Mídia

Jovens da periferia criam seus próprios veículos de comunicação

A TV Doc Capão e o Periferia em Movimento são alguns exemplos da tendência

Por: Nathalia Zaccaro

equipe da TV DOC CAPÃO
Marcos, André e Richael Costa: no ar desde 2012 (Foto: Lucas Lima)

No limite entre São Paulo e Itapecerica da Serra está o bairro Jardim Horizonte Azul, que integra o distrito do Jardim Ângela. O local fica a cerca de 30 quilômetros do centro. Algumas das ruas, bastante esburacadas e pouco iluminadas, acabam em matagais. Uma das únicas vias de acesso para lá é a Estrada M´Boi Mirim. Por isso, a região ficou conhecida como "fundão da M´Boi Mirim".

Esse lugar será tema principal de um novo canal de comunicão. Ele pretende abordar o dia a dia dos moradores, discutir os problemasdo pedaço e cobrar providências das autoridades. Batizada de TV Doc Fundão, a emissora, cuja estreia estava prevista para quinta (28), vai operar em uma instalação improvisada dentro de uma pequena sala no 2º andar da associação de moradores.

Ali, com ajuda de duas câmeras, uma Nikon Coolpix L810 e uma Sony Handycam DCR-SX40, os amigos Felipe Costa, Bruno Araujo e Isaac Faria vão tocar o projeto. A programação será exibida na internet (www.facebook.com/tv-doc-fundao). "Queremos fazer uma cobertura que ajude a transformar nossa realidade", diz Isaac. "Já que a prefeitura não lembra muito que estamos aqui, vamos fazer nossa parte e lembrá-la". Os programas contarão com a ajuda de voluntários da vizinhança e serão bancados por doações. Por enquanto, a turma reuniu cerca de 2 000 reais.

equipe da tv doc fundao
Bruno, Felipe e Isaac, da TV Doc Fundão:transmissões pela internet (Foto: Fernando Moraes)

Essa iniciativa tem como fonte de inspiração a TV Doc Capão, que está no ar desde março de 2012 no Capão Redondo. Como ocorrerá com a Doc Fundão, seu conteúdo é também divulgado na rede (www.facebook.com/tvdoccapao). Um time de nove repórteres realiza a cobertura de festas da região, traça perfis de artistas locais e comanda entrevistas com autoridadesda cidade.

Entre as matérias de maior destaque estão duas conversas exclusivascom o prefeito Fernando Haddad, realizadas em maio e outubro. Nos encontros,o político respondeu a perguntas sobre a redução da maioridade penal e o sistema público de educação. As vinhetas ao som de rap e a câmera um pouco tremida são uma constante nas produções.A precariedade técnica não tira o entusiasmo dos fundadores.

“Em 2012 conseguimos produzir só três edições do programa”, conta André dos Santos, de 17 anos, um dos responsáveis pelo trabalho.“Neste ano já foram 25.” A evolução se deve à ampliaçãoda equipe, que ganhou seis integrantes nos últimos meses, e tambéma incentivos financeiros. O projeto foi aprovado pelo programa Valorização de Iniciativas Culturais(VAI), da Secretaria Municipal de Cultura.

Isso permitiu à TV Doc Capão receber uma verba de aproximadamente 25 000 reais em dezoito meses. Com o dinheiro, foi possível comprar uma nova câmera e bancar todos os custos de produção. Até o fim de 2014, os planos são criar sucursais da emissora em bairros das zonas Norte e Leste. O pioneirismo na cobertura da periferia fez com que a turma virasse consultora informal de iniciativas semelhantes.

“Quando soube que alguns jovens do fundão da M’Boi Mirim estavam interessados em fazer algo parecido, fiquei muito feliz e ensinei tudo o que aprendi por aqui”, relata André. Além da pauta focada na coberturado dia a dia e dos problemas locais, outro ponto em comum desses novos canais de comunicação é o uso da internet para a divulgação do conteúdo. O interesse dos jovens levou à criação de um portal de notícias com esse perfil, o Periferia em Movimento (www.periferiaemmovimento.wordpress.com).

alunos da escola de noticias
Lucas, Fernanda e Bianca, da Escolade Notícias: curso de jornalismo (Foto: Lucas Lima)

Colocado no ar em 2009 pela dupla de jornalistasThiago Borges e Aline Rodrigues, ele morador do Grajaú e ela do Campo Limpo, o endereço cobre a Zona Sul e já registrou mais de 160 000 acessos. Entre os temas abordados, estão espetáculos musicais agendados na região e a necessidadede mais políticas públicas para idosos. “Tratamos dos assuntos referentes aos nossos bairros com um olhar de quem está dentro daquilo, vivenciando tudo de perto, e não como alguém que observa de longe”, define Thiago.

O interesse pela criação de veículos comunitários inspirou o surgimento da Escola de Notícias. Desde julho, a organização oferece aulas de jornalismo a jovens do Campo Limpo. Ninguém paga nada para frequentaros cursos, que têm duração de doze meses. “Eu vivo nessa área desde pequena e mesmo assim não conhecia o lado bom do meu bairro”,conta Bianca Braga, de 16 anos, aluna da primeira turma de formandos, ao lado de Fernanda Moraes e Lucas Lima. A partir de 2014, os aprendizes terão seus textos publicados em um jornal de bairro mensal que circulará gratuitamente com uma tiragemde 10 000 exemplares. 

 

Cobertura local

Os assuntos abordados pelos novos programas, sites e publicações

› Jornal Viver Campo Limpo: programas de inclusão cultural promovidos pelo casal Suzy e BinhoSoares, como a distribuição de livros na saída do Terminal Campo Limpo

› Periferia em Movimento: as manifestações contra a má qualidade do transporte público na região doGrajaú e suas consequências

› TV DOC Capão: festas realizadas pelas pessoas do bairro, perfis de artistas locaise entrevistas com políticos eautoridades da metrópole

› TV DOC Fundão: o dia a dia dos moradores do bairro Jardim Horizonte Azul e as principais dificuldades da região

Fonte: VEJA SÃO PAULO