Christian Dunker fala sobre saúde mental, inadequação e pertencimento em novo livro
O psicanalista aborda os efeitos das redes sociais, da pressão por desempenho e da busca por diagnósticos na saúde mental
Está tudo bem se estamos todos nos sentindo inadequados, patinhos feios em um lago de belos cisnes. Para o psicanalista e professor de psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, 60, a revolta por ser “diferente” pode virar encontro, a solidão pode virar revoada e a diferença pode se transformar em revolução coletiva.
É esse o tema do livro recémlançado A Revolta dos Patinhos Feios — Como Transformar sua Inadequação em Pertencimento, que assina com o educador Cláudio Thebas. A obra é parte de uma trilogia, composta por Discurso e Narrativa em Psicanálise (editora Autêntica) e Psicanálise nos Trópicos (Boitempo), escritos por Dunker anteriormente. “São três livros que compõem um experimento, dizendo a mesma coisa em diferentes linguagens, voltadas para a academia, mas também para o público em geral.”
Desmistificar e coletivizar a saúde mental é algo que ele vem fazendo não apenas em obras literárias e artigos científicos, mas em vídeos e podcasts como o Desculpa o Transtorno, que divide com a escritora e roteirista Tati Bernardi. “Não adianta colocar a saúde na mão dos outros ou subir montanhas atrás de um líder. Vai dar errado e faz a gente desaprender de se cuidar”, afirma.
O psicanalista conversou com a Vejinha de seu consultório na Vila Mariana. Confira a seguir.
Em A Revolta dos Patinhos Feios é dito que a união dos diferentes pode se transformar em revolução coletiva. É possível fazer isso sem trabalhar a autoaceitação?
Existe um sentimento social de inadequação, dominante hoje em dia. Ele é metodicamente induzido nas pessoas para que se transforme em mais trabalho e desempenho, mas também em culpa e em consumo. A tese do livro é que é muito importante se dar conta dessa inadequação para começar a andar, sair do lugar, encontrar outros universos e destinos. Em vez de se revoltar contra si, se depreciar, o grande desafio é entender que nós não estamos sozinhos. Muito se fala em autoaceitação numa linha da empatia tóxica. Mas, na verdade, o que precisamos aprender aqui é ser só mais um. Ninguém precisa ser acima da média para ser digno. Então, no fundo, a solução para o patinho feio não é ele se transformar em um cisne, mas se aceitar como um pato. É uma experiência de humildade. Nós somos todos patológicos.
É como aquela frase: “Se todo mundo é especial é porque ninguém é”?
Exatamente. Todos nós temos incoerências e precariedades que devem ser aceitas, mas não como matéria-prima para se tornar outra pessoa. Isso não é apenas um engano, mas algo que faz as pessoas sofrerem mais.
Até que ponto esse sofrimento vem do desejo de se encaixar em um ideal narcísico? O que os padrões de beleza vigentes têm a ver com isso?
Os padrões são o molde do cisne. Quando o patinho feio nasce e não é igual aos outros, chegam a duvidar se ele era mesmo filho daquela mãe. Isso assinala o que pensamos sobre a família padrão. Existe o modelo vertical em que o ideal é ser igual aos pais, fazer o mesmo que eles. Mas há também um modelo horizontal, quando o filho é alguém diferente, com alguma deficiência, por exemplo. Surge uma encruzilhada. Ele pode passar a vida tentando se encaixar, para ser o que a mãe pata espera dele, mas também pode acontecer uma coisa linda: ver a transformação dos pais, quando eles se libertam de sua identidade patológica e aprendem com o diferente.
Qual o papel das redes sociais na disseminação da ideia de que é sempre necessário corrigir inadequações?
As redes sociais operam em vários níveis, inclusive na produção de algumas revoadas. Mas não dá para ir desavisadamente, acreditando na promessa de que basta acionar alguns comandos para se tornar alguém que todos vão achar incrível. Isso destrói a jornada. A pessoa fica engessada, como um pato que virou cisne, e em vez de sair voando ela se coloca numa redoma, onde espera que o mundo reconheça o seu valor — pelo que aparenta ser e não pelo que efetivamente faz.
Os algoritmos se tornaram os novos muros que construímos para não lidar com a diferença?
São piores. Porque os muros reais a gente constrói e reconhece. O algoritmo é um muro que construíram para nós, não sabemos o tamanho ou a forma. E nem seus construtores conhecem mais as regras de como ele funciona. A gente o percebe agindo, mas não entende. Não temos formação nessa linguagem. Em um mundo social e politicamente polarizado, o pertencimento costuma ser construído na rejeição do outro. Como transformar a própria inadequação em pertencimento? Aí entra o meu amigo Cláudio Thebas, que é educador e palhaço. O palhaço é uma espécie de patinho feio, com a sua inadequação. Mas faz um trabalho semelhante ao do psicanalista. Enquanto este escuta uma pessoa de cada vez, o palhaço escuta o sofrimento social. Mas a psicanálise está para a tragédia como o palhaço está para a comédia. E é dessa mistura que estamos precisando. A pergunta é: como podemos nos levar a sério e, ao mesmo tempo, nos deixar levar, cair? Nós fomos feitos para cair. Cair e levantar.
Há uma crescente busca das pessoas “inadequadas” por um diagnóstico, como TDAH ou outro transtorno. Por quê?
É uma resposta complexa. Temos alguns processos que explicam isso, e o primeiro deles é o nosso modo de produção neoliberal, que cria sofrimento para tirar mais produtividade e estimular o consumo. O uso indiscriminado das telas também influencia, fazendo parecer que esse sentimento é algo exclusivo, que só acontece com a gente. Isso gera culpa e vergonha. E, sim, houve mudanças na psiquiatria que fizeram aumentar o número de diagnósticos, transformando isso em algo trivial. O diagnóstico dá um nome para o que sentimos e nos faz ver que não estamos sozinhos. A pessoa deixa de estar inadequada, ela só estava no lugar errado. Esse efeito identitário corrige o lado narcísico do sofrimento. Isso tem um lado positivo, mas também pode transformar qualquer dificuldade do filho na escola em diagnóstico.
Estamos patologizando reações normais às dificuldades da vida?
Tem uma coisa interessante trazida pelo isolamento na pandemia de covid, quando houve um aumento exponencial de depressão e ansiedade. As pessoas perceberam que certas questões de saúde mental são consequências da vida que se leva e não da vontade de Deus ou da natureza. Passaram a querer tratar tudo. Mas pode ser perigoso terceirizar completamente esse cuidado. Podemos nos deixar levar por narrativas de profissionais mal-intencionados. Saúde mental exige pensamento, sacrifício interno e uma atitude crítica. Ninguém vai cuidar de você melhor do que você mesmo. E quem não cuida de si também não consegue cuidar do outro.
Publicado em VEJA São Paulo de 1º de outubro de 2026, edição nº 3015.






