Trânsito

Caronetas ganha prêmio de mobilidade urbana

Entre os projetos desbancados pelo portal brasileiro estão um skate elétrico desenvolvido por um americano e uma carroça movida a bateria, da Holanda

Por: Claudia Jordão

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Desireé e Tatiana: com o Caronetas, as duas passaram a voltar juntas do trabalho (Foto: Fernando Moraes)

Uma saída simples para um problema complexo. Foi assim que um site brasileiro de incentivo à carona conquistou um prêmio internacional de soluções para o trânsito. No início do mês, o portal Caronetas ganhou o MobiPrize na categoria escolha do público, recebeu 5.000 dólares e teve sua marca divulgada internacionalmente. Organizado pela Universidade de Michigan e pela Fundação Rockefeller, dos Estados Unidos, o concurso reuniu participantes de diversas partes do mundo. Para concorrer, a ideia deveria ser inovadora e replicável, além de preencher outros critérios. Entre os projetos desbancados pelo portal brasileiro estão um skate elétrico desenvolvido por um americano e um riquixá (tipo de carroça com tração humana ou motorizada, comum em países asiáticos) movido a bateria, da Holanda.

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Criado em 2011 pelo engenheiro Marcio Nigro, o Caronetas é gratuito e destinado a empresas. Funciona assim: a firma se cadastra, recebe um link e inscreve os funcionários. A partir daí, os interessados divulgam seus trajetos diários, para oferecer ou pegar carona. Na visão de ecologistas e urbanistas, o compartilhamento de veículos, além de trazer benefícios ao meio ambiente e ao tráfego, proporciona vantagens ao motorista, ao passageiro e ao empreendimento que abraça a causa. Ou seja, o condutor pode dividir os custos, o viajante ganha tempo e a empresa supre uma deficiência cada vez mais comum: a falta de vagas em suas garagens e nos estacionamentos particulares do entorno para abrigar os carros de seus funcionários. “A prática é benéfica para todos”, diz Nigro, que nutre o sonho para lá de otimista de tirar metade dos automóveis das ruas da capital nos próximos anos. Hoje a frota circulante de veículos em São Paulo é estimada em 3,8 milhões. Boa parte dos carros roda apenas com uma pessoa (a taxa de ocupação é de 1,4 pessoa por veículo, segundo a CET). O portal reúne 1.100 estabelecimentos e tem 265.000 usuários cadastrados — quase todos da cidade. Detalhe: 100 companhias se juntaram à causa na semana seguinte à divulgação do prêmio.

Instalada no centro, a empresa de tecnologia da informação Alog fechou parceria com o Caronetas em dezembro e fez uma ação promocional interna. As colegas Tatiana Botta, de 37 anos, e Desireé Meneguim, 29, se encontravam no trabalho, mas só descobriram que eram vizinhas na Vila Prudente, Zona Leste, após se cadastrarem no portal. Há quatro meses, começaram a voltar juntas para casa. O trajeto dura cerca de vinte minutos e Tatiana deixa Desireé a duas quadras de sua residência. Engajada, Tatiana resolveu abrir a porta de seu carro em nome de um trânsito melhor e um ar mais limpo. “Eu me sentia mal por dirigir um veículo grande (Chevrolet Cruze) e ficar sozinha lá dentro”, conta.

O reconhecimento no exterior joga luz sobre outras iniciativas semelhantes em operação na cidade. Inspirados em ferramentas de sucesso em diversos países, como o francês Covoiturage e o americano Zimride, sites como esses passaram a ser desenvolvidos por aqui há cinco anos. Os pioneiros foram o UniCaronas e o Caroneiros, ambos lançados em 2007 por alunos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O primeiro é voltado para universitários que buscam uma vaga em carros de colegas para ir e voltar da faculdade. O segundo nasceu aberto à população e alguns anos depois também passou a fechar parcerias com instituições

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Mario Sebok: CEO de um dos primeiros sites pró-carona desenvolvidos no país (Foto: Fernando Moraes)

Para crescerem e se consolidarem, o maior desafio desses sites é transmitir segurança aos usuários. Afinal, ninguém quer dividir a viagem com desconhecidos. A melhor opção encontrada até agora é exatamente a parceria com empresas. “Ao acessar o site, o interessado usa o seu e-mail corporativo e sente-se mais confortável ao saber de onde a outra pessoa vem e o que ela faz”, explica Nigro. Apesar disso, o cuidado não representa uma garantia total. Outra barreira a ser rompida é a do preconceito. “Diferentemente do estrangeiro, o brasileiro acha que andar de carona é coisa de pobre”, afirma Mario Sebok, CEO do Caroneiros. Enquanto isso, os negócios procuram soluções para se tornar sustentáveis. Até hoje nenhum deles dá lucro. Mais uma vez, o Caronetas quer largar na frente. Seus responsáveis estudam implementar uma moeda virtual: o passageiro pagaria pela viagem por meio do site e o motorista receberia créditos para gastar em lojas cadastradas. Dessa forma, o site lucraria ao direcionar seus usuários aos estabelecimentos comerciais. Certamente, o prêmio servirá de carona para que o Caronetas chegue lá.

SINAL VERDE

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Caronetas

No ar desde 2011, é voltado apenas para quem trabalha em empresas parceiras. Ao se cadastrar, a firma recebe um link para inscrever seus funcionários, que divulgam os trajetos com o objetivo de oferecer ou pegar carona. Reúne 1.100 companhias e tem 265.000 usuários cadastrados — cerca de 85% deles são da cidade de São Paulo.

Caroneiros

Aberto a todos, disponibiliza uma lista de trajetos onde há vagas em veículos. A partir daí, por meio de uma rede social, o interessado entra em contato com o motorista para acertar os detalhes. Motorista e passageiro têm acesso ao perfil de seus parceiros de viagem. Fundado em 2007, conta com 16.000 usuários e dez empresas cadastradas.

UniCaronas

Lançado há cinco anos, foi criado por dois alunos do curso de engenharia da computação da Unicamp. Em 2009, deixou de ser exclusivo dessa faculdade para contemplar outras instituições de ensino. Atende estudantes de 53 universidades no estado, entre elas USP e Mackenzie na capital. Soma cerca de 12.000 usuários ativos.

Carona Solidária

Tem cerca de 3.500 usuários da Grande São Paulo e do interior. Entre as pessoas que recorrem ao site, há quem busque companhia ou vaga para viajar da capital para outras cidades ou realizar viagens urbanas. Nascido em Marília (a 438 quilômetros de São Paulo) em 2010, também é utilizado por quinze empresas.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO