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Os segredos da Liberdade

Reunimos um pouco da história, os lugares mais curiosos e os restaurantes mais gostosos (e escondidos) do bairro oriental

Por: Leonam Bernardo e Livia Deodato - Atualizado em

Rua Galvão Bueno
O segundo sábado de dezembro é, sempre, o Dia do Bairro da Liberdade (Foto: Leonam Bernardo)

Percorremos a região da Liberdade — rica em cultura e tradições orientais — em busca de histórias, curiosidades, dicas de comida, bebida, além de fatos inusitados (e pouco conhecidos) sobre o bairro.

Para quem aprecia a gastronomia há, por exemplo, sugestões de onde encontrar lamen trazido direto do japão ou saquês supervaliosos. Os especialistas no bairro garantem: a Liberdade não é o lugar ideal de São Paulo para se provar sushis e sashimis. Seu forte são os pratos quentes, que são ainda mais comuns no Japão, na China ou na Coreia.

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Explore o roteiro:

Saquê para todos os gostos e bolsos

Saquês da Adega de Sake
Saques de R$ 741 (cada) da Adega de Sake: vencedores de competição no Japão (Foto: Leonam Bernardo)

A bebida fermentada japonesa pode ser encontrada com grande variedade — e quantidade — na região. Na Rua Galvão Bueno, a Adega de Sake comercializa 115 diferentes rótulos do produto. O mais caro deles, de R$ 741,00 (720 mililitros), tem apenas três unidades por aqui. Elas foram produzidas para o lote específico de uma competição nacional de saquês, realizada todos os anos no Japão — e na qual foi coroado com medalha de ouro. Outra opção, o Kazu Sake Emporium, na  Rua Tomás Gonzaga, vende 100 tipos de saquês, mais shochus (a cachaça japonesa) e uísques japoneses. Quem quiser experimentar um Hibiki 21 Anos desembolsa R$ 1.025,00 pela garrafa de 700 mililitros.

Assombrações na Capela dos Aflitos

Capela dos Aflitos
Capela dos Aflitos: assombros do antigo cemitério (Foto: Mario Rodrigues)

A pequena construção localiza ao final da Rua dos Aflitos faz parte do roteiro de lugares mal-assombrados da cidade. O motivo é que antigamente, na área onde ela foi construída, eram enterrados criminosos, escravos doentes e indigentes. O cemitério foi desativado em meados dos século XIX. A lenda urbana diz, no entanto, que muitos dos corpos continuam enterrados sob aquela região e que, por isso, vez ou outra, moradores e pessoas que trabalham por ali relatam vultos e barulhos estranhos.

Livraria nipônica

Livraria Fonomag
Publicações japonesas na Livraria Fonomag: 10.000 títulos ao todo (Foto: Leonam Bernardo)

Difícil conceber que um estabelecimento comercial em São Paulo seja capaz de existir há 35 anos vendendo apenas livros e revistas em japonês. Pois é exatamente isso que acontece com a Livraria Fonomag, garante o proprietário Joji Aso. “Temos um acervo de cerca de 10.000 publicações.” Segundo ele, demora por volta de três meses até que um material lançado no Japão chegue à sua loja, localizada no número 242 da Rua da Glória. Mas isso não deixa os produtos muito mais caros — obras de literatura custam, em média, R$ 30,00, enquanto os mangás valem em torno de R$ 25,00.

Para lutar kung fu (ou jogar xadrez japonês)

Na AGS é possível adquirir armas chinesas, japonesas, calçados, flâmulas e equipamentos para a prática de kung fu. Mesmo que você não pratique, vale a pena visitar a loja que oferece belas espadas e facões importados da China, além de carvões para fazer tinta e tabuleiros de xadrez chinês. Fica na Rua Galvão Bueno, 482.

Largo da Forca

Praça da Liberdade
Praça da Liberdade: o local da simpática feirinha já foi palco de enforcamentos públicos (Foto: Leonam Bernardo)

Claro que a simpática feirinha que ocorre aos fins de semana na Praça da Liberdade não é segredo para ninguém. Mas seu passado, talvez, não seja dos mais conhecidos. Se hoje a praça dá espaço para apresentações típicas, venda de artesanatos e quitutes da culinária oriental, até o início do século XIX o local sediava sessões públicas de enforcamento de criminosos. O local mudou de nome em 1858, dezoito anos antes da abolição da pena de morte no Brasil.

Botecos japoneses para um happy hour

Kintarô, Liberdade
Líria Higuchi cuida do Kintarô há 20 anos (Foto: Livia Deodato)

Izakaya, em japonês, seria o nosso boteco, lugar ideal para encontrar os amigos, tomar uns drinques e petiscar umas porções. Portanto, não espere um ambiente aconchegante, romântico ou familiar. Kabura, Kintarô e, o mais famoso deles, Izakaya Issa, se encaixam nessa definição, sem deixar a clientela desapontada com o serviço. O menorzinho deles, Kintarô, oferece porções de peixe marinado agridoce, bardana (raiz de broto de bambu com vinagrete) e tofu com acelga chinesa, entre outras delícias, preparados por Líria Higuchi, que há 20 anos cuida do estabelecimento, agora com o seu filho, Taka, lutador de sumô.

Comida para lutadores de sumô

Se você quer provar o alimento que sustenta um lutador de sumô, Bueno é o lugar. O chankonabe, uma espécie de cozido com bastante proteína, feito de carne, vegetais e legumes, é o prato principal da casa de Fernando Kuroda, ex-sumotori no Japão. A novidade é que o Bueno na forma original (R. Galvão Bueno, 458) vai encerrar suas atividades ali para reabrir em janeiro onde atualmente funciona o mini karaokê (com músicas apenas em inglês e japonês) do mesmo dono, na Rua Fagundes, 220.

Tenda da leitura da vida

Hiroji Ito, leitura da vida, Liberdade
O sr. Hiroji Ito lê mão, rosto e faz numerologia (Foto: Livia Deodato)

Hiroji Ito chegou de Fukoshima em 1982. Desde então exerce o seu poder de mago japonês: faz “leitura da vida” de quem sentar a sua frente. Isso significa que ele é capaz de fazer previsões a respeito da profissão e do coração (o real e o simbólico). Por R$ 20,00, o japonÊs, de 78 anos, lê o futuro nos números da data de nascimento, nas palmas das mãos e por meio do formato do rosto. “É mais fácil ler pela data que a pessoa nasceu, porque isso não muda”, diz ele. “As mãos e o rosto mudam com o tempo. Às vezes, tenho que ler rostos muito gordos, complica.” Pede-se que no dia da consulta, realizada na porta de uma galeria (R. Galvão Bueno, 358), o(a) interessado(a) se apresente sem esmalte nas unhas.

Lamen direto do Japão

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Chapa e massa do Lamen Kazu: importados do Japão (Foto: Leonam Bernardo)

O Lamen Kazu, na Rua Tomás Gonzaga, tem como protagonista do menu o macarrão tipicamente japonês — de fato, todas as massas vendidas ali são importadas da província de Chiba, no centro-leste do Japão. Também vêm de lá os caldos (chamados de “missô”), algas, temperos e condimentos; apenas carnes e legumes mais frescos são comprados aqui no Brasil. Repare na cozinha, que pode ser vista do salão: muitos dos utensílios e equipamentos (alguns deles poucos comuns no Brasil) também foram importados da terra do sol nascente.

Para pedir a proteção de Buda

Oratório Daibutsudo, Liberdade
O oratório mais caro da Daibutsudo, que custa R$ 6.200,00 (Foto: Livia Deodato)

Os mais belos oratórios para a prática do budismo se encontram na casa Daibutsudo do Brasil. Há desde os mais simples, de madeira lisa e sem adornos, por R$ 430,00, até os maiores e mais rebuscados, por R$ 6.200,00 (foto acima). A fábrica fica no fundo da loja e é conduzida por Toshikazu Yazawa, de 70 anos, há 30. A loja está na Rua Galvão Bueno, 331.

Fonte: VEJA SÃO PAULO