Crônica

Querida Leitora

Por: Mário Viana

VEJA SP cronica
(Foto: Attílio)

"Querido cronista.” O e-mail começava assim, com polido carinho. “Tenho gostado de suas colunas. Mas não é sempre que concordo com você. Imagino que isso deva ser comum. As pessoas sempre discordaram, e isso não precisava acabar em guerra. Espero que nossas discordâncias permaneçam na linha da crítica construtiva (mas reconheço que só acha a crítica construtiva quem faz o comentário). Desvio do que quero dizer, esse é o meu maior defeito. Nunca consigo manter o foco, começo um assunto e logo emendo em outro, e depois em outro. Quem primeiro notou isso foi minha professora de português, na escola. Eu não mantinha o tema da redação, por mais que me esforçasse. Agora, por exemplo, desviei de novo. Retorno ao assunto. Sobre os pontos em que discordo de seus textos.

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A primeira ressalva é ao estilo supostamente bem-humorado. Não sei quem elogiou seu humor. Seja quem for, mentiu. Você é azedo. Ou será amargo? Não. É azedo mesmo. Sempre lança farpas contra o senso comum, como se o certo, o bacana, o moderninho fosse ser diferente. Admito que existe um charme no exotismo. Até eu mesma me rendo a certas modinhas e confesso que me divirto. Como na vez em que todo mundo pôs tribo de índio no próprio nome nas redes sociais. Era protesto contra alguma matança de silvícolas em rincões inacessíveis até pro Waze, mas não sei se surtiu efeito. Depois de uns dois meses de codinome tupi-guarani, voltei ao normal.

Ou quase. Logo começou a onda de colorir a fotinho no avatar — é assim que chamam o rostinho da gente nessas redes, avatar. Acho fofo. Tinha a ver com agressões a gays. Foi o Tony, meu cabeleireiro, que me explicou. Não que ele tenha sido agredido; graças a Deus, nunca foi. Tony é muito educado, sabe se comportar, não fica se exibindo pelas ruas, não provoca. Achei a causa justa e aderi. Mas não consegui me entusiasmar com a causa da modelo que denunciou o marido por agressão. Na verdade, nem marido é, parece que é só namorado. E, vamos combinar, só deram trela porque a moça é famosa. Quantas anônimas a gente conhece que apanham quietinhas, não é mesmo?

Sou mulher, mas tenho consciência de quanto o sexo frágil anda agressivo. Nunca apanhei de marido nenhum. Quando a coisa saía do controle, eu me trancava no quarto e esperava a fera acalmar. Às vezes, demorava. Cheguei a ficar dois dias dentro de casa, sem comida nem telefone, nada. Mas foram só dois dias. Sorte que era suíte, tinha como ir ao banheiro. Ninguém percebeu nada. Para as amigas, contei que o celular tinha caído na privada.

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Poderia ter pedido ajuda ao porteiro do prédio, mas quem é que guarda o nome deles? São tão parecidos naquele uniforme. Sempre que vou à aula de ioga, faço questão de cumprimentar, mas sem dizer o nome, para não criar constrangimento. Vai que eu digo Severino e é Raimundo? O coitado não vai poder me corrigir, é muito feio apontar o erro de quem paga o seu salário.

Da mesma maneira, é muito deselegante o seu hábito de apontar o dedo para os leitores. Não acho de bom-tom ficar nos cutucando, como se só a classe média fosse um poço de contradições. Pobres, por acaso, não são? Veja o caso da mocinha que trabalha em casa, a Natália. Não, é Zenália. Espera, Zenália era a irmã. A daqui de casa é a Natália mesmo. É uma moça muito esforçada. Acorda de madrugada, fica três horas dentro do ônibus para vir até minha casa, limpa tudo direitinho, passa a roupa que é uma maravilha. Mas tem mania de fazer prestação. Perdi a conta das TVs que ela já comprou. Celular, vive trocando. Mas me pede sempre vale para a feira da semana. Por que você não aponta as contradições dela? Pense nisso, cronista querido. Atenciosamente, sua Leitora.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO