Saúde

Em busca da lancheira perfeita

Como ser criativo na hora de preparar o lanche para as crianças? Vale servir refrigerante light? É possível substituir o pão com peito de peru? Levamos as principais dúvidas dos pais a nutricionistas e pediatras

Por: Carolina Romanini - Atualizado em

Alimentação Infantil - Colégio Renovação
Mães e filhos do Colégio Renovação: da esquerda para direita, Iracema Memon, mãe e professora de Artes, Ana Lúcia Silva, Aline Lasso, Débora Okabe e Carolina Mathez (Foto: Carolina Romanini)

Segundo dados do programa Meu Pratinho Saudável, parceria entre o InCor e a editora LatinMed, 45% das crianças paulistanas sofrem com sobrepeso e 26% delas são obesas. A cidade está acima da média nacional, que é de 30% das crianças com sobrepeso e 14% com obesidade. Os especialistas mostram que, entre outros motivos, a presença dos pais nas refeições e o seu rigor na hora de fazer o prato é fundamental para uma alimentação adequada.

Durante o ano letivo, isso significa acordar cedo para preparar o lanche das crianças antes delas saírem para a escola. Essa é a realidade das mães na fotografia acima, todas têm filhos com idades entre 1 ano e 8 meses e 12 anos, matriculados no Colégio Renovação, na Zona Sul.

Preocupadas com o cardápio dos pequenos, elas mantêm contato próximo com a escola a fim de saber o que é melhor colocar na lancheira e o que devem servir nas refeições em casa. Apesar de já terem o repertório de preferências das crianças de cor e salteado, elas querem ir além do pão com peito de peru e suco de caixinha, para incentivá-las, desde já, a manter uma alimentação saudável e equilibrada.

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A consultora de vendas Débora Okabe, mãe de Henrique e Felipe, de 6 e 3 anos, diz que os meninos comem bem, mas ela sente dificuldade em variar o lanche. Uma preocupação similar à da jornalista Caroline Mathez, mãe de Annie e Luisa, de 12 e 4 anos, que gostaria de ter mais ideias na hora de elaborar o menu das filhas.

“A criatividade para apresentar novos sabores às crianças é fundamental”, diz a pediatra Lucília Santana Faria, Coordenadora da UTI Pediátrica do Hospital Sírio Libanês. A sugestão para os que não sabem como inovar na lancheira é fazer um cardápio com as preferências das crianças, avaliar o que é mais saudável e, dentro dessa lista, escolher sempre um alimento de cada grupo para o dia: um carboidrato, uma proteína e uma fonte de vitamina e sais minerais (veja a tabela completa no infográfico A Lancheira Ideal).

Alimentação Infantil - Alimentos Saudáveis - Lancheira 2 (Thinkstock)
O lanche ideal deve conter uma fonte de energia (pão), uma proteína (recheio de queijo, peito de peru e outros) e um alimento rico com vitaminas e sais minerais (caso das frutas e sucos) (Foto: Thinkstock)

Os profissionais lembram que é importante também insistir em alimentos que os filhotes costumam rejeitar. Leonardo, de 6 anos, filho da fotógrafa Aline Lasso, não se atrai pelo sabor e conceito da carne. "Uma vez ele disse que não iria comer porque aprendeu que é preciso matar a vaquinha para obter o alimento", ela conta. Preocupada, Aline cozinhou a proteína na panela com o feijão. "Ele ficou meses sem comer feijão, pois notou o gosto diferente", diz a mãe.

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Não desistir é uma das recomendações dos especialistas. "Não deu certo uma vez, espere um tempo até apresentar novamente o alimento para a criança", sugere a nutricionista Patrícia Modesto, do Hospital Albert Einstein. Desta vez, sirva de outra maneira: no formato de bolinho, quibe de bandeja, torta. "O ideal é fugir das frituras, mas se não houver outra saída para convencer a criança a comer, vale arriscar vez ou outra", afirma Lucília. "Neste caso, dê preferência à fritura em azeite virgem ou óleo de canola", acrescenta. O mesmo vale para outros alimentos geralmente rejeitados pelo paladar infantil, a exemplo dos vegetais escuros como mostarda, espinafre e escarola, ricos em ferro e outras vitaminas de extrema importância para a saúde das crianças.

Uma preocupação recente e comum a todas as mães faz menção aos sucos de caixinha, bebidas à base de leite de soja e versões light de alguns produtos, a exemplo do requeijão e do refrigerante. “Quando for servir refrigerante para meu filho, devo servir o light ou o normal? Será que já devo acostumá-lo com os produtos menos calóricos?”, questiona a economista Ana Lúcia Silva, mãe de Marcelo, 6 anos.

Isento de qualquer nutriente fundamental, o refrigerante, qualquer que seja, deve ser administrado em pequenas quantidades e apenas em momentos de lazer - e que não passem de uma vez por semana. A preferência é dada à versão normal, já que a light contém ainda mais sódio, além do aspartame. "A bebida light deve ser usada somente por crianças com restrição alimentar, como as portadoras de diabetes", diz a nutricionista Vivian Ragasso, do Instituto Cohen de Ortopedia, Reabilitação e Medicina do Esporte, que trata de atletas infantis.

Com relação aos sucos, questões importantes foram ressaltadas pelos especialistas. Os de caixinha são ricos em sódio e corantes sintéticos que, além de causarem alergia em crianças menores 2 anos, estão associados a algumas doenças na vida adulta. Isso, entretanto, não torna os sucos de caixinha vilões, mas é preciso checar a tabela nutricional para escolher a melhor opção. “Procure sempre pelos com menor quantidade de sódio e livres de corante”, diz a nutricionista Patrícia Modesto. Detalhe importante: os sucos de uva, um dos preferidos das crianças, carregam muito corante sintético e, portanto, devem ser evitados. Já as opções de maçã costumam ser mais naturais.

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Mais proibitivo é, surpreendentemente, o suco de soja. Segundo os médicos, ele não possui valor nutricional maior do que o suco comum, além de ter ainda mais sódio e a soja ser rica em isoflavona, um hormônio feminino. “O hormônio, na quantidade presente no suco, não chega a ser preocupante, mas se der para evitá-lo, melhor”, setencia Patrícia, que recomenda esse tipo de bebida somente para as crianças com alguma restrição alimentar, como a intolerância à lactose.

Alimentação Infantil - Alimentos Saudáveis - Suco de Caixinha
Sucos de caixinha: não chegam ser vilões, mas é preciso ficar atento aos valores nutricionais (Foto: Thinkstock)

Ao contrário do que se pode imaginar, frituras e salgadinhos não são mais uma preocupação na vida dessas mães. Todas elas já conseguiram extirpar esse mal da rotina dos filhos – algumas nem chegaram a introduzir alimentos do tipo no cardápio das crianças. A escola, nesse quesito, ajudou. Desde o ano passado, a venda de alimentos fritos foi proibida na cantina. Todos os salgados, incluindo coxinhas e rissoles, agora são servidos assados.

Os nutricionistas aplaudem a atitude. “Quanto mais tarde eles forem apresentados às crianças, melhor”, atesta Patrícia. Nessa lista, entram itens como a salsicha e o macarrão instantâneo, adorados pelos pequenos, porém repulsivos sob o olhar clínico. “O problema do macarrão instantâneo é o condimento que vem no pacotinho”, diz Vivian Ragasso.

Rico em sódio, esse pozinho aparentemente inofensivel pode, a longo prazo, levar a doenças sérias na vida adulta, como a hipertensão. “Se você acostumar uma criança a uma dieta pobre em sal, ela vai não vai aceitar quantidades abusivas dessa substância no futuro e, portanto, reduzirá consideravelmente o risco de tais doenças”, afirma Vivian.

Educar os filhos em relação aos alimento é uma questão importante. Já que elas imitam o comportamento dos pais e outros adultos, é fundamental o papel da família e da escola nessa função. "Se os pais comem bem, a criança vai comer bem", acredita a pedagoga Sueli Conte, diretora do Colégio Renovação.

Em resumo, a regra é simples e até antiga: evitar dieta rica em sódio, corantes sintéticos e outros nutrientes nocivos, como o aspartame, e investir em alimentos de baixa caloria e alto valor nutritivo, como frutas, legumes, fontes de fibra e proteína magra. Para segui-la, entretanto, muitas vezes é necessário mudar os hábitos de toda a família. "Pense da seguinte maneira: é melhor educar a criança agora do que reeducá-la no futuro", diz a pediatra Lucília Faria. Para os pais já "mal-educados", infelizmente, não há outra alternativa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO