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Construído sobre um lixão, Shopping Center Norte vira área de risco

Técnicos da Cetesb encontraram grande quantidade de metano no subsolo. Elemento pode se tornar inflamável em contato com oxigênio

Por: Claudia Jordão e Daniel Bergamasco

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Vistoria da Cetesb na terça (20): técnicos cobram ações imediatas para que o quadro não se torne grave (Foto: Moacyr Lopes Junior)

Frequentado diariamente por 80.000 pessoas, multidão que chega a 120.000 aos sábados e domingos, o Shopping Center Norte, na Vila Guilherme, estava um pouco mais silencioso na tarde da última quarta (21). Os cinemas, que exibem campeões de bilheteria como “Conan, o Bárbaro”, não lotaram, ao contrário do que costuma acontecer nesse dia de cobrança de meia-entrada. Na praça de alimentação, não havia a tradicional disputa pelas mesas na hora do almoço. Em uma loja de roupas infantis, a vendedora lamentava: só atendera dois clientes até as 14 horas, horário em que o mais comum seria ter recebido, no mínimo, dez. “A única movimentação que aumentou aqui foi a de bombeiros”, observava outra funcionária.

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Esse clima registrado no centro de compras, um dos maiores do Brasil, está ligado a um problema detectado no local pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb). Em vistorias realizadas por ali nos últimos dias, os técnicos da empresa encontraram uma grande concentração de gás metano no subsolo, elemento que pode se tornar inflamável quando em contato com o oxigênio. Desde que o fato veio a público, um clima de desconfiança paira sobre os 300.000 metros quadrados do complexo, que inclui também o Lar Center e o Expo Center Norte, num total de 467 lojas. Os prédios estão em terreno que funcionava como depósito de lixo. O fato, por si só, não é grave, desde que os responsáveis pelos empreendimentos monitorem a substância produzida pela decomposição da matéria orgânica e arranjem meios de dar vazão a ela.

Segundo a fiscalização, isso não está sendo feito adequadamente e há pontos nos quais o vapor consegue passar para a superfície. Até agora, a constatação das condições químicas de combustão aconteceu apenas onde a área era menos sensível, pois não haveria pressão para o surgimento de fogo. Avalia-se, porém, que é preciso atuar de imediato: afinal, se o metano chegou a esses lugares, também poderia alcançar saletas fechadas que ficam perto de instalações elétricas.

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Os corredores amplos: frequentadores afugentados (Foto: Luiz CarLos Murauskas)

A Cetesb cobra medidas desde 2004 e considerou ineficazes todas as soluções oferecidas pelo complexo. Nos meses de maio e agosto, lançou multas que somaram cerca de 26.000 reais e, desde sexta (16), ampliou as penalidades para 17.450 reais por dia até que considere a situação controlada. Na esfera municipal, o prefeito Gilberto Kassab afirmou na semana passada que estava disposto a lacrar o shopping caso medidas urgentes de contenção não fossem adotadas. Até quinta-feira nenhuma decisão havia sido tomada.

O superintendente do shopping, Ricardo Afonso, afirma que, a partir do primeiro alerta da Cetesb, contratou especialistas para avaliar o subterrâneo. “Nada de grave nos foi relatado”, diz. Os profissionais recomendaram, no entanto, uma investigação mais aprofundada, incluindo análises do interior das lojas. O trabalho, realizado entre 2009 e 2010, identificou áreas problemáticas, que exigiam a instalação de dutos para a dispersão do gás. A primeira parte das obras ficou pronta há apenas um mês e meio, com a instalação de um dreno. No momento, encontra-se em curso a segunda fase, que prevê a construção de outros oito do mesmo tipo até a primeira semana de novembro.

Mas por que a demora entre a descoberta do problema e a ação para resolvê-lo? “Não ficamos de braços cruzados, mas os estudos são complexos e levam tempo”, declara Afonso. “Nos últimos tempos, fizemos um monitoramento diário da questão.” Os técnicos da Cetesb enxergam esse histórico de forma bem diferente. “Já que o shopping não agiu adequadamente por conta própria, resolvemos pressionar para evitar um acidente”, afirma Geraldo Amaral, diretor de controle e licenciamento ambiental da companhia.

O Center Norte nasceu em 1984 por iniciativa do engenheiro Otto Baumgart e é administrado até hoje pela mesma família. A área da construção teve seu solo aterrado com terra vinda de obras do metrô e com os restos do Edifício Mendes Caldeira, o primeiro a ser implodido na cidade, em 1975. O prédio térreo, os corredores amplos e o estacionamento, com 12.000 vagas, além de um bom mix de lojas e serviços, transformaram-no num sucesso imediato. Com o tempo, porém, ele deu mostras de estagnação. Sua última grande obra de modernização ocorreu em 2004, com a chegada da rede de cinemas Cinemark.

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Preparativos para a inauguração, em 1984: sucesso de público desde o início do empreendimento, erguido sobre um lixão (Foto: Cícero O. Neto/Folhapress)

Para o presidente do Instituto Ibero-Brasileiro de Relacionamento com o Cliente, Alexandre Diogo, essa renovação não bastou para revigorar comercialmente o shopping. “O espaço envelheceu mal”, conclui, citando uma recente pesquisa realizada pela instituição que avaliou trinta centros de compras na metrópole. O Center Norte recebeu a classificação de “insatisfatório”. Apesar das ressalvas, ainda há um público grande, fiel e satisfeito que não o trocou por nenhum outro concorrente. Mesmo informado da polêmica, o frequentador Wilson Pedro, de 42 anos, não deixou de almoçar ali. “Prefiro pensar que, se acharem que é grave, algo será feito”, diz. “Conto com a responsabilidade das pessoas envolvidas.”

A INCERTEZA QUE VEM DE BAIXO

Como o complexo se transformou em área problemática

- Inaugurado em 1984, o prédio foi construído sobre um aterro sanitário. A decomposição da matéria orgânica, que chega a 10 metros de profundidade, produz poças de gás

- Com o passar dos anos, essas bolhas se expandem e podem atravessar o piso por meio das fissuras ou tubulações

- O material se torna perigoso em determinadas concentrações

 

FAIXA INFLAMÁVEL

Porcentual de metano que pode explodir em determinadas condições de pressão. Na segunda (19), em dezesseis dos 51 pontos de medição foram detectados porcentuais entre 5% e 15%

 
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(Foto: Veja São Paulo)

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO