Crônica

O caminho das letras

Por: Matthew Shirts

Crônica da edição 2392
(Foto: Divulgação)

Levo um susto logo na entrada da Livraria da Vila, aquela original mesmo da Rua Fradique Coutinho, ao perceber pelo canto do olho uma obra nova, pelo jeito, e desconhecida. Trazi ao sugestivo título Rotas Literárias de São Paulo. Freio para investigar. “O que será isso?”, penso alto cá com meus botões. E não é pequeno. É um livrão em formato e número de páginas.

Ao entrar na loja, meu objetivo era tão somente matar uns minutos antes de um almoço marcado ao lado, para o qual chegara adiantado (para variar), e ver se encontrava um exemplar de O Pintassilgo em língua inglesa. Queria presentear uma amiga que vivera longos anos nos Estados Unidos e prefere devorar romances americanos na língua da terrinha. Aliás, se você não tomou contato com esse livraço, destaque nas listas dos mais vendidos e ganhador do Prêmio Pulitzer, sugiro que o faça na primeira oportunidade. Gastei nas suas páginas horas trepidantes, deliciosas, memoráveis. Lembro-me mesmo de todas as nuances do enredo. A quem o lê no momento, dirijo sempre a mesma pergunta: em qual trecho está? Mas nada, nadinha posso dizer em resposta sem correr o risco de estragar alguma das muitas surpresas da história. Ainda não encontrei no Brasil quem tenha terminado a leitura e esteja habilitado, portanto, a discutir a obra. Não tardará.

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Abro Rotas Literárias de São Paulo ali na entrada. É um guia? Um ensaio? Compro-o imediatamente ao ver que há um capítulo dedicado ao bar Mercearia São Pedro, de Pinheiros, e outro à Biblioteca Mário de Andrade. A resposta, descubro, ao folhear o título no caixa, é um pouco de cada coisa. São histórias distribuídas geograficamente pelos pontos de maior intensidade bibliográfica em nossa cidade. Conta casos da Academia Paulista de Letras, instituição curiosa da qual nunca tive informações suficientes, do Sebo do Brandão, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e por aí vai.

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A autora, Goimar Dantas, conta com gosto os seus casos e reúne todo tipo de curiosidade a respeito de escritores e instituições literárias, sejam elas formais ou não. Pulo alguns trechos, mas não paro de ler. Há até um guia dos túmulos de grandes artistas paulistas no Cemitério da Consolação. Aguarde uma crônica minha sobre o assunto. Pretendo fazer o “roteiro do além” na primeira oportunidade.

Chego ao restaurante Maha Mantra, um pouco mais adiante na própria Fradique Coutinho, falando de Rotas Literárias com entusiasmo para meus filhos mais velhos, Maria e Lucas (eles estão acostumados). Fica a dica, aliás. O Maha Mantra deveria figurar entre os dez melhores vegetarianos do mundo, ao menos na minha modesta opinião de onívoro. Eu o adoro. É um dos lugares favoritos da minha família. Mas não foi sempre assim. Quando o Lucas era criança, umas duas décadas atrás, desandou a gritar lá dentro após uma única colherada de feijoada vegan: “Eu quero ir no McDonald’s! Me leve no McDonald’s! Já!”. Foi constrangedor. Você pode imaginar. Mas o mundo gira e a Lusitana roda.

Fonte: VEJA SÃO PAULO