois da meianoite, debruçado sobre a versão final dos capítulos compartilhados com a coautora Claudia Souto (a direção artística é assinada por Amora Mautner).

“Mas estou mais diurno agora”, garante. “Esse é um trabalho de dia e de noite, estou sempre ligado na novela.” Só tem ficado de fora o antigo ritual de encerrar o expediente com um charuto na varanda.

Arte e lembranças

Além do prazer de escrever, que é tanto hobby quanto ofício, sua principal indulgência é a boa gastronomia. “Gosto de comer bem, comprar roupas transadas. E uma extravagância minha é ficar sozinho, viver meu próprio universo.” E há interesse em um dia parar de trabalhar? “Muito! Mas aí surge outro projeto e me apaixono de novo.”

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A postura reservada virou uma barreira natural contra abordagens de quem gostaria de um empurrãozinho para conquistar espaço em suas produções. “Não é tão fácil se aproximar de mim”, admite, rindo. “As pessoas procuram, fazem amizade para tentar conseguir papel ou alguma participação, mas não tenho muito espaço para isso. Sou mais de amizades antigas.”

Quem visita seu lar dá de cara com quadros de artistas como Os Gêmeos e Marc Chagall (1887-1985). “Não compro mais porque não tem mais nenhuma parede livre”, diverte-se.

Ao redor da mesa no escritório, Walcyr mantém uma profusão de figuras, santas e padroeiras. Só as muitas pilhas de livros superam a quantidade de obras de arte, com títulos de história, biografias e manuais sobre o fazer literário — uma prova física de todo o repertório acumulado desde o início da carreira.

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Em lugar de destaque fica um pilão do século XIX trazido da Espanha por seus avós imigrantes. “Eles trouxeram poucas coisas na bagagem. Nem sei como o pilão acabou comigo entre tantos netos.” Da avó, ele acredita ter herdado também o temperamento. “Assim como ela, sou teimoso e bravo quando sinto que a coisa pesou. E se quero uma coisa, insisto e não desisto na primeira derrota.”

Homem de pele clara, cabelo grisalho curto, sorri e segura um pilão de bronze. Veste camisa preta sobre camiseta escura, óculos pendurados no pescoço. Ao fundo, estante com livros e estatuetas
“Esse é um pilão do século XIX, que meus avós imigrantes trouxeram da Espanha. Da minha avó herdei também a teimosia” (Agliberto Lima/Veja SP)

Carreira estrelada

Filho de um ferroviário que insistia para que todos os filhos estudassem, Walcyr nasceu em Bernardino de Campos, no interior paulista, e formou-se em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou em grandes redações — foi colunista de Vejinha de 1992 a 2011 — antes de dar os primeiros passos na dramaturgia.

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Na extinta TV Manchete, nos anos 1980 e 1990, assinou seu primeiro sucesso, o clássico Xica da Silva (1996), sob o pseudônimo de Adamo Angel. Na época, ele era contratado do SBT como consultor de dramaturgia. Ao descobrir a farsa — revelada pela revista VEJA — o antigo patrão, Silvio Santos, dobrou eu salário e permitiu que ele concluísse o trabalho na Manchete, antes de escrever produções como Fascinação no próprio SBT e migrar para a TV Globo anos depois.

A chegada à Globo marcou o início de uma das trajetórias mais vitoriosas da televisão. Especialista em comédias românticas e folhetins do horário das 6, como Chocolate com Pimenta (2003) e Alma Gêmea (2005), ele migrou com facilidade para as faixas das 7, das 11 e das 9.

Em 2016, alcançou o ápice do reconhecimento ao conquistar o International Emmy Award de Melhor Novela por Verdades Secretas (2015). “Quando a minha primeira novela foi ao ar, já me senti bem- sucedido. Claro que foi muito legal também quando ganhei o Emmy, mexe muito com o ego sair de lá do interior para uma cerimônia nos Estados Unidos”, relembra.

Outro elemento frequente em seus roteiros é a espiritualidade, tema que se conecta diretamente com sua vida pessoal e permeou histórias marcadas por anjos e espíritos, como O Profeta (2006), Sete Pecados (2007) e Amor à Vida (2013).

Homem idoso de pele clara, cabelo grisalho e camisa azul escura, sorrindo e apoiando o queixo na mão direita, em frente a uma estante cheia de livros e objetos decorativos, com mais livros empilhados na mesa à sua frente
Contador de histórias: no local de trabalho, envolto por livros e lembranças (Agliberto Lima/Veja SP)

A intuição é um pilar central em sua própria vida. Estudioso de tarô e quiromancia na juventude, ele chegou a cogitar viver da prática antes de se enveredar pela arte de contar histórias. O fim da entrevista para esta reportagem, aliás, rendeu até uma leitura de mãos deste repórter.

“Me apaixonei por esses caminhos místicos antes de me entregar de vez à escrita.”

Enquanto conduz os capítulos decisivos de Quem Ama Cuida, prevista para encerrar em janeiro, ele se prepara para lançar, em novembro, Fazenda Tropical, romance escrito no intervalo entre duas produções da TV. O autor também foi convidado a concluir Sanditon (Principis; 192 págs.; R$ 39,90), manuscrito que Jane Austen deixou inacabado em 1817, lançado no último dia 1º. “Ter um projeto de vida é o que mantém a gente bem de saúde e com vontade de acontecer.”

Publicado em VEJA São Paulo de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015.

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