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Artistas fazem campanha para que o público largue o celular

Se Preferir, Eu Desligo para Você conta com o apoio de vários nomes da cena teatral

Por: Carol Pascoal e Dirceu Alves Jr.

Sandy
Sandy no HSBC: 35 arquivos do show no Instagram (Foto: MARIO RODRIGUES)

Com quinze minutos de atraso, após os avisos de segurança e uma ordem para manter os celulares desligados, Sandy subiu ao palco do HSBC Brasil, na Chácara Santo Antônio, em 23 de novembro. Enquanto a cantora interpretava a primeira música do repertório, Aquela dos 30, boa parte do público empunhava aparelhos - smartphones e até iPads - na tentativa de registrar a performance.

Em menos de trinta minutos, quinze arquivos (entre fotos e vídeos) haviam sido postados na rede social Instagram. Ao término do show, esse número chegaria a 35. Cena corriqueira em espetáculos paulistanos, o uso de celulares para gravar, fotografar e mandar mensagens atrapalha o andamento das exibições e desrespeita quem quer curtir a ocasião.

Já existem estudos que apontam uma nova patologia relacionada ao hábito: anomofobia. "Trata-se da dependência que o indivíduo desenvolve de ter o celular disponível a qualquer momento", explica Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Entende-se que essa obsessão pode estar relacionada à baixa auto-estima. O indivíduo busca reconhecimento social por meio dos lugares que frequenta e das pessoas com quem anda", completa.

"Acho triste o fã assistir a minha apresentação mais pela tela do que ao vivo", diz Sandy. "Também sou público, porém é preciso um limite. Quando fui ao show do John Mayer, fiz umas três fotos e parei. A prioridade era ver o meu ídolo", conta. Sandy seguiu até o fim de seu espetáculo sem se mostrar incomodada. Mas estão mais frequentesas reclamações de quem está em cima do palco.

Há dois meses, o cantor e compositor Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, lançou o primeiro disco solo no Sesc Pompeia. Antes mesmo da primeira canção, ele questionou: "Vão filmar ou vão ver?" Durante a passagem pelo Cine Joia, em 21 de novembro, Solange Knowles, irmã de Beyoncé, pediu com delicadeza à plateia que abaixasse os celulares e dançasse um pouquinho.

A reação de Joyce Moreno durante apresentação no Sesc Bom Retiro, em 27 de outubro, foi mais extrema. Depois de solicitar quatro vezes para que tirassem fotos sem flash, ela ameaçou sair do palco. "A luz vinha direto nos meus olhos e eu não conseguia me concentrar. Nunca vi manifestações como essas no exterior", afirma a cantora, que cumpre agendas regulares nos Estados Unidos e no Japão. "Uma vez, no Rio de Janeiro, uma pessoa virou de costas para o palco e ficou se filmando com o tablet enquanto eu cantava. Servi de cenário", recorda.

No teatro, os aparelhos eletrônicos são velhos inimigos dos artistas e também de muitos espectadores. Em cartaz no Tuca, nas Perdizes, com a comédia Tribos, o ator Bruno Fagundes afirma que é comum ver mais de dez telefones ligados depois da sessão iniciada. "Pior é quando o celular toca e a pessoa sai da poltrona para atender no hall, em um percurso que dura uns vinte segundos e desconcentra a todos”, diz o ator.

“O público tem a informação de que o celular não é bem-vindo, então, trata-se de uma simples questão de educação.” Protagonista de A Casa de Bernarda Alba, a atriz Walderez de Barros tenta ser tolerante durante o espetáculo, mas não se esquiva de se manifestar no final. Para ela, a troca de torpedos é um grande incômodo. “O público tem o direito de não gostar e, inclusive, de vaiar a peça, mas jamais pode esquecer que está diante de um ser humano. O ator não é uma imagem projetada em uma tela, e percebe quando está sendo vítima de descaso”, reclama Walderez.

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Campanha promovida pela revista digital Antro Positivo: os atores Bruno e Antonio Fagundes (Foto: João Caldas)

De olho nessa insatisfação, a revista digital trimestral Antro Positivo, coordenada pelo dramaturgo e diretor Ruy Filho e pela designer Patrícia Cividanes, lançou a campanha Se Preferir, Eu Desligo para Você, com o apoio de vários nomes da cena teatral. “O sujeito não percebe que, quando pega o celular em uma sala escura, o foco de luz vai diretamentepara ele”, afirma Filho.

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Campanha promovida pela revista digital Antro Positivo: a atriz Maria Luisa Mendonça (Foto: João Caldas)

Um dos participantes, o ator Marcelo Médici diz que esse é um problema difícil de administrar.“O público se mostra mais inibido quando assiste a um solo, e o ator dá o texto olhando diretamente para ele”, comenta Médici. “Eu notei uma grande diferença entre as apresentações do meu monólogo Cada um com Seus Pobrema e da comédia Eu Era Tudo pra Ela e Ela Me Deixou. Na segunda, em que dividia o palco com o ator Ricardo Rathsam, precisei chamar a atenção da plateia de forma bem-humorada algumas vezes.”

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Campanha promovida pela revista digital Antro Positivo: Comediante Marcelo Médici (Foto: João Caldas)

Uma solução, segundo ele, poderia ser a instalação de um dispositivo que derrubasse o sinal dos aparelhos assim que a pessoa entrasse na sala do teatro, como existe em alguns estúdios de televisão. Menos radical, o diretor Felipe Hirsch prefere acreditar na vitória do bom-senso. Para ele, pode até ser interessante para a divulgação do espetáculo que o espectador poste uma imagem em sua rede social. “Só é preciso perceber o momento e a forma certa de fazer isso, para não comprometer a sessão. O problema é que essa febre tecnológica se tornou um vício e as pessoas perdem a noção”, completa Hirsch.

Fonte: VEJA SÃO PAULO