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Grife 'made in Guaianases' faz sucesso entre funkeiros e sertanejos

Criada na periferia de São Paulo, Egosss fatura 500 000 por mês e vai abrir franquia em Nova York

Por: Nataly Costa

Jeferson Santos
O dono Jeferson Santos: showroom no Jardim Anália Franco (Foto: Adriano Conter)

Na noite de 23 de outubro, uma sexta-feira, Jeferson Santos, de 36 anos, chegava em casa, no bairro de Guaianases, na Zona Leste, quando foi abordado por dois bandidos. Armada, a dupla ordenou que ele entrasse em um carro preto de vidros escuros. “Pode me matar, mas não vou entrar aí”, reagiu a vítima. Por sorte, conseguiu escapar “apenas” com uma coronhada no rosto. “Não dá mais, vou ter de me mudar”, lamenta Santos. “Fiquei conhecido demais por aqui.” O motiv oda fama é o sucesso da grife de roupas e acessórios Egosss, criada pelo empresário há três anos. Com bonés coloridos e camisetas estampadas,entre outros itens, o negócio faz sucesso entre artistas, sobretudo os funkeiros ostentação. O faturamento está na casa dos 500 000 reais por mês.

Boné Egosss
Boné "de diamantes": R$ 259,00 (Foto: Adriano Conter)

+ O estilo que vai substituir o funk ostentação

Nascido e criado em Guaianases, Santos cursou até o 3º ano de engenharia elétrica, enquanto trabalhava como técnico em conserto de celulares. Seu primeiro negócio próprio foi uma revenda de aparelhos eletrônicos. Mas o salto ocorreu em 2011, quando começou a prestar atenção em um estilo musical que fazia a cabeça da garotada da vizinhança: o funk ostentação. De olho nesse público, ele abriu no ano seguinte a Egosss, a única loja que vendia marcas como Hollister, Lacoste e Abercrombie (originais, claro) em pleno comércio da Rua Otelo Augusto Ribeiro, no coração de Guaianases.

Gusttavo Lima
Gusttavo Lima: propaganda espontânea nas redes sociais (Foto: Adriano Conter)

O sucesso foi imediato. “O pessoal me ligava à noite fazendo pedidos: ‘Jeferson, pelo amor de Deus, preciso de uma roupa para ir ao baile’ ”, lembra. Entre os desesperados, estavam nomes como MC Daleste (morto em 2013) e MC Gui, à época ainda ilustres desconhecidos. Em um ano, Santos parou de importar produtos dos Estados Unidos e começoua desenhar suas primeiras peças. Aos poucos, os bonés coloridos bordados com uma letra E gigante e as camisetas com o nome da marca escrito em letras garrafais foram tomando conta das prateleiras, desbancando as etiquetas gringas.

Em fevereiro de 2014, quando MC Gui, já famoso, apareceu no clipe da música Beija Ou Não Beija usando a grife, o negócio estourou.“ Abrimos mais duas lojas, na Penha e no Itaim Paulista. Tinha fila de espera”, conta o empresário.

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A Egosss possui atualmente cinquenta funcionários, mas nada passa sem a aprovação do chefe. É dele o styling de cada peça — da modelagem às estampas —, e até o número de WhatsApp fornecido para dúvidas e reclamações no site da marca é do seu celular pessoal. Os moletons (239 reais, em média), as regatas (109 reais), os gorros (69 reais) e as camisetas (159 reais) são confeccionados na Penitenciária Feminina de Santana, na Zona Norte, por cerca de trinta detentas. Elas ganham 591 reais por mês pelo serviço e, a cada três dias trabalhados, têm um abatido da pena. Para ficar ainda mais focado na criação, Santos decidiu fechar as três lojas e manter apenas um showroom no Jardim Anália Franco, a “Moema da Zona Leste”.

Boné Egosss
Boné rosa: R$ 139,00 (Foto: Adriano Conter)

No início de 2015, fez uma parceria com a consultoria Global Franchise para investir no sistema de franquias. Uma já foi aberta em Madureira, na Zona Norte do Rio, e as próximas serão em São Paulo, na Lapa (Zona Oeste) e em Aricanduva (Zona Leste). Além disso, a Egosss é revendida em cerca de setenta multimarcas no Brasil e nos Estados Unidos — dá para encontrar a grife made in Guaianases no famoso outlet Woodbury, em Nova York, e em lojas de departamentos em Miami e Los Angeles. “Queremos fechar 2016 com doze novas franquias pelo Brasil e, se tudo der certo, abrir uma em Manhattan”, afirma Paulo César Mauro, diretor-presidente da Global Franchise, empresa responsável por essa parte da operação.

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Entre os consumidores, há gente como a cantora MC Tati Zaqui. A Egosss era o sonho de consumo da garota antes da fama. Quando recebeu seu primeiro cachê por um show, em 2014, ela foi às compras. “Investi 239 reais em uma calça deles. Hoje tenho tudo”, conta. Tati ganhou passe livre no showroom— pode pegar o que quiser sem pagar um tostão. Em troca, faz as vezes de garota- propaganda da grife em fotos postadas no Instagram. O trunfo da marca é conseguir agradar de funkeiros a sertanejos, de dançarinas a jogadores de futebol, de rappers a cantores de axé.

MC Tati Zaqui
MC Tati Zaqui: fã das peças (Foto: Adriano Conter)

“O assessor do Gusttavo Lima vem comprar e a gente acaba dando algumas peças ou fazendo um desconto”, explica Santos, referindo-se ao cantor sertanejo.“Para artista, cada artigo sai por 40% ou 50% do preço.” Em agosto, ao saber que a Globo estrearia uma novela das 9 em que haveria um núcleo funkeiro, o empresário mandou itens de vestuário para o figurino de A Regra do Jogo. Funcionou: dois personagens da trama ostentaram a Egosss em horário nobre.

Moletom Egosss
Moletom "faraó": R$ 239,00 (Foto: Adriano Conter)

A última coleção da marca tem oautoexplicativo nome de Millionaire. No showroom, camisetas com motivos egípcios, bonés cravejados de pedras de strass — chamadas de “diamantes” — e calças com estampa de faraó dividem espaço com a decoração de sofás de couro sintético dourado, barras de ouro de brinquedo e notas cenográficas de dólares. “Para o nosso cliente, a roupa é um jeito de demonstrar riqueza”, teoriza Santos. “Ele pode não ter um carro de 300 000 reais, mas tem um boné de 300 reais”, completa. 

Camiseta Egosss
Camiseta xadrez: R$ 159,00 (Foto: Adriano Conter)

Fonte: VEJA SÃO PAULO