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Nostalgia pura

Homens acima dos 40 anos desembolsam em leilões até 200 000 dólares por brinquedos memoráveis

Por: Kênya Zanatta, de Paris - Atualizado em

Carruagem nostalgia pura
Carruagem de estanho: século XIX em alta (Foto: Divulgação)

Com uma coleção de 10 000 carrinhos de metal, grande parte da década de 50, o comerciante francês Jean-Marie Gianni alimenta, aos 65 anos, sua alma de criança. Gianni começou a juntá-los aos 15. “Eles reproduzem exatamente os automóveis que eu avistava na rua e sonhava possuir”, diz ele, que transformou o hobby em profissão. Em Paris, Gianni é dono da 43e Rue, uma loja especializada em miniaturas em escala 1:43. O endereço (Rue Pierre Demours, 66) está na rota de homens que podem comprar carros em escala 1:1, mas seguem em busca do sonho embalado pelos brinquedos da infância. “As miniaturas das décadas de 40 a 60 estão em alta agora porque remetem à infância da atual faixa etária de colecionadores”, conta Philippe Salmon, fundador da Collectoys, especializada em leilões de brinquedos antigos. Em 2005, a casa francesa arrecadou quase 1 milhão de euros com a venda de 1 000 peças da coleção Gérard Dulin (pseudônimo do entusiasta francês que as reuniu), uma das mais raras de Dinky Toys — marca inglesa de carrinhos na qual Jean-Marie Gianni também se especializa.

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Triciclo de estanho: vendido pela Galerie de Chartres, de Paris (Foto: Divulgação)
Os carrinhos estão entre os itens mais procurados nos leilões de brinquedos antigos, um ramo com cifras de gente grande marcado pela nostalgia da infância — e não por investimento ou status. “É um mercado movido apenas pelo amor às peças”, diz Pascal Maiche, sócio da Galerie de Chartres, casa de leilões a uma hora de Paris que dedica cerca de um terço da atividade aos brinquedos. Os preços mais altos são reservados a itens franceses e alemães do século XIX, como os feitos pela Märklin. Cobiçada pelas miniaturas de estanho, a marca original da cidade de Göppingen era a favorita do bilionário americano Malcolm Forbes, dono de mais de 100 000 brinquedos, reunidos a partir dos 53 anos (o empresário morreu em 1990, aos 71 anos). Em 2010, no segundo leilão promovido para dispersar sua coleção, o navio Lusitania, fabricado pela Märklin em 1912, alcançou 194 500 dólares — sete vezes mais do que o valor desembolsado por Forbes em 1983. Para atingir tais preços, os brinquedos devem estar bem conservados — algo não tão impossível entre aqueles que têm cerca de 200 anos. “Como era um artesanato caro e raro, os filhos de famílias abastadas aprendiam a manuseá-los com cuidado”, afirma Maiche (brinquedos de estanho custavam o equivalente ao que um médico ganhava por semana). Na embalagem original, opreço pode até dobrar. Trata-se da mesma fórmula de valorização do arremate de joias e relógios: Cartier ou Patek Philippe na caixinha de fábrica valem mais.

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Playmobil caubói, arrematado na parisiense Artcurial (1658 euros): na mira da nova geração de colecionadores (Foto: Divulgação)
Com a passagem dos anos, será a vez de os exemplares de plástico, produzidos em escala industrial, atraírem a atenção de uma nova geração de colecionadores em busca da infância perdida a partir dos anos 70. “É difícil prever as cotações de brinquedos mais modernos, vendidos em milhões de exemplares”, diz Philippe Salmon, da Collectoys. As bonecas Barbie mais procuradas, do fim dos anos 50, atingem preços modestos, entre 200 e 400 euros — especialmente quando comparados aos das bonecas de porcelana do ateliê de Thuillier, que a Galerie de Chartres chegou a vender, no ano passado, por 27 000 euros. Lego e Playmobil (recentemente, o caubói desta página, um boneco de 145 centímetros, foi vendido pela Artcurial, em Paris, por 1 658 euros) já têm uma disputa um pouco maior — assim como os bonequinhos que representam personagens de filmes cult, entre eles os da série Star Wars. Pascal Maiche aposta que, com uma oferta de produtos tão abundante, as edições limitadas se tornarão objetos de desejo das futuras gerações. É aguardar (e guardar na embalagem original) para ver e, quem sabe, faturar.

Fonte: VEJA SÃO PAULO