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A história de paulistanos deixados na roda dos expostos da Santa Casa

Dispositivo que operou de 1825 a 1950 recebeu 4 696 crianças abandonadas pelos pais 

Por: João Batista Jr. - Atualizado em

Milton Fagundes
Milton Fagundes, de 76 anos, em Santos: “Sou discriminado por não ter o nome dos pais no documento” (Foto: Paulo Vitale)

"Existe um vazio ao olhar para o espelho e não saber de onde vim. Não sei de quem herdei meu 1,82 metro de altura, a minha cor clara...” Sentado no sofá cinza-claro de seu apartamento em Santos enquanto beberica uma xícara de café pelando de quente, o senhor de cabelos grisalhos começa a se emocionar e um manto de lágrimas se forma sobre os olhos azuis quando fala do passado. No dia 27 de maio de 1940, alguém tocou o sino da roda dos expostos.

O dispositivo de madeira, com um buraco de 50 centímetros voltado para a calçada da Rua Dr. Cesário Mota Júnior, servia para mães abandonarem seu filho na Santa Casa de Misericórdia sem que precisassem se identificar. O badalo alertava para a chegada de um bebê de camisa azul e um vestido da mesma cor, com detalhes em vermelho. Também havia duas toucas de crochê e um cobertor.

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Após realizarem um exame, os médicos avaliaram que a criança estava com 8 meses. As enfermeiras da entidade escolheram o nome e o sobrenome, Milton Fagundes, que foi registrado com data de nascimento de 27 de setembro de 1939, um dia depois da festa de Cosme e Damião, os santos gêmeos, protetores das crianças. Passados 76 anos, Fagundes ainda pensa no que perguntaria se tivesse a oportunidade de um dia encontrar quem o largou na porta do hospital. “Passam mil coisas pela minha cabeça, talvez ela tivesse uma razão forte para isso. Nunca terei a resposta”, conforma-se.

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Milton Fagundes é um dos quatro paulistanos ainda vivos da roda dos expostos. O dispositivo operou de 1825 a 1950. Nesse mais de um século de funcionamento, calculam as profissionais responsáveis pela memória da Santa Casa, foram deixadas ali 4 696 crianças. Na média, quase uma por semana no período. As razões para isso ocorrer eram variadas. “Muita mãe solteira deixava o filho por temer o preconceito da sociedade”, conta June Arruda, diretora do museu da instituição.

Milton Fagundes
Milton Fagundes - um dos quatro paulistanos ainda vivos deixados na Roda dos Expostos (Foto: Paulo Vitale)

“Mas era comum também as mães rejeitarem deficientes, assim como o fruto de um adultério ou de uma relação entre um branco e uma escrava. ”Quando o hospital começou a fazer essa acolhida, contratava os serviços de amas de leite. Elas recebiam salário de 30 000 réis por mês para alimentar as crianças. Por isso, acabaram conhecidas como “mães mercenárias”. Essas mulheres levavam os bebês para sua casa e, uma vez ao mês, iam ao hospital para receber o pagamento. O método não foi bem-sucedido. Em média, cerca de 30% das crianças morriam. Para diminuir o número de óbitos, em1905 a Santa Casa criou um prêmio para as três lactantes que apresentassem as crianças mais gordinhas. A vencedora ganhou 100 000 réis.

No começo dos anos 1900, o hospital começou a abrigar os órfãos que brincavam por seus pátios e corredores. A convivência dos pequenos saudáveis com doentes de toda sorte era ruim. O tratamento dispensado às crianças deu um salto de qualidade a partir da década de 40, quando elas passaram a ser levadas para o abrigo Sampaio Vianna, localizado em um casarão do Pacaembu.

Foi lá que Milton Fagundes morou até completar 12 anos. “As freiras nos davam uma educação rigorosa, com horário para acordar, comer e dormir”, lembra. O convívio nem sempre era com as mesmas pessoas. Alguns de seus colegas morreram e outros ganharam uma família. Ele também teve a oportunidade de ser adotado, mas não quis. “Perguntei se aquela era minha mãe de verdade. Como não era, eu me recusei a sair de lá”, recorda.

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As datas festivas não passavam em branco. Na véspera do Natal, as enfermeiras acordavam as crianças às 23 horas para que fossem à Missa do Galo. “Quando retornávamos, era uma alegria: havia sido deixado um presente debaixo de todas as camas”, conta Fagundes. Já perto da adolescência, ele foi transferido para a Escola Agrícola Salesiana São José, em Campinas, também ligada à Santa Casa. “O colégio interno era enorme e ficava na zona rural”, conta.

Um dos compromissos dos alunos consistia em cuidar do rebanho de bois. Apaixonado por futebol, ele era um dos primeiros a ser escolhidos para compor o time na hora do recreio. Jogava como lateral esquerdo. Na instituição de ensino, formou-se técnico em tornearia mecânica. “Não era uma profissão de que eu gostava, mas, na minha condição, não dava para escolher muito.” Ao completar 18 anos, alistou-se no Exército e serviu no departamento antiaéreo. Sua missão era fazer o controle do estoque de armas e balas. Ficou um ano em um quartel localizado em Campinas.

Ao sair de lá, conseguiu emprego na Rhodia, o gigante da indústria química. Juntando as economias de sua época de militar com parte do salário de operário, Fagundes conseguiu realizar um sonho de consumo na época: a compra de uma lambreta preta. Nas horas vagas, montado na scooter decorada com dois adesivos de caveira em sua lataria, percorria as cidades vizinhas para passear e paquerar. Em uma dessas andanças, seus olhos claros se interessaram pelo jeito de menina de Elenir, então com 15 anos. “Nós nos encontramos em frente ao coreto da praça, na cidade de Paulínia, onde eu morava”, lembra ela. A adolescente era a filha do meio e vivia sob os cuidados do pai — sua mãe havia falecido de câncer quando ela tinha 8 anos. Fagundes e Elenir não se desgrudaram mais.

Elenir e Fagundes
Elenir e Fagundes, juntos há 52 anos: o casal tem três flhas e duas netas (Foto: Paulo Vitale)

O namoro progrediu e, para se casar na igreja, o noivo precisaria apresentar seu documento de batismo. Não o tinha. O então futuro sogro fez as vezes de padrinho. A questão de documentação sempre trouxe contratempos ao órfão da Santa Casa. Certa vez, em uma viagem para a Alemanha, Fagundes ficou retido no setor de imigração. Os policiais queriam entender porque em seu passaporte não constavam o nome do pai e o da mãe. “Passei uma hora tentando explicar a minha situação”, lembra ele. Esclarecida a confusão, ele conseguiu entrar no país. “Esse tipo de questionamento sempre me entristeceu”, conta Fagundes. “No colégio, quando meus amigos queriam me xingar, falavam a palavra ‘bastardo’.”

Milton Fagundes - RG
Documento de identidade de Milton Fagundes, de 76 anos, sem o nome dos pais (Foto: Paulo Vitale)

Os três outros sobreviventes da roda dos expostos continuaram a vida inteira aos cuidados da Santa Casa. Eles moram em um hospital da entidade, o Dom Pedro II, no Jaçanã, devido a problemas de saúde. José Alberto (não há sobrenome em sua certidão de nascimento), 71 anos, sofre de autismo. Maria Celina Alves, 69, tem oligofrenia, um tipo de retardamento mental.

Já Damaris Felipe dos Santos, 82, sofreu paralisia infantil; ela foi abandonada com 6 meses, em janeiro de 1934 (o documento de entrada dela na entidade foi perdido, então não há como precisar o dia exato em que isso ocorreu). Dona de uma memória tão boa quanto seu humor, Damaris lembra nomes e datas que marcaram sua vida de órfã. Foi batizada por uma enfermeira (“Helena Bonelli’) e um médico (“Quino de Andrade”). Aos 12 anos, foi transferida para o Dom Pedro II.

Damaris
Damaris, aos 82 anos: abandonada aos seis meses (Foto: Leo Martins)

A paralisia limita sua locomoção, mas não a criatividade. Depois de fazer sua sessão diária de fisioterapia, a senhora de sorriso largo passa as horas costurando almofadas de ponto de cruz. As peças são dadas de presente às enfermeiras e aos voluntários. O carinho é recíproco. Ela não tira da mão um celular que ganhou de presente de uma funcionária do lugar. Se ela recebe ligação? “Claro, para comentar quando meu time ganha”, conta a corintiana. Ela adora maquiagem (“Antes usava sombra e pó de arroz, agora passo só batom”), roupas rosa (“Minha cor favorita”) e falar de suas conquistas (“Tive quatro namorados dentro do hospital, mas todos já morreram”).

Também gosta de escrever e fez um poema dedicado às mães. “JesusCristo / Nosso amigo e irmão / Abençoai todas as mães / Para que elas possam cumprir sua Missão.” Ela vive em um dormitório com outras 21 pessoas, onde há três aparelhos de TV. No momento, tem acompanhado a novela bíblica Escrava Mãe, da Record, e sente saudade do programa sertanejo de Inezita Barroso, falecida em março de 2015.

Na metade do século XX, o movimento na roda dos expostos começou a rarear. Dois fatores contribuíram para isso. De um lado, a Santa Casa teve dificuldade para manter esse tipo de serviço. Do outro, programas do governo estadual, como a criação da antiga Febem, passaram a ser mais atuantes com relação à situação dos órfãos da cidade. Hoje em dia, as gestantes que não querem ficar com seus filhos podem deixá-los na maternidade após dar à luz. Os bebês são encaminhados a uma das varas da Infância e da Juventude da capital.

“Se ela fizer a doação de forma regular, comparecendo em juízo para registrar o desinteresse pela criança, o processo de destituição é rápido”, conta a juíza Mônica Gonzaga Arnoni. “Há casos em que a mulher tem o filho na sexta e ele já é adotado na segunda.” Nos últimos doze meses, 72 crianças foram deixadas nos hospitais públicos do Estado de São Paulo. Só na Santa Casa, registraram-se quatro casos neste ano. Quando ocorre o abandono às escondidas (como os horríveis casos de mães que deixam o filho na rua), as crianças ficam em um dos 134 centros de acolhimento da prefeitura. Nessa situação, se for descoberta, a responsável será processada por abandono de incapaz. A pena pode variar, de acordo com o agravante, de seis meses a doze anos de prisão.

Damaris
Damaris entre amigos do Dom Pedro II, ambos também deixados na roda dos expostos, numa foto de 2007 (Foto: Arquivo Pessoal)

Mesmo para quem deixou a Santa Casa há muito tempo, o local ainda serve de referência de vida pessoal. Milton Fagundes sente muita curiosidade por seu passado. Ele já foi algumas vezes ao museu da instituição para ler a respeito dos órfãos e também sobre o colégio onde estudou. “Se não fosse a Igreja Católica, não estaria vivo”, diz ele, devoto de Nossa Senhora Aparecida. “Ela é a mãe de Deus, sabe o que é proteger e cuidar de um filho.” É comum ele se emocionar nas missas, nos domingos de manhã, quando o padre reza a Ave-Maria.

Suas três filhas têm nome composto iniciado por Maria (Maria Beatriz, 50 anos, Maria Maidilene, 47 e Maria Giziane, 43). Aposentado desde 1989, ele hoje se diverte montando e desmontando objetos como cafeteiras e liquidificadores. Circula por Santos com uma de suas três bicicletas. “Já fui até Bertioga e Ilhabela pedalando”, orgulha-se. Tira o carro da garagem apenas para ir ao aeroporto. A cada dois meses, ele e Elenir vão a Brasília para visitar a filha caçula, mãe de suas duas netas. “Também converso com elas pelo Skype”, afirma. “Mas como tenho um problema de audição, prefiro falar ao vivo mesmo.”

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Em sua casa, o objeto de decoração mais adorado é um porta-retratos que fica em destaque no centro da sala. Na foto, tirada na sua infância, ele está com cara de choro. Trata-se do único registro desse período. Quando morava no alojamento da empresa Rhodia, roubaram seu quarto e levaram de lá o baú onde guardava todas as suas imagens antigas e uma gaita, dada de presente pelas freiras da Santa Casa.

Não conseguiu recuperar nada. Décadas depois, foi ao museu do hospital com a esperança de encontrar algum material do seu passado. Por sorte, havia nos arquivos uma foto dele, com idade aproximada de 5 anos, a mesma hoje que guarda como um talismã na sua residência. “Ficou um buraco por eu não ter tido mãe, mas foi um ato de amor ela ter me deixadona Santa Casa. Graças a isso, sou um sobrevivente que se casou, teve três filhas e tem duas netas.”

MEMÓRIAS DA SOLIDARIEDADE

Registros mostram a rotina decrianças deixadas pela mãe

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    Filial de um endereço na Riviera Francesa, o lugar é frequentado por gente abonada acima dos 30 anos e cenário de badalados jantares. Quem está a fim de apenas petiscar pede tira-gostos como o arancino (R$ 29,00, quatro unidades) e se joga nos drinques do bartender Marcelo Serrano. Talentoso, o profissional se divide entre o Brasserie e o vizinho Recreo, nova empreitada dos mesmos donos. Equilibrado, o drinque bergamota (R$ 33,00) mescla vodca cítrica com tangerina e cenoura e traz espuma de pêssego bem docinha no topo.

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  • Docerias

    Éclair Moi Paris - Jardim Paulista

    Alameda Lorena, 1204, Jardim Paulista

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    Depois de dois anos na Vila Nova Conceição, a confeitaria dos irmãos Nathalie e Edward Davies ganhou filial no Jardim Paulista. Aberto em abril, o novo endereço compartilha das ótimas bombas de massa choux da matriz. À clássica (e imperdível) versão de baunilha (R$ 11,65), somam-se possibilidades como caramelo com manteiga de sal e red velvet (massa vermelha com recheio de cream cheese; R$ 13,85 e R$ 11,65, respectivamente). Para um lanche da tarde, dispense o enjoativo éclair salgado com musse de fígado de frango e gelatina de uísque (R$ 13,85) para investir na gougère, o pão de queijo francês (R$ 3,50).

    Preços checados em setembro/outubro de 2016.

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  • Aviso aos adultos que vão acompanhar os meninos e meninas em O Alvo Parte 2 — Hateclub: talvez algumas expressões usadas sejam quase desconhecidas. O pequeno glossário aqui embaixo ajuda, mas a melhor forma de se inteirar é perguntar aos filhos os detalhes do texto escrito pelo também diretor Pedro Garrafa. Os jovens sabem direitinho como se travam as disputas entre amigos nas escolas. A história começou na elogiada ✪✪✪✪ O Alvo, de 2015, quando o autor abordou a trajetória de cinco garotas que atormentavam Maria Cláudia, apelidada de “dinossaura”. A sequência mostra uma reviravolta. Agora é o quinteto que passa a ser excluído pelos outros alunos. Para fazer a garotada a partir dos 8 anos refletir sobre um assunto sério como o bullying, a montagem abusa de referências adolescentes na trilha sonora, recheada de hits como Sorry, de Justin Bieber, e Work, de Rihanna. Em sintonia, as atrizes Andressa Andreato, Julia Freire, Kuka Annunciato, Luiza Porto, Natalia Viviani e Pauline Mingroni não perdem a mão nem nas cenas de discussão — e olha que são muitos gritos agudos simultâneos. Também somam pontos positivos o bom uso da luz negra e os acessórios de cores vibrantes, destacados ainda mais no escuro. Quem perdeu a primeira peça pode conferir uma sessão extra do enredo, às 17h30, no mesmo teatro. Recomendado a partir de 8 anos. Estreou em 4/6/2016. Até 30/7/2016. Glossário para os pais: Shippar: torcer para que duas pessoas comecem a namorar, mesmo quando elas nem têm interesse Tombar: fazer alguma coisa que chama a atenção de um grupo de pessoas Fazer a louca: tomar uma atitude extrema Bafônica: fofoca quente sobre alguém
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  • Tragicomédia

    Fim de Partida
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    Escrito em 1957, ainda sob a sombria influência do pós-guerra, este texto do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) exige desprendimento do espectador já a partir da sinopse — em vez de haver tempo, lugar e personagens palatáveis, Fim de Partida se passa no que parece ser um abrigo. Refugiados de uma terra devastada, vagando entre o passado diluído na memória e o futuro que não tem chance de existir, quatro insólitas criaturas discorrem sobre a própria insignificância enquanto esperam a morte. Em jornada dupla, Eric Lenate dirige e interpreta Hamm, o protagonista do drama. Cego e preso a uma cadeira de rodas, ele é uma espécie de líder, ao redor do qual pairam outros três sujeitos: o serviçal Clov (Rubens Caribé), que carrega uma doença qualquer que o impede de sentar-se, e os pais Nagg (Ricardo Grasson) e Nell (Miriam Rinaldi), ambos velhos e mutilados, que vivem dentro de (!) latões de lixo. Como diretor, Lenate optou por uma montagem fria, fiel ao texto, e com espaço para valorizar o trabalho de cada um dos profissionais em cena. Como ator, ele é o que mais intensamente mergulha na solidão do seu personagem, seguido logo atrás por Caribé. À plateia, resta entrar no jogo e aceitar que um texto de Beckett dificilmente carrega respostas. Ao contrário, aqui são inúmeras as possibilidades para refletir sobre a condição humana. Estreou em 2/5/2016. Até 19/12/2016.
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  • A morte do cantor e compositor David Bowie, em janeiro deste ano, desencadeou uma série de merecidas homenagens ao astro. Em estreia nacional, a companhia Cisne Negro mostra no Teatro J. Safra a montagem Ziggy, com nome inspirado na principal persona do artista, Ziggy Stardust. Com coreografia de Mário Nascimento e direção de Hulda e Dany Bittencourt, onze bailarinos dançam ao som de canções famosas do roqueiro. Antes, o elenco apresenta Sra. Margareth, de Barak Marshall. A trama envolve um grupo de funcionários preso no porão da casa de uma patroa abusiva. Dias 24, 25 e 26/6/2016.
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  • O rock nacional começou a engatinhar em 1959, quando Celly Campello sapateou ao som de Estúpido Cupido. A história do gênero por aqui foi resumida em um show de três horas dirigido por Liminha, ele mesmo uma peça fundamental nessa trajetória, como baixista de Os Mutantes e, depois, no papel de produtor de vários clássicos dos anos 80. O espetáculo em questão, o Nivea Viva Rock Brasil, já rodou seis capitais e chega a São Paulo no domingo. Revezam-se no palco Os Paralamas do Sucesso, Nando Reis, Dado Villa-Lobos, Paula Toller e Marjorie Estiano (convidada para uma participação especial depois que Pitty deixou o elenco por causa da gravidez). Eles mostram 35 canções em ordem cronológica. É Proibido Fumar de Roberto Carlos e Erasmo Carlos entra num medley com outras faixas dos anos 60. Os tropicalistas são lembrados em Panis et Circenses, e Os Mutantes, com Ando Meio Desligado. Nando Reis e Herbert Vianna unem-se em um dueto em Marvin, dos Titãs, e, na sequência, emendam Óculos e Meu Erro. Bandas mais recentes, a exemplo de Nação Zumbi, Skank e Los Hermanos, também serão lembradas. Dia 26/6/2016.
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  • Paco (Mathieu Kassovitz) conheceu Nora (Céline Sallette) numa comunidade hippie. Ela já era mãe de um garotinho e eles decidiram juntar os trapos, formar uma família e viver em meio à natureza. Quando os dois filhos que tiveram juntos tinham 7 e 8 anos, Nora cansou de morar dentro de um trailer no meio do mato. Pegou as três crianças e foi para a casa de seus pais. Inconformado, o marido a localizou. O juiz, então, deu uma sentença. Paco não aceitou e, um ano depois, tomou uma atitude drástica. Para surpreender o espectador, não convém ir muito além na história do drama Vida Selvagem, extraída de um caso real. Muito habilidoso na condução, o diretor francês Cédric Kahn joga a plateia numa complexa discussão sobre a melhor maneira de educar os meninos. Enquanto o idealista Paco prefere vê-los longe da sociedade de consumo, Nora quer deixá-los seguir o curso, digamos, natural. Sem julgamento moral dos personagens, o roteiro examina, sobretudo, a superproteção em família e como uma convivência praticamente enclausurada pode sufocar os relacionamentos. Estreou em 16/6/2016.
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  • A foto existe e foi tirada em 21 de dezembro de 1970. O que se disse, porém, no Salão Oval da Casa Branca é imaginação dos roteiristas de Elvis & Nixon. Explica-se: Elvis Presley (interpretado por Michael Shannon), rei do rock e famoso mundialmente, desconfiava que a juventude estava perdida em meio às drogas e encasquetou em virar um agente do FBI disfarçado. Tinha porte de armas e não andava sem elas. Acompanhado do amigo Jerry Schilling (Alex Pettyfer), foi até um dos portões da Casa Branca para pedir uma audiência com o então presidente Richard Nixon (papel de Kevin Spacey). O caso chegou a dois assessores e, para passar um verniz na já arranhada imagem do chefe, eles o aconselharam a receber o cantor. O melhor do longa-metragem concentra-se, é claro, nesse encontro inusitado e, para satisfação do público, muito divertido. Shannon e Spacey não se parecem com seus personagens e, por isso mesmo, a caricatura (no bom sentido) acaba sendo a melhor saída. Estreou em 16/6/2016.
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  • A generosidade de Paulina, interpretada por Dolores Fonzi, é tão grande que ela aceita dar uma reviravolta na vida mesmo tendo prejuízo. Advogada bem-sucedida e filha de um juiz, a jovem sai de Buenos Aires para ser professora de adolescentes em uma área rural na fronteira do Paraguai. Ao voltar para casa após uma noite de bebedeira com uma amiga, a moça acaba sendo atacada por uma gangue e estuprada. A partir daí, as decisões da protagonista de Paulina vão, certamente, acirrar discussões depois da sessão. Em narrativa dinâmica, alternando momentos de antes e depois do ocorrido, o diretor Santiago Mitre apresenta uma personagem de ideias e ideais fortes que, mesmo julgada pelo pai e pelo namorado, segue seus propósitos. Estreou em 16/6/2016.
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    Atualizado em: 17.Jun.2016

Fonte: VEJA SÃO PAULO