Mostra SP celebra 50ª edição com programação especial, livro e acervo
Festival paulistano revela filmes na seleção e lança publicação comemorativa, acervo digital e exposição sobre a história do evento
Em 16 de outubro de 1977, uma fila incomum se formava sob a fachada envidraçada do Masp, na calçada da Avenida Paulista. O público não esperava para prestigiar a programação de rotina do museu. Havia outra novidade na cena, prestes a entrar para a história da cidade: a 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ocupava o auditório do local. Cinco décadas depois, o evento celebra a 50ª edição, de 15 a 29 de outubro, com uma seleção de centenas de filmes vindos de diversos países e uma série de lançamentos comemorativos.
A data é celebrada com um site de acervo, uma exposição no Solar Fábio Prado e dois livros, um com os cartazes de todas as edições e a história por trás da criação de cada um — destacáveis para cinéfilos colecionadores —, feito pela própria organização do evento e vendido a partir do dia 3 de outubro, e outro com um ensaio de lembranças da diretora da Mostra, Renata de Almeida, publicado pela Cosac, com lançamento no dia 15, às 18h, no Fábio Prado.
Serão exibidos pela primeira vez no país longas como Tigre de Papel, escolhido para abrir o festival, em sessão com a presença do diretor James Gray. Também fazem parte da agenda A Terra do Meu Pai, de Pawel Pawlikowski, e All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, ambos premiados em Cannes (confira alguns destaques no final deste texto, com títulos anunciados com exclusividade pela Vejinha).
“Temos o papel de refletir sobre o estado do mundo”, afirma Renata, citando como exemplo a homenagem a Jafar Panahi no ano passado, cineasta condenado à prisão no Irã. “A Mostra tem uma postura de coragem, nasceu durante a ditadura, com a frase: ‘O público é o júri’. As matérias falavam que era o único lugar em que se podia votar no Brasil.”
O evento foi uma ideia de Leon Cakoff (1948-2011), armênio naturalizado brasileiro e jornalista que comandava o departamento de cinema do Masp, a fim de celebrar os trinta anos do museu. Na estreia, foram exibidos 25 filmes, de dezesseis países, para 15 000 espectadores. “Começou pequeno, mas foi um sucesso absoluto, pois era uma época de carência grande. Os filmes muitas vezes eram censurados; o festival chegou a parar durante dias por causa disso, foi um escândalo”, ela conta.
O evento ocupou o museu até 1983 e se guiu depois para outros espaços. Renata embarcou nele em 1989, na 13ª edição. Após um ano morando em Nova York, veio determinada a trabalhar na Mostra, conheceu Leon, e os dois começaram “um relacionamento improvável”, como ela descreve no livro Antes que Eu Me Esqueça.
A obra, com prefácio de Walter Salles, acompanha toda a sua atuação e revela bastidores. “Faço a Mostra há 37 anos, foram muitos encontros, que é uma das suas características. Muita gente me fala que conheceu seus namorados ou namoradas na fila das sessões, até me apresentam os filhos.”
O diretor cearense Karim Aïnouz é um que associa, com bom humor, a Mostra à pegação. “Tinha um lugar de troca e descoberta. Não lembro muito dos filmes, tenho memória das filas, era um monte de gente gostosa, linda, inteligente. Tinha uma eletricidade no ar, era o máximo.”
Atual mestre de cerimônias, junto de Renata, Serginho Groisman acompanhou de perto essa história. “Eu fui espectador em 1977 e me lembro muito do clima que tinha no Masp.” O apresentador paulistano recorda o encontro com Leon Cakoff. “Eu era repórter e minha primeira matéria foi na fila de uma sessão. Depois, me aproximei do Leon e conheci a Renata, somos amigos até hoje.”
O fundador do evento morreu em 14 de outubro de 2011, quatro dias antes da abertura da 35ª edição, em decorrência de complicações de um câncer de pele. O casal viveu uma batalha de anos, enquanto mantinha de pé a realização do festival e cuidava dos filhos. Ele chegou a ir a Cannes naquele ano, mas o estado de saúde piorou na volta. Renata enfrentou o luto e, com o apoio de amigos e entidades culturais, deu continuidade ao trabalho que faziam em dupla.
“Depois da passagem do Leon, a Renata conseguiu segurar a peteca e está mandando bala”, avalia Adhemar Oliveira, responsável pelo Espaço Petrobras de Cinema, na Rua Augusta. “A Mostra é fundamental para formação de plateia, ainda mais com a Mostrinha (criada em 2024 e voltada ao público infanto juvenil), e para renovar o amor pelo cinema. Teve uma trajetória heroica, saiu da ditadura e não perdeu a vontade de apresentar o novo.”
Renata e Leon tiveram dois filhos, Jonas, 28, e Tiago, 24. O primogênito seguiu os passos dos pais e trabalha desde 2021 na organização. “Quando era pequeno, conheci pessoas como Abbas Kiarostami (cineasta iraniano) e Claudia Cardinale (atriz italiana) sem saber quem eram.” No ensino médio, mergulhou na sétima arte e resolveu fazer cinema na faculdade. Hoje, faz parte da comissão de seleção, que avalia as inscrições — neste ano foram 1 700 — e faz convites para filmes de festivais internacionais. “Assisto a seis, sete filmes por dia.”
Um site de acervo compilará todas as informações sobre a história da Mostra, incluindo filmes de cada edição, catálogos e fotos. É mais uma iniciativa da organização, que vem levantando o projeto há dois anos. “Com essa coisa maluca da tecnologia, o site foi mudando e perdeu a função de pesquisa, agora as pessoas vão poder fazer. É um presente para a cidade”, diz Renata. Fica disponível em 3 de outubro.
“A Mostra me educou no cinema”, assegura a atriz e diretora gaúcha Bárbara Paz. Ela elogia a curadoria: “Jamais poderia navegar por tantos países, culturas e modos de contar histórias”. Um momento emocionante para a artista foi a estreia nacional de seu primeiro longa documental, Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2019), em homenagem a Héctor Babenco (1946-2016). “Sou eternamente grata à Renata por proporcionar esse momento lindo.”
O evento mudou a vida do diretor pernambucano Marcelo Gomes. “Eu tinha um cineclube em Recife e queria ir a São Paulo. Meu pai ofereceu pagar a passagem de avião, com a condição de eu visitar um tio com quem perdemos contato. Entre uma sessão e outra, fui à casa dele e ele me contou a história de um alemão que vendia aspirinas na estrada. Fiquei fascinado e sabia que aquele seria o meu primeiro filme.” O resultado foi Cinema, Aspirina e Urubus (2005), lançado e premiado na Mostra. Foi o primeiro filme brasileiro a ser eleito o favo rito pelo júri internacional. “Depois disso, tudo deslanchou.”
A história do festival é narrada em Tempo e Movimento: os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, exposição no Solar Fábio Prado. Com concepção da cineasta Daniela Thomas, apresenta uma pesquisa histórica de Helena Tassara.
O espaço cultural na Avenida Brigadeiro Faria Lima também será a nova casa da Sala Petrobras, que antes ficava na Cinemateca, destinada a sessões de grande público, e do 6º Encontro de Ideias Audiovisuais, com conversas sobre o mercado entre realizadores.
O evento dedicado a pessoas do setor terá uma mesa da produtora paulistana Gullane, dos irmãos Fabiano e Caio, que inicia as comemorações de 30 anos. “A Mostra é um lugar de diálogo”, analisa Caio.
“Também é uma plataforma de lançamento para projetos, um lugar para oxigenar a cena, com públicos gabaritados e cinéfilos”, acrescenta Fabiano. “É o primeiro passo da campanha de lançamento de um filme. Tem um selo de qualidade importante, ajuda a construir uma boa repercussão, junto de formadores de opinião e pessoas da indústria”, acrescenta.
E não só talentos nacionais. Quem vem de fora também tem chance de crescer. “É importante para lançamentos de filmes estrangeiros no Brasil”, aponta André Sturm, à frente do Belas Artes Grupo, dono da Pandora Filmes e do Cine Belas Artes. “Tem filme menor, de cineasta novo, que às vezes passa em mostra paralela, alguém assiste e começa um boca a boca, o filme acontece”, analisa. “A Mostra tem esse papel. Quando não tinha streaming era maior ainda.”
A edição de 2026 terá a retoma da da parceria histórica com o Cine Belas Artes, após anos em hiato. Uma sala do cinema de rua na Consolação exibirá quatro sessões por dia do festival. “O acordo nos deixou muito felizes, afinal, o Belas tem uma sala chamada Leon Cakoff”, conta Sturm, que abriu a Pandora incentivado pelo criador da Mostra. “Digo com tranquilidade que São Paulo é a segunda cidade mais cinéfila do mundo, depois de Paris, e muito por causa do evento.”
Marcio Fraccaroli, CEO da Paris Filmes, ressalta o potencial estratégico: “Para o distribuidor, dá a oportunidade de testar e promover o filme”. A distribuidora chega à Mostra com Feito Pipa, de Allan Deberton, representante do Brasil na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme internacional no Oscar. “É um evento importante na trajetória do filme”, afirma o diretor. “A gente fala em Oscar, mas não queremos esquecer a coisa mais importante: o público brasileiro.”
A cineasta Luiza Shelling Tubaldini, que exibe Maria de Maria no festival, compartilha da animação: “As sessões são muito vivas, as pessoas querem viver o cinema”.
A agenda já está ficando cheia. “Estamos fazendo quase duas mos tras em um ano só”, brinca Renata, em referência a todos os lançamentos. Além de reivindicar leis de in centivo e fomento com resultados efetivos, o desejo da diretora para o futuro da Mostra é simples: “Que ela nunca se acovarde”.
Filmes confirmados na 50ª Mostra SP
All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi
American Doctor, de Poh Si Teng
Aqui Não É o Seu Lugar (You Don’t Belong Here), de Florin Serban
Aurora (1927, restauro), de F.W. Murnau
A Aventura Sonhada (The Dreamed Adventure), de Valeska Grisebach
A Batalha do Chile I, II e III e O Primeiro Ano (restauros), de Patricio Guzmán
Behemoth: Uma Vida Composta em Peças, de Tony Gilroy
Biografia de Jorge Luis Borges, de Mariano Llinás
Clarissa, de Arie e Chuko Esiri
Diário de Uma Camareira (The Diary of a Chambermaid), de Radu Jude
Dust, de Tsai Ming-liang
Elza, de Eryk Rocha
Era uma Vez no Harlem, de William e David Greaves
Everytime, de Sandra Wollner
Feito Pipa, de Allan Deberton
A História do Concreto (The History of Concrete), de John Wilson
O Intruso, de Louis Paxton
Joy of Joys (curta), de Jonathan Glazer
La Maison des Bois (série), de Maurice Pialat
Maria de Maria, de Luiza Shelling Tubaldini
Minotauro, de Andrey Zvyagintsev
Mulher Desconhecida, de May el-Thouky
O Outro Lado das Redes, de Aaron Sorkin
O Projeto, de Sabrina Fidalgo e Yvam Rodic
Rehearsals for a Revolution, de Pegah Ahangarani
Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis
O Samurai e o Prisioneiro (The Samurai and the Prisoner), de Kiyoshi Kurosawa
Sul de Teerã (curta), de Kleber Mendonça Filho
A Terra do Meu Pai (Fatherland), de Pawel Pawlikowski
Tigre de Papel (Paper Tiger), de James Gray
O Último Batedor de Carteiras (The Only Living Pickpocket in New York), de Noah Segan
We, Mountain Patrol, Land of the People, The Beginning, The Seasons, Our Century, The End, Life (restauros), de Artavazd Peleshian
Publicado em VEJA São Paulo de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014.






