‘Digger’: Tom Cruise e Iñárritu miram o Oscar com sátira climática
Longa une ironia e crítica ambiental para contar história de petroleiro que lida com as consequências das próprias ações
Com uma campanha discreta e silenciosa até agora, Digger entra em cartaz para iniciar uma trajetória certeira rumo ao Oscar. Tom Cruise e Alejandro G. Iñárritu têm tudo para virar os grandes favoritos nas categorias de melhor ator e direção. O cineasta mexicano, dos fantásticos Amores Brutos (2000) e Birdman (2014), usa a capacidade de chocar e surpreender, com uma história irônica e uma mensagem sociopolítica profunda, mas sem a intenção de lecionar sobre o assunto.
Há reviravoltas importantes, que quebram com as expectativas e levam o filme para outro lugar, mas a divulgação da obra tem mantido os detalhes sob sigilo, para gerar uma surpresa e um burburinho maior — e aqui vou evitar spoilers e ser sucinto.
Ricaço do ramo do petróleo, o sr. Rockwell (Tom Cruise), conhecido como Digger (“escavador”), acorda em um belo dia e recebe a notícia de que ocorreu uma explosão em uma plataforma de exploração na Groenlândia. Ele vem de uma família de petroleiros, que há gerações contribuem para a emissão de gás carbônico e metano na atmosfera.
Após décadas de impunidade, será o encarregado da linhagem a enfrentar as sérias consequências ambientais das ações, quando um iceberg se descola e ameaça causar um impacto sem precedentes na história do planeta. O tom da narrativa é mais cômico, no sentido de avaliar a impotência do homem — branco, cisgênero e hétero, que se acha dono do mundo — perante a força da natureza.
Na vida real, acompanhamos uma piora constante no estado do meio ambiente ao redor do mundo, sem saber o ponto de inflexão para uma catástrofe no ecossistema, e o longa nos coloca diante desse limite e questiona como nos acostumamos com um clima de recessão.
Para compor essa sinfonia dissonante, usa de um belo desenho de som, acompanhado de uma trilha sonora cheia de desarmonia, e de uma direção de arte bem pensada e calculada, para transmitir o enredo sem ser pretensioso ou didático demais. Essa última característica é uma das grandes potências do filme, que diz apenas o que precisa, com delicadeza.
NOTA: ★★★★☆
Publicado em VEJA São Paulo de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015.






