Teatro

Comédia faz sucesso relembrando o declínio das radionovelas

Em cartaz no Grande Auditório do Masp, Caros Ouvintes é escrita e dirigida por Otávio Martins

Por: Dirceu Alves Jr.

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O elenco de Caros Ouvintes: decadência em clima de chanchada (Foto: Priscila Prade)

Houve um tempo em que o importante era a voz. A aparência física nada contava, assim como a postura e os gestos empregados nas interpretações. Entre as décadas de 40 e 60, o Brasil conheceu o apogeu das novelas de rádio. As histórias tratavam de amores impossíveis, levavam o público às lágrimas e o estimulavam a idealizar a imagem dos galãs e das mocinhas. Figura fundamental, o sonoplasta era encarregado de reproduzir os efeitos sonoros, como vento, chuva ou tiros, utilizando papel celofane, folhas de alumínio ou um molho de chaves. Transmitidos ao vivo e sem plateia, os capítulos duravam cerca de 25 minutos. Cada folhetim permanecia no ar por quatro meses.

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O sucesso da peça Caros Ouvintes, escrita e dirigida por Otávio Martins, remete a esse período. Em cartaz no Grande Auditório do Masp, a comédia foi vista por mais de 8 000 espectadores em um mês e meio. O espetáculo explora os bastidores de uma emissora especializada em radionovelas no fim da década de 60. Por lá, o produtor (papel de Petrônio Gontijo) mantém um caso com a atriz principal (Natallia Rodrigues) e tenta driblar as orientações do departamento publicitário. Enquanto isso, o galã da emissora (Eduardo Semerjian) e a cantora que faz os números ao vivo (Amanda Acosta), já veteranos, encaram a falta de perspectiva com o provável fechamento da empresa. Tirando o clima de chanchada, o texto retrata bem o período dos últimos suspiros dos folhetins. “A derrocada se deu pela falta de patrocinadores, que migraram para a televisão depois de 1964, e também pelo interesse crescente do povo em torno do novo produto”, afirma Martins.

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A Rádio Nacional do Rio em 1957: a pioneira do gênero no país (Foto: Jean Solari)

A Rádio Nacional do Rio lançou o produto em 1941. Aqui na cidade, monopolizaram a audiência com o novo gênero a Tupi, a Record, a Bandeirantes e a extinta São Paulo. Esta última, localizada na Avenida Angélica, chegou a ter mais de uma centena de funcionários e transmitia suas histórias entre as 8h30 e as 22 horas. “Os empresários paulistas do ramo farmacêutico, de tecidos e do próprio comércio ajudavam a bancar o negócio”, conta o pesquisador Roberto Salvador, autor do livro A Era do Radioteatro.

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Um dos nomes mais populares da época, Arlete Montenegro, de 76 anos, estreou como radioatriz em 1954 com a trama Silêncio, escrita por Waldir de Oliveira. Permaneceu no gênero por nove anos, migrou para as produções da TV Excelsior e da Tupi e vive da voz até hoje, como dubladora de seriados, desenhos animados e filmes. “Em O Diabo Veste Prada, por exemplo, eu faço a voz da Meryl Streep”, conta, entusiasmada. Aos 90 anos, a também paulistana Gessy Fonseca tem muito orgulho de ainda se manter em plena atividade. Em 1943, ela foi escolhida pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948) para ser a Dona Benta na radionovela O Sítio do Picapau Amarelo e, atualmente, dubla a mesma personagem na série de animação produzida pela Rede Globo. Gessy, no entanto, foi praticamente ignorada pelas telenovelas. “Eu nunca corri atrás também”, reconhece. “Com o meu currículo, achava o cúmulo ter de começar do zero em outro veículo.”

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Elaine Cristina: sucesso também na TV (Foto: Lourival Ribeiro / SBT)

Outra estrela daquele período, Elaine Cristina, de 64 anos, entrou pela primeira vez em um estúdio ainda criança. Seu nome verdadeiro, Júlia Sanchez, foi trocado por ser considerado muito forte para uma garota de 10 anos. Elaine virou moça e seu rosto delicado, aliado à desenvoltura e ao interesse pelas técnicas teatrais, chamou a atenção de autores e produtores. “Ciro Bassini e Manoel Carlos iam ao estúdio para assistir às radionovelas e perceberam que eu não me limitava a ler o texto, mas gesticulava, contracenava com os colegas e tinha um tipo físico adequado ao vídeo”, lembra ela. Os dois a convidaram para estrear nas promissoras novelas da TV Excelsior em 1965. “Eu sabia que estava na hora de ir embora e pedi demissão do rádio”, completa Elaine, que, na década de 70, foi uma das estrelas da TV Tupi, fez novelas globais como Sinhá Moça (1986) e O Outro (1987) e, hoje, grava Chiquititas, exibida pelo SBT. 

Capítulos da história

› Em Busca da Felicidade inaugurou a radionovela no Brasil, em 1941

› As rádios São Paulo, Tupi, Record e Bandeirantes eram as principais produtoras do gênero na capital

› Lançado em 1951, o folhetim O Direito de Nascer foi o que teve maior sucesso, com quase três anos no ar na Rádio Nacional do Rio e na Tupi, em São Paulo

› Entre os principais patrocinadores estavam a General Electric,o Leite de Magnésia Phillips, o Melhoral e a Colgate-Palmolive.

Fonte: VEJA SÃO PAULO