PAULISTANO NOTA 10

Agente penitenciário dá aulas de teatro para presos

Desde 2010, Igor Rocha ensina a arte dramática para encarcerados de uma unidade de segurança máxima

Por: Aretha Yarak

O carcereiro Igor Rocha: técnica de Augusto Boal para trabalhar com presos
(Foto: Mário Rodrigues)

Em 2010, o carcereiro Igor Rocha, de 56 anos, iniciou um projeto inusitado na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos. Junto de trinta homens que cumpriam pena por assalto a banco, assassinato e tráfico, ele se fechou em uma sala de aula. “Aqui dentro somos todos iguais”, anunciou.

Começava ali o grupo de teatro Do Lado de Cá, formado exclusivamente por presidiários da cadeia de segurança máxima. A ideia era esmiuçar conflitos que acontecem dentro e fora das grades. “Uso a arte para trabalhar questões que envolvem a humanização”, conta.

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O projeto tem como base a metodologia desenvolvida pelo dramaturgo Augusto Boal (1931-2009), integrante do célebre Teatro de Arena, uma das mais importantes companhias brasileiras na década de 60. Se no início do trabalho Rocha precisou driblar o preconceito de funcionários e dos próprios detentos, hoje as aulas são concorridas e respeitadas.

No começo deste ano, mais de 300 interessados tentaram uma vaga — só podem sair para apresentações externas aqueles que estão em regime semiaberto. Duas vezes por semana, por três horas, o agente recorre a jogos dramáticos, à neurolinguística e até mesmo ao psicodrama. “Todas as cenas reproduzem episódios reais. Trago à tona a realidade deles”, diz.

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Em uma das sessões, por exemplo, a turma reviveu o dilema de um prisioneiro que voltou para o cárcere depois de um tempo solto. A história do grupo de Guarulhos acabou incluída no filme Na Quebrada, de Fernando Grostein.

Na carreira de carcereiro há dezessete anos, Rocha mergulhou na dramaturgia devido a um problema de saúde. Em 2003, sofria de uma depressão severa. Angustiado e prestes a abandonar o trabalho, foi convidado a participar de uma classe de atores amadores que seria formada apenas por agentes do presídio. “O teatro salvou minha vida, foi o meu desabafo. Quero poder oferecero mesmo aos presos”, afirma.

Fonte: VEJA SÃO PAULO