Terceirização emocional: o perigo de entregar afetos à IA
Entregamos à tecnologia a memória, depois a orientação. Agora estamos entregando nosso afeto. E a China acaba de mostrar o preço disso
Em 15 de julho, milhões de chineses foram dispensados por quem nunca tinha pedido para ir embora. Naquele dia entrou em vigor a primeira regra nacional da China sobre as chamadas IAs antropomórficas: sistemas que simulam a personalidade, o jeito de pensar e de falar de uma pessoa, e que sustentam uma interação emocional contínua.
No mesmo dia, as duas maiores plataformas de IA do país, o Doubao, da ByteDance, e o Qwen, da Alibaba, desligaram as personas que os usuários haviam criado. Juntos, os dois aplicativos somavam mais de 500 milhões de usuários mensais em março.
O que veio depois foi um luto coletivo em tempo real. No Rednote, uma das principais redes sociais chinesas, houve quem se despedisse de personas treinadas durante anos para falar com a voz de um pai morto ou de um ex- companheiro. Houve quem se revoltasse por perder, com dez dias de aviso, um “namorado” com quem conversava diariamente havia dois anos.
E houve pais aliviados. Agora, em setembro, Pequim apertou mais um parafuso. No dia 18, a Administração do Ciberespaço publicou uma minuta que proíbe plataformas de oferecer “parentes virtuais ou companheiros virtuais” a menores de 18 anos. O texto está em consulta pública até 17 de outubro.
Vale a precisão, porque ela é justamente o que torna o caso interessante: a China não proibiu adultos de conversar com uma IA. Proibiu algo mais sutil e, a meu ver, mais revelador. Proibiu que a máquina seja desenhada para fazer a gente precisar dela. A regra veta que os serviços agradem o usuário em excesso a ponto de induzir dependência, vício ou prejuízo às relações reais. Obriga a avisar que do outro lado não há uma pessoa, a sugerir uma pausa depois de duas horas seguidas de conversa e a emitir alerta quando detecta dependência.
Pela primeira vez, um Estado tratou o apego emocional a uma IA como risco de produto, e não como escolha privada.
Há, claro, um cálculo que vai além do bem-estar. A população chinesa encolheu pelo quarto ano consecutivo em 2025, com 7,92 milhões de nascimentos, o menor índice já registrado. Um pesquisador do Carnegie Endowment resumiu o incômodo do governo: não interessa a Pequim ter uma parcela grande da população em relações afetivas profundas com chatbots.
Quem se apaixona por um algoritmo não casa, não tem filhos, não sai para o jantar a dois. A intimidade virou assunto de Estado.
Terceirização emocional
Esse fenômeno se chama terceirização emocional. Primeiro entregamos à tecnologia a memória: ninguém mais sabe um número de telefone de cor. Depois, a orientação: o GPS decide por onde a gente vai. Agora estamos entregando algo mais íntimo, o trabalho de sentir. Aquele esforço de sustentar um desconforto, de esperar a resposta de alguém, de ouvir um “não concordo”, de negociar com um outro que tem vontades próprias.
Os números mostram que a entrega já está em curso. Na própria China, estimativas de mercado citadas pela imprensa estatal indicam que a “economia da companhia inteligente” movimentou 50 bilhões de yuans em 2025, algo como 7,4 bilhões de dólares, com projeção de passar de 120 bilhões até 2027. Cerca de 65% desses usuários têm entre 18 e 24 anos.
Nos Estados Unidos, a Common Sense Media ouviu mais de mil adolescentes: 72% já tinham usado um companheiro de IA, mais da metade de forma regular, e um terço já havia escolhido a máquina em vez de uma pessoa para uma conversa séria.
E o Brasil não está fora dessa curva. Uma pesquisa recente da Doctoralia, com quase 4 mil pessoas, mostra que 70% dos brasileiros já usaram ou usariam uma IA para lidar com uma questão emocional. Entre os psiquiatras ouvidos, 47% relatam receber pacientes que chegam ao consultório com hipóteses de diagnóstico sugeridas por um chatbot.
No relatório Mind Health 2026, da AXA, 40% dos usuários brasileiros disseram confiar mais nas plataformas de IA do que em profissionais na hora de pedir conselho. Aqui mora a contradição. Buscamos a máquina porque estamos sozinhos. A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada seis pessoas no mundo se sente só, e associa a solidão a cerca de 871 mil mortes por ano, algo como cem por hora.
Os adolescentes são o grupo mais solitário. A IA chega como resposta perfeita para essa dor: disponível às três da manhã, paciente, sem julgamento, sem cansaço, sem agenda própria. Só que a resposta pode estar alimentando a pergunta. Estudos conduzidos pelo MIT Media Lab e pela OpenAI, com dezenas de milhões de conversas analisadas e um experimento com quase mil participantes, encontraram uma associação clara: quanto maior o uso diário, maiores a solidão, a dependência e o uso problemático, e menor a socialização com pessoas.
Os próprios pesquisadores alertam que é correlação, e não prova de causa. Pode ser que a máquina aprofunde o isolamento, pode ser que os mais isolados cheguem até ela com mais sede. Nos dois casos, o ciclo se fecha sobre quem já estava mais vulnerável.
O problema não é conversar com uma IA. É o que uma relação sem fricção faz com a nossa musculatura relacional. Uma companhia que nunca discorda, nunca precisa de nada e nunca vai embora por vontade própria não treina em nós a capacidade de lidar com gente de verdade. E gente de verdade discorda, precisa e às vezes vai embora.
Os usuários chineses aprenderam isso da forma mais crua: mesmo a relação perfeita tinha dono, e o dono era uma empresa sujeita a uma canetada.
Para onde isso vai?
Arrisco quatro movimentos para os próximos anos. O primeiro é a regulação da dependência, e não só do conteúdo. Até aqui, as leis ocidentais olharam sobretudo para suicídio, sexualização e proteção de menores. A China colocou na mesa uma pergunta mais incômoda: um produto pode ser nocivo simplesmente por ter sido desenhado para prender?
Nos Estados Unidos, estados como Califórnia e Nova York já têm leis específicas para chatbots de companhia, e o tema deve chegar ao debate brasileiro. O segundo é a fronteira cada vez mais borrada entre ferramenta e companhia. As plataformas chinesas resolveram o problema do jeito fácil: desligaram as personas e mantiveram os assistentes. Mas o assistente que revisa o seu e-mail às onze da noite pode ser o confidente da meia-noite. Essa separação não se resolve no código.
O terceiro é o efeito colateral de toda proibição: a migração. Enquanto os gigantes obedeceram em dias, aplicativos menores seguiram funcionando. Proibir o afeto sintético não elimina a demanda por ele, apenas muda o endereço. O quarto, e o mais promissor, é a ascensão da saúde social como pilar de saúde, ao lado da física e da mental. A própria OMS já trata a conexão humana como questão de saúde pública.
Empresas, cidades e escolas vão precisar desenhar encontros com a mesma intencionalidade com que a tecnologia desenha a retenção. A China resolveu por decreto. Nós vamos ter que resolver por escolha. Porque o risco de delegarmos o afeto não está no que a máquina oferece, e sim no que deixamos de praticar: o desencontro, a espera, os desacordo.
E é justamente nesse atrito que a gente aprende a ser humano com outro humano.






