Comportamento

Grupo na capital assume estilo de vida dos chicanos da Califórnia

Conheça os paulistanos que trouxeram a cultura dos mexicanos-americanos ao Brasil

Por: Mayra Maldjian - Atualizado em

Dos punks da periferia aos depressivos emos, a capital já viu quase tudo em termos de grupos que tentam emular por aqui ondas de comportamento vindas do exterior. Faltava ainda copiar a exótica cultura dos descendentes de mexicanos que moram na Califórnia, nos Estados Unidos.

+ Confira as roupas, tatuagens, carros e outros símbolos da cultura chicana

Os cholos, como os chicanos que andam em gangues se tornaram conhecidos no território americano, cultivam bigode, têm o corpo coberto por tatuagens, rezam para a Virgem de Guadalupe, curtem rap latino e dedicam boa parte do seu tempo a atividades como reformar os Chevrolet Impala e outras velhas banheiras possantes.

Chicanos Virgem de Guadalupe
Alemão: culto a figuras como a Virgem de Guadalupe e o santo Jesús Malverde (Foto: Lucas Lima)

Grupos de paulistanos começaram nos últimos tempos a imitar esse estilo e despertam atenção nas ruas por onde passam. "Estava perto do centro de São Paulo quando vi uma turma dessas", conta a jornalista americana Phuong-CacNguyen. "Achei que fossem turistas de Los Angeles, mas eram brasileiros!" De tão surpresa com a história, ela resolveu fazer um minidocumentário sobre o o assunto. O filme, batizado de South American Cholo, deve estrear neste mês, em local e data ainda não definidos.

A cena chicano-paulistana tem vários pontos de encontro na capital, que vão de hamburguerias à Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, no Campo Belo. Existe até uma grife especializada de roupas, a Otra Vida, com coleções alinhadas ao estilo dos cholos. As peças que fazem mais sucesso são as camisetas com estampas temáticas.

O responsável pelo negócio, Antonio Carlos Batista Filho, de 47 anos, mais conhecido como Alemão, foi uma espécie de pioneiro do movimento na metrópole. Primeiro, identificou-se com o visual. Depois, assumiu a ideologia dos adeptos. “Quando eu soube que eles foram muito discriminados nos Estados Unidos, fiquei ainda mais interessado no tema e resolvi virar o porta-voz disso em São Paulo”, explica. Em sua casa no bairro da Mooca, as paredes são forradas com retratos de família e fotografias de carros e de bicicletas incrementadas. O quintal é território do boxer Zapata, batizado dessa forma em homenagem ao líder revolucionário mexicano.

Alemão Chicanos
O pioneiro Alemão: grife de roupas no bairro da Mooca (Foto: Lucas Lima)

Apesar da admiração por figuras como essa, os chicanos daqui juram ser pacíficos. Mas isso não os impede de olhar com cara feia os curiosos que tentam se enturmar sem fazer a devida conversão. Não é qualquer um, por exemplo, que se aproxima do Vida Real, clube de aficionados de automóveis que se reúnem na Mooca. É possível encontrar no local gente como Mario Pinheiro de Andrade Junior, o Marinho, de 46 anos, baixista do grupo de rap Pavilhão 9 e proprietário de um Chevy 1948.

O fundador do clube é José Américo Crippa, de 41 anos, o Tatá, proprietário da lanchonete Cadillac Burger, também na Mooca. Ele está entre os principais propagadores de uma das maiores expressões da cultura dos cholos: o lowrider (carro rebaixado, numa tradução livre). Veículos antigos são completamente reformados, com pinturas coloridas no capô e a instalação de um sistema de suspensão hidráulica, que faz o veículo chacoalhar ao comando do motorista.

Na versão para bicicletas, o negócio inclui a instalação de um guidão ao estilo chopper. Tatá figura no time de especialistas no assunto, com vários trabalhos preparados sob encomenda para clientes como o rapper Mano Brown, que montou um Impala ao estilo chicano. “Não adianta vir cheio de dinheiro, pois não aceito qualquer freguês”, avisa Tatá. “A gente avalia a conduta da pessoa para saber se ela tem a ver com o movimento.” Outro que põe a mão na graxa é Sergio Yoshinaga, de 44 anos, dono de uma oficina em Santo Amaro. Ele cobra entre 20.000 e 150.000 reais pela transformação. “No último ano, montei cinco”, conta.

Marinho Pavilhão 9 chicano
O baixista Marinho: proprietário de um Chevy 1948 (Foto: Lucas Lima)

CIRCUITO CHICANO

Pontos de encontro do grupo na metrópole

Cadillac Burger

A hamburgueria inaugurada em julho do ano passado reúne integrantes do grupo, que estacionam sua máquina no lava-rápido anexo. Uma vez por mês, há também uma noite mexicana na casa.

Rua Juventus, 296, Mooca, tel.: 2273-8074.

Viva La Raza

Festa de rap latino criada por Luiz Gordo e Pendejo nos anos 90, ocorre esporadicamente na Livraria da Esquina.

Rua do Bosque,1254, Barra Funda, tel.: 3392-3089.

Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe

Não se espante se encontrar um chicano paulistano ajoelhado na igreja, pedindo a bênção da Virgem Morena.

Rua República do Iraque, 1839,Campo Belo, tel.: 5041-9829.

Fonte: VEJA SÃO PAULO